João Só: "um artista tem de ser disruptivo"
Entrevista ao músico, compositor e produtor. "Nos Tempos LIvres", o novo álbum, já está disponível.
Na sexta-feira, 22 de novembro, João Só editou "Nos Tempos Livres", o sexto disco de originais e o sucessor de "Nada é Pequeno no Amor", lançado em 2021.
As 11 canções do novo disco ganharam forma em ambiente caseiro e durante os tempos livres que sobraram da rotina presa às obrigações da vida familiar e profissional do músico, produtor e pai de três filhos.
João Só continua a celebrar 15 anos de carreira nos palcos. A 29 de novembro, o músico atua no Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal. O concerto terá o cantor Toy como convidado.
Quero começar pela simplicidade capa do álbum. Lembra-me a capa do "White Album" (disco dos Beatles). Sendo tu um fã absoluto dos quatro fabulosos, não sei se acaba por ser uma homenagem. Existe alguma ligação entre as duas capas?
Sim. Inicialmente, pensei em fazer a capa em papel kraft. Era para ser da cor de cartão em vez de ser branca. Mas depois acabou por ficar com a capa branca recisamente porque o Francisco Ferreira, o designer, sabe que eu tenho essa ligação com os Beatles. Ele achou que era inevitável assumirmos essa ligação. Algumas canções do disco têm uma sonoridade mais crua e mais direta tal como acontece com o "White Album". Aliás, esse é o meu álbum preferido dos Beatles. Vai a muitos lugares. E o "Nos Tempos Livres", apesar de ter apenas 11 canções, também vai a alguns sítios. Quisemos mostrar um disco sem caras, sem imagens. Quisemos colocar as letras e as músicas no centro do álbum.
O teu disco vai a que lugares?
Tanto vai ao dia a dia e à minha vida familiar como vai até às minhas inquietações, ao desespero e a alguns devaneios. Passa por histórias mais solarengas mas também vai ao encontro do rock que eu fazia quando comecei a fazer discos. Traz um pouco as guitarras de volta. Acho que isso é uma consequência natural da minha digressão de celebração dos 15 anos de carreira e dos convidados que levei para o palco. Sempre me disseram que a minha música ao vivo soa a mais rock, que é mais alta. Tentei transpor novamente esse universo para um disco. Estou muito satisfeito. Estamos em 2024 e até agora as pessoas estão a aguentar ouvir um disco com guitarras. (risos)
E, de certa forma, também reforça a tua vontade em manter a tua criatividade autêntica...
Sim, sim. Sem dúvida. A parte que menos gosto é quando tenho de promover os discos. Falo da parte em que tenho de tirar fotos e fazer os vídeos. Mas este álbum está a dar-me bastante gozo. É um disco levezinho, feito em casa. Sempre com amigos à volta, como eu gosto. Está a ser um processo giro. Está a ser um disco "à João Só". E a capa também reflete isso.
Já que falas nos teus amigos, vou buscar as palavras que a Nena escreveu sobre o teu álbum. "Este disco do João, 'Nos Tempos Livres', é, na minha opinião, o reflexo dessas vivências diárias, dessas pequenas coisas que nos inspiram a criar". É esta a tua matéria-prima?
Sou um anotador ambulante. Estou sempre com as notas do telemóvel abertas para apontar o que vejo, o que leio ou até as coisas às quais acho piada. Estou sempre a ouvir conversas. Às vezes, quando sinto que posso estar a ser um pouco invasivo, até peço autorização. Por vezes, deixam-me utilizar o que oiço nas letras e outras vezes não. Ando sempre à caça do que está a acontecer à minha volta para depois transpor o que vejo para a minha realidade e para o meu dia a dia. Há canções que ganham com essa cusquice. Ultimamente, esse meu lado coscuvilheiro tem ajudado a minha obra.
Sempre em alerta criativo...
Sim. Sempre em estado de alerta.
Na descrição do álbum podemos ler que "'Nos Tempos Livres’ explora a ideia de que 'há um tempo para tudo', mas também nos confronta com a realidade de que 'não há tempo para nada'". Em que sentido? Qual é a tua noção atual de tempo?
Tenho a sensação que o tempo passa muito rápido. Tenho três filhos e o quarto vem a caminho. Vai nascer em janeiro. Desde a hora em tenho de prepará-los para saírem de casa à hora em que regressam, tenho uma janela curta de tempo para trabalhar e para deixar os meus artistas e clientes satisfeitos. Pelo meio, ainda estou a fazer música, que acaba por ser uma atividade sensível. Estou a lidar com as emoções das pessoas e, ao mesmo tempo, tenho de tratar de uma data de coisas em casa, da escola dos miúdos ou das idas ao médico. O tempo passa muito rápido, mas também é possível encontrar "luzinhas" no meio de tanta pressa. Falo de certos momentos que acabam por ser mágicos. Como gravei o disco em casa acabei por estar mais tempo com os meus filhos. E vê-los crescer em tempo real tem sido ótimo para tudo. Tanto para a minha vida como para o meu trabalho. Além disso, tenho a porta sempre aberta para as pessoas com quem trabalho.
Achas que a idade dá-nos a capacidade de identificar melhor esses momentos?
Acho que sim. A idade dá-nos essa clareza. Obrigo-me a desfrutar muito mais dos momentos de pausa ou de lazer.
Mas também há uma linha melancólica neste álbum...
Sim. Acho que o disco também reflete algum cansaço. Cansaço físico e o cansaço psicológico de querer estar bem em tudo, ao mesmo tempo. Nem sempre conseguimos. E quando não conseguimos podemos cair. Temos de nos levantar a seguir. Este disco tem os tropeções e as quedas mas também os momentos em que estou mais para cima. É como se fosse um reality show mas um pouco mais polido. O disco anterior ["Nada é Pequeno no Amor"] era muito pessoal, muito confessional mas era esperançoso. Este é mais franco, mais cru. Esteve para se chamar "Despeja Bolsos" por causa disso. Despejar o que tinha cá dentro.
O single mais recente chama-se 'Paz Podre'. Que paz podre é esta? É uma observação da realidade macro ou micro?
Ambas. É inevitável fugir ao assunto da guerra. Embora não nos afete diretamente, estamos a viver em guerra. É um privilégio saber que a minha casa é um espaço seguro para os meus filhos e que não corremos o risco de sermos bombardeados. Mas também sinto que as pessoas à minha volta têm muito medo de dizer as coisas. Andam sempre no "diz que disse". Sinto que a falta de honestidade, de franqueza e de verdades - que por vezes doem - é uma paz podre com a qual já nos habituamos a viver. Habituamo-nos bem demais.
E qual é, para ti, qual é o papel que um artista pode ter na mudança?
Acho que um artista tem de ser disruptivo. O David Bowie dizia que um artista não é um criativo de marketing. Um artista não tem clientes, tem público. Os clientes não afinam a obra de um artista. Acho que é importante que o artista se agrade a si próprio quando faz uma obra. Para depois arcar com as consequências da obra que faz. Com a arte que faz tem o papel de chamar a atenção consoante os seus valores e à luz daquilo que considera certo. Acho que não devemos deixar de dizer as coisas. Há coisas que custam ser ditas, que moem e que ficam mais tempo a marinar mas têm de ser ditas.
Continuas a celebrar 15 anos de carreira. Estás satisfeito com o caminho que tens trilhado?
Estou super contente. Acho que foram 15 anos muito fecundos, com muitos discos, EPs, com muitas celebrações, com duetos. Produzi montes de discos. Trabalho muitas músicas por ano. Estou super satisfeito. Fizemos uma digressão enorme. Tive o coliseu cheio de amigos. Poder ser músico tem sido uma graça enorme. Tem sido uma graça as pessoas gostarem, terem curiosidade para ouvir e quererem fazer parte.
E tens aí mais concertos agendados, não é?
No dia 29 de novembro, vou atuar no Fórum Luísa Todi, em Setúbal. Vou apresentar o disco novo.
Como é que vai ser?
Vai ser um concerto de João Só mas com mais músicas deste disco. E vamos ter um convidado especialíssimo que é o Toy.
Alinhamento do disco "Nos Tempos Livres":
1- Tempos Livres
2 - Paz Podre
3 - Entre o Passado e o Futuro
4 - A Cada Dia
5 - Trinta Segundos
6 - Dou demais
7- Eu não Sou Daqui
8 - Raiz
9 - Eu Chorei
10 - Hoje não
11 - No Sangue
