João Gil e o regresso da Ala dos Namorados: "continua a ser um caso de amor à primeira vista"
"Brilhará" é o nome do novo disco que assinala o novo ciclo da Ala dos Namorados.
A Ala dos Namorados está de volta, com João Gil e Nuno Guerreiro ao leme deste regresso que também assinala 30 anos do grupo que nos ofereceu 'Fim do Mundo', 'Solta-se o Beijo', 'Há Dias em Que Mais Vale' ou 'Loucos de Lisboa', entre outras canções que passeiam pela memória coletiva portuguesa.
João Gil, à guitarra, e Nuno Guerreiro, na voz, juntam-se a Rúben Alves, no piano, a Alexandre Frazão, na bateria, a Nelson Cascais, no contrabaixo, e a Luís Cunha, no trompete. É um novo ciclo de vida da Ala dos Namorados que arranca com concertos e um novo álbum. "Brilhará", assim se chama o disco, chega com novos horizontes e com uma sonoridade que, embora adaptada ao presente, tem vista para o futuro.
O novo álbum reúne letras com poemas de escritores e letristas de renome como Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Fernando Pessoa, Maria do Rosário Pedreira e João Gil. Foi precisamente com o João Gil que conversámos sobre o regresso do grupo que no próximo dia 14 de fevereiro sobre ao palco do Casino da Póvoa, na Póvoa de Varzim.
Tinhas saudades da Ala dos Namorados?
Sim. Tinha saudades do futuro que um dia poderia acontecer. Quando nos separámos, o processo não foi litigioso. Não foi um divórcio sem volta a dar. Havia volta a dar. Pouco tempo antes da pandemia, telefonei ao Nuno Guerreiro e perguntei-lhe: 'e se juntássemos os trapinhos outra vez e recuperássemos a velha Ala?'. O Nuno nunca mais largou a ideia.
Já tinhas ideias para temas novos nessa altura?
Não propriamente. Queria sobretudo regressar. Sentia que, com esse regresso, estaria a interpretar o desejo de muita gente. Nestas coisas nunca estamos sozinhos. Sempre que convidava o Nuno para cantar duas ou três canções nos meus espetáculos, a cara das pessoas mudava. A energia mudava quando nos viam juntos. A energia coletiva que se sentia nas salas ficava diferente. Era como se, de repente, ficássemos ligados à eletricidade. Sentia isso no palco. E o Nuno também. O regresso era apenas uma questão de tempo.
Com uma formação diferente...
Sim. Quando iniciamos o processo do regresso, o Manuel Paulo decidiu não continuar. Aproveito para lhe desejar o melhor e as maiores felicidades no seu percurso. Neste 'começar de novo' sou eu e o Nuno ao leme.
E como surgiram as novas canções?
O repertório da Ala dos Namorados é tão rico que dava para fazer apenas um exercício de saudosismo. Não havia necessidade de criar originais novos, mas, por outro lado, senti que havia necessidade de criar uma memória para o futuro. Voltar só por voltar faz sentido com os Trovante, por exemplo. É algo que está mais distante. Se os Trovante voltarem a tocar, o que aliás é uma hipótese que colocamos sempre, será sempre uma reconstituição histórica. Com a Ala é diferente. Seria bacoco voltar com a Ala dos Namorados sem fazer nada de novo. Acho que não fazia muito sentido. Com a pandemia, acabei por ter tempo para fazer aquilo que considero ser mais salutar, se é que posso aplicar esta palavra, que é procurar, na minha produção musical, aquilo que tem a ver com a voz do Nuno e com o conceito da Ala dos Namorados. Nem tudo cola. Não é qualquer músico que entra neste universo. Imponho a mim próprio esse rigor. Há uma regra de sensatez na Ala dos Namorados. Há uma linguagem e um rigor musical que servem o projeto. Impusemos um conjunto de regras musicais desde o início.
E como é que é essa linguagem em 2023? Voltam com que sonoridade?
Estamos todos apaixonados pelo som. Acho que a Ala dos Namorados continua a ser um caso de amor à primeira vista. É assim desde o início e volta a ser neste regresso. E só é assim porque este projeto não nasceu torto. Quando mostrei as canções ao Nuno e ele começou a cantá-las, foi amor à primeira vista. Também foi amor à primeira vista, quando partilhámos os temas com o Rúben Alves e começámos a fazer os primeiros arranjos, a tratar da produção. Depois entrou o Alexandre Frazão, que é um companheiro de estrada e um grande baterista português. Sentimos que voltou a ser amor à primeira vista com todos os músicos. Com o Nelson Cascais no contrabaixo, um músico excelente que já pertencia à primeira formação, e com o Luís Cunha no trompete que, além de ser professor no Hot Clube, é um grande multi-instrumentista. Toca piano, cavaquinho, guitarra. É uma pessoa encantadora e também se apaixonou pelo novo material. Quando mostramos as canções no ensaio aberto que fizemos no Capitólio foi amor à primeira vista com o público.
Está tudo a fluir…
E há uma conjugação astral muito interessante. Nós temos o desejo de voltar, o público quer voltar a ver-nos e as novas canções têm uma luz extraordinária, com letras e poemas muito bons. Estão reunidas as condições para que as pessoas que estão à volta da Ala dos Namorados voltem a sorrir connosco.
"Brilhará" é o nome do novo disco. O que é que podes revelar sobre o álbum que vem aí?
É o tipo de álbum que recupera o ato de "mastigar" um disco até à exaustão. Respeita o prazer de ouvir música. Estou convencido de que este disco tem o potencial de ser ouvido da primeira à última nota, com a magia de ouvir música sem fazer swipe.
Mas isso tem a ver com a narrativa que liga as canções ou com a viagem sónica?
Com a viagem sónica. Tem a ver com o prazer, com o deleite de ouvir música, de sentir a música, além da voz. É um álbum com paisagens sonoras inacreditáveis.
E letras, presumo eu. Há autores como Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Zeca Baleiro, Maria do Rosário Pedreira e até Fernando Pessoa. Destacas alguma ou algumas?
Posso destacar o Largo Horizonte, do Mia Couto, por exemplo. É uma letra que foi extraída do projeto Viagem Pelo Esquecimento, que é uma peça de arte digital que foi feita pela Ana Mesquita. Eu fiz a música para essa peça, a poesia é de Mia Couto. Há também um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) que fui buscar à Ode Marítima que fiz com o Diogo Infante. A esse fui buscar o Chamam Por Mim As Águas. Este disco tem muitas histórias. O José Eduardo Agualusa escreveu a canção Cássia Rubra, que é uma morna lindíssima. Eu escrevi o tema Eu Só Sei Cantar Assim, que em princípio será o single. É um manifesto. Acho que, em 2023, já não podemos admitir certas coisas. É sobre a importância de cada um ser como é e acho que encaixa na perfeição na pessoa que é o Nuno. É sobre a importância de cantar o que queremos, como queremos. Se danço de uma determinada maneira, não me obriguem a dançar de outra forma. É uma canção para derrubar muros. Vivemos apenas uma vez. Temos de aproveitar ao máximo as nossas valências. Temos de ser felizes. E para sermos felizes não podemos estar constantemente no processo de autorrecriminação.
E como está a ser a transposição do álbum para o palco?
É igual. Este disco foi sempre gravado em coletivo, tendo sido depois aparafusado aqui e ali. Mas todo o disco foi gravado em ensemble. A energia é a mesma do palco. São os mesmos músicos. É um álbum orgânico, um disco à antiga e, atenção, digo isto sem querer desmerecer géneros como a eletrónica, que até tem coisas que me agradam muito. Gosto muito da música sequenciada, do que se faz nalgum hip-hop. Não é por aí. Mas acho que é um álbum muito humano.
E os temas mais antigos, deram algum toque na sonoridade dessas canções?
Uma das coisas que queria fazer era mudar a sonoridade. No início [da Ala dos Namorados], tínhamos um clarinete, percussão. Depois tirámos o clarinete e metemos um trombone. Quando pensei neste regresso, sabia que tinha de tirar o trombone por muita qualidade que tinha. O Rúben Luz é um grande trombonista, um grande músico. Mas eu tinha de mudar a sonoridade e ao incluir um trompete e o Luís Cunha na banda mudou tudo. As músicas antigas ficaram diferentes, com outra pujança.
