Joana Espadinha: "muitas crianças estão a cantar as minhas músicas"
Entrevista à cantora, nas vésperas dos concertos em Lisboa e Porto.
"Ninguém Nos Vai Tirar o Sol" é o título confortante e coletivista do álbum mais recente de Joana Espadinha. "Ninguém nos vai tirar a felicidade" é o que parece querer dizer Joana Espadinha nesta entrevista, na iminência de mais um sinal da retoma, com o seu regresso aos palcos, nesta terça-feira, dia 22, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e na sexta-feira, dia 25, Auditório CCOP, no Porto.
No concerto na capital, Joana Espadinha terá duas convidadas muito especiais: Luísa Sobral e Carminho. Na Invicta, a interação será com Cláudia Pascoal. Falta já muito pouco tempo para os sorrisos voltarem aos rostos de músicos e espectadores, na vida de Joana Espadinha.
O que é que podemos esperar dos teus concertos em Lisboa e Porto?
Podem esperar uma cantora e uma banda muito felizes por regressarem a palco e por finalmente poder apresentar as canções do novo disco, que nos foi tão querido e que nos saiu tão caro em termos de entrega, num contexto tão difícil para os músicos. Temos algumas surpresas preparadas, fora do reportório. Vamos cantar as músicas mais conhecidas do álbum anterior ["O Material Tem Sempre Razão"].
É a primeira vez que colaboras com a Luísa Sobral e a Cláudia Pascoal [pergunta feita antes da divulgação da participação de Carminho]?
Eu tinha escrito uma canção para o disco da Cláudia Pascoal. Quando ela apresentou o disco, eu cantei com ela. A parceria começou dessa forma, a compor para ela. Depois é que nos conhecemos pessoalmente e, no fundo, nos entendemos.
Já conheço a Luísa há muitos anos, acompanhei o início da carreira dela nos primeiros álbuns. Somos amigas, mas curiosamente nunca partilhámos um palco. Somos fãs uma da outra. Aprendi imenso com ela, não só a parte criativa, como a forma como gere e domina todos os aspetos da carreira dela. Isso foi muito inspirador para mim. Recentemente, ela entrevistou-me para o podcast dela, O Avesso da Canção, numa conversa muito gira sobre a escrita de canções. Só faltava mesmo partilharmos o palco. Isso já era para ter acontecido há mais de dois anos [em 2019], no Villaret. Só que a Luísa Sobral apanhou uma amigdalite e não podia cantar. Agora, finalmente vamos concretizar esse desejo.
Tens gostado das reações ao teu último álbum "Ninguém Nos Vai Tirar O Sol"?
Tenho gostado bastante. Era um disco que se queria esperançoso, sem grandes pretensões e sem ser demasiado ingénuo. Como a minha música tem um lado melancólico, acaba por ser um álbum positivo, com boa onda. Esse tem sido o feedback que me chega, sobretudo de pessoas que ouvem as canções, e que já as conhecem e as cantam nos concertos. Não foi nada premeditado, mas de repente muitas crianças cantam o 'Mau Feitio' ou 'Astronauta'. Não podia ter tido um feedback melhor.
Publicaste agora o videoclipe 'Astronauta', onde, em sentido figurado, entramos em tua casa. Qual é a ideia por trás do vídeo?
Quando os vídeos são muito literais e descrevem muito a canção, deixam menos à imaginação. O Tiago [Brito] é um criativo com muito bom gosto e um sentido estético apurado. Ele sugeriu este formato, como se eu estivesse enclausurada numa casa, à medida que os dias vão passando, porque, no fundo, a canção acaba por ser uma metáfora para tudo isto que estamos a viver, do isolamento das nossas relações e como sair desta redoma. A forma como o Tiago olhou para a história e a tornou um pouco sua, com essa técnica em que vai sobrepondo vários quadrados de imagens, foi de uma visão muito interessante. Sem grandes malabarismos, acho que está com muito bom gosto e que conta a história da canção.
A pop é o teu habitat musical?
Agora, sim. O habitat musical vai mudando. Já foi o jazz. Quando queria abraçar a pop, as pessoas diziam: “não, ela só faz jazz”. E eu ficava muito chateada com isso. Faço a música que me apetece fazer. Porque é que tem que ter um rótulo? No fundo, [o habitat] é o formato da canção universal e trauteável. A minha banda favorita de todos os tempos, os Beatles, fazia canções excecionais, com a aparência de simplicidade, mas que eram bastante complexas. Tinham uma universalidade que só as grandes canções têm. Não estou a comparar-me com os Beatles, evidentemente, mas sem dúvida que são uma inspiração. Fazer algo que pareça simples, chegar às pessoas e despoletar a vontade de cantar: é essa a minha vontade.
É isso que sinto nas tuas canções: esse jeito para a simplicidade. Imagino-te a gostar, por exemplo, da Madalena Iglésias, em que as canções são simples e engraçadas e ao mesmo tempo complexas.
É curioso estares a dizer isso, porque acho que é importante sabermos brincar com as desgraças e rirmos de nós próprios. É algo que tem resultado muito bem na minha vida. É preciso desdramatizar e viver um dia de cada vez, com uma pitada de humor e de ironia. É isso que tenho tentado fazer - não com todas as canções, evidentemente. Acho importante falarmos de coisas sérias de uma forma leve e divertida, como, por exemplo, a canção que escrevi agora para o Festival da Canção, o 'Ginger Ale', que vai ser cantada pela Diana Castro. É sobre um assunto sério mas que está escrita de uma forma divertida. Porque para mim, fez sentido brincar com isso.
Hoje vou beber um ginger ale/Doce mas parece errado/Como um passaporte para voltar a mim
O título de 'Ginger Ale' é curioso. Era a bebida que eu pedia sempre na minha adolescência.
Eu também.
O que é que te fez apostar na Diana Castro para cantar o 'Ginger Ale' no Festival da Canção?
Já conheço a Diana há muitos anos. No início da minha carreira, num musical amador encenado pela Matilde Trocado (que é uma grande amiga minha), em que participei, a Diana não pôde fazer parte [do elenco] porque era nova de mais. Eu não a conhecia. Lembro-me de uma miúda que me veio dar um ramo de flores que comprou para me dar, porque gostou de me ouvir. Depois, fui acompanhando o seu caminho, no teatro musical, e com o marido, que é o Luís Roquette. Conheci uma grande voz e uma pessoa muito trabalhadora e dedicada. Aliás, a Diana só tem crescido e cada vez vão ouvir falar mais dela. Há uma coisa muito importante: o 'Ginger Ale' fala da experiência da maternidade, de ser mulher e de levar com a expetativa de sermos ótimas em tudo: sermos bem-sucedidas profissionalmente e sermos super-mães. Isso é algo claustrofóbico e desadequado, essas expetativas podem tornar-se sufocantes. Para mim, era importante que quem cantasse esta música soubesse o que isto é e que entendesse a mensagem. A Diana é também mãe, aliás, é mãe de três, portanto, ainda entende mais o que estou a falar. Ela entendeu na perfeição aquilo que eu queria dizer. Além de grande intérprete, tinha que ser uma pessoa que entendesse a mensagem e foi por isso que eu a escolhi.
Dá logo para reconhecer que é uma canção tua, tem uma marca muito pessoal. Vais aproveitar o 'Ginger Ale' para o teu próprio reportório?
Há canções que escrevo para outros que fico com pena de não cantar. Nunca senti que tinha de editar uma canção que tenha escrito para outra pessoa. Esta canção vai de facto muito na onda daquilo que tenho interpretado. Isso é uma novidade. Eu podia muito bem ir cantar este tema ao Festival. Simplesmente, não quis repetir porque já lá tinha estado e achei que se encaixaria bem noutra voz. Mas não afasto a hipótese de vir a interpretar a canção. Quero fazer uma outra versão para editar. Mas, por agora, não faz sentido pensar nisso.
Sentes-te bem em palco?
Sinto-me cada vez melhor em palco. Conheço muitos artistas e, enquanto professora, muitos alunos que se debateram com a ansiedade de estarem em palco, porque é um lugar em que estamos muito vulneráveis e expostos. É preciso amadurecer essa experiência para realmente desfrutar do palco. Isto varia de pessoa para pessoa. Há quem nunca fique nervoso, há quem tenha superado esse nervosismo, há quem tenha ficado nervoso por uma razão ou outra. Eu debati-me muito com a ansiedade de palco, sobretudo na fase em que estava a estudar. Comecei a pensar de forma muito racional e a ligar muito ao erro e à perfeição técnica. Tive de me libertar disso para voltar a desfrutar. Hoje, posso dizer que o palco é um dos sítios onde me sinto mais feliz e completa.
Há alguma atuação tua que te traga memórias mais especiais do que qualquer outra?
O concerto que fiz no Teatro Villaret [em Lisboa] foi muito especial. Era suposto ter tido a presença da Luísa Sobral, mas contou com o Samuel Úria. Sempre que partilho o palco com o Samuel, quer em concertos meus, quer em concertos dele, são sempre noites especiais. Eu acho que tem a ver com a sintonia que se cria com o público. Por exemplo, no Bons Sons [festival em Cem Soldos, junto a Tomar], o concerto que fiz com o Benjamim, com metade da minha banda, metade da banda dele; metade canções dele, metade canções minhas. Foi um dos melhores concertos da minha vida, num festival muito especial como o Bons Sons. A música ao vivo é algo irrepetível e nós precisamos muito dos concertos para retomarmos a normalidade.
Já vi que gostas muito de parcerias em palco.
Eu gosto mesmo é de ser feliz em palco e de o partilhar com os meus amigos, enquanto pessoas. Construir essa relação comigo é maravilhoso. Não é só a qualidade do artista, é também a relação. A música precisa dessa verdade, dessa autenticidade.
Joana Espadinha vai ser acompanhada em palco por João Firmino na guitarra, Francisco Brito no baixo, Margarida Campelo nas teclas e Nuno Sarafa na bateria.
