João Vieira na pele de Wolf Manhattan: "é mais entusiasmante trabalhar sobre um alter-ego"
O homem dos X-Wife e dos White Haus fala sobre o seu novo personagem.
João Vieira tem sido um dos nossos grandes indie-rockers. De fenómeno da boémia rock & roll do Porto enquanto DJ Kitten, rapidamente se projetou como um ícone nacional, como o frontman dos X-Wife, uma das bandas que abanou o underground no país.
Demasiado eclético para caber num ou dois projetos, João Vieira foi mostrando outros ângulos nos White Haus. Agora, enfiou-se numa personagem, o solitário nova-iorquino Wolf Manhattan, que é um dos seus projetos mais ambiciosos. O disco tem o apoio complementar de um livro ilustrado onde se conta a história do músico e do seu manager fantasmagórico Vince. O vinil, aberto, é também um jogo de tabuleiro (em edição limitada). E os concertos correm o risco de se tornar algo mais do que isso, com uma componente teatral, onde não veremos João Vieira mas sim o Wolf Manhattan.
Com canções magnificamente simples e trauteáveis, a paixão pelo rock & roll de João Vieira ganha um novo corpo. O lobo solitário merece ser seguido por uma alcateia.
Os concertos de apresentação de Wolf Manhattan são só a 3 de fevereiro no Auditório CCOP, no Porto, e a 10 de Fevereiro na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Mas quisemos ouvir já o que João Vieira tem para dizer sobre a sua nova personagem e o respetivo disco "Wolf Manhattan".
Como é que nasceu na tua cabeça o Wolf Manhattan?
O Wolf Manhattan nasceu de uma necessidade de pôr algumas canções cá fora, algumas delas já tinham alguns anos. Era um projeto que vinha sendo adiado. Não sabia muito bem como é que haveria de pôr cá fora este tipo de canções, que não se enquadravam em alguns dos meus projetos como os X-Wife ou os White Haus. Foi preciso formar um projeto novo para pôr as canções cá fora. Ao mesmo tempo, não queria que fosse só em nome de João Vieira, pensei que tinha que ser algo mais elaborado que isso e criativamente um pouco mais ambicioso. Daí ter criado um personagem chamado Wolf Manhattan, para lançar estas canções e criar todo um universo à volta dele. Achei que seria muito mais interessante do ponto de vista criativo. É também mais entusiasmante, rico e desafiante trabalhar sobre um alter-ego do que com um nome próprio. O Wolf vem do lobo solitário, porque as canções foram feitas de uma forma muito solitária, numa guitarra ou num orgãozinho com uma caixa de ritmos. [Usei o nome] Manhattan por ter uma sonoridade americana, com muitas raízes e influências americanas. Depois há a história do lobo que cresce em Manhattan e vive sobre uma mercearia. Daí o nome Wolf Manhattan. Demorei alguns anos a chegar a este nome. Uma vez que o encontrei, consegui criar todo um personagem.
Como é que designarias este objeto? De áudio-livro?
Eu não queria estar limitado a um disco só com canções. Quis sair dessa limitação da música. Achei que ao criar esta história e ao editá-la em livro, e ter o ilustrador certo para este projeto, um inglês que conseguiu perceber o tipo de estética que eu queria dar: assustador e ao mesmo tempo infantil, que tivesse um lado de novela gráfica e um lado punk e lo-fi. Ao criar toda essa estética de uma linguagem de ilustração, achei que podia lançar um livro com a história do Wolf, para as pessoas compreenderem melhor as canções. O próprio disco tem um jogo de tabuleiro. O espetáculo vai ter uma peça teatral musicada. Não é tanto um concerto convencional, mas mais trabalhado, com cenários e tudo isso. Há muita coisa que estava na altura de explorar, em vez de me limitar só à música. Sendo o espetáculo e sendo um objeto, uma pessoa pode sempre ambicionar ir mais longe e ser mais criativo. Foi isso que fiz.
Tiveste experiências nova-iorquinas que te inspiraram para esta personagem? Chegaste a viver em Nova Ioque?
Vivi muitos anos em Londres. Muito do meu background cultural vem de coisas que descobri lá. Mas Nova Iorque foi sempre uma cidade muito presente, sobretudo com os X-Wife, onde tocámos várias vezes. Fizemos lá pequenas turnés. Tivemos os nossos discos à venda em lojas lá. Tivemos alguma vivência lá, porque conhecemos pessoas que viviam em Nova Iorque, que nos mostraram esse lado. Muitas das minhas referências que oiço dos anos 2000 e até dos anos 60/70, estão marcadas neste disco, como os Velvet Underground e o universo do Andy Warhol, estão presentes [em Wolf Manhattan]. Nova Iorque é a cidade que mais se identifica com o projeto.
Em que é que são diferentes João Vieira e Wolf Manhattan?
É como nas redes sociais, as pessoas escolhem expor o seu lado pessoal ou só a sua parte profissional. Há várias opções que podes tomar. Já que vivemos num mundo muito digital, onde as pessoas comunicam constantemente através da imagem, achei que era interessante separar as coisas entre a minha vida pessoal e a minha rotina, criando uma rotina só para o meu personagem, um alter-ego que tem hábitos diferentes, que se rodeia de coisas diferentes e que é trabalhado como um projeto. Imaginemos um autor que cria um personagem de banda desenhada e aventuras para esse mesmo personagem. São histórias de ficção. E eu queria criar algo de ficcional, porque eu, de certa forma, não gosto de me expor pessoalmente assim tanto. Não estou tão à vontade com essa pressão mediática de uma pessoa ter que dar a cara e de se expor. O Wolf Manhattan acaba por ser um escape e uma realidade alternativa com que posso brincar, mantendo a minha vida pessoal à parte.
Referes figuras muito individualizadas, como o Adam Green, o Daniel Johnston, ou o Jonathan Richman (sem os Modern Lovers). Será que a forma como gravaste as canções de forma tão solitária te empurraram para esse fascínio pelo bicho do mato?
Não, acho que houve uma série de fatores que me influenciaram para essa sonoridade. Vi o Adam Green há muitos anos e foi um concerto que me inspirou. Foi alguém que, só com uma guitarra, conseguiu contar histórias muito engraçadas e cómicas e captar a atenção do público, sem grandes artifícios. Achei muita piada. Esses músicos que falaste agora, como o Daniel Johnston, são referências para mim, que não se enquadravam nestes projetos. Sem querer soar a cliché, acho que a pandemia e a impossibilidade de estar com outros músicos acabou por quebrar um ciclo de concertos de promoção de discos dos X-Wife e dos White Haus. Houve um isolamento que abriu portas para explorar coisas sozinho, com uma guitarra, um órgão e uma caixa de ritmos. Depois apareceu o André Tentúgal que acabou por produzir o disco comigo e que me incentivou a lançar estas canções. A produção passou por ele e por mim. Estivemos os dois a fazer uma seleção dos temas para levar para estúdio. Depois das maquetas feitas, muitas delas próximas de como ficaram em disco, foram já trabalhadas num estúdio mais profissional. Mas, sim, partiu do querer fazer sozinho, despojado de produções de eletrónica e de muitas camadas. Se fosse preciso pegar no meu carro e dar um concerto, seria possível, sem grandes complicações logísticas. Esse foi um desafio que me impus a mim próprio. Criei esta limitação de tocar só com guitarra, órgão e caixa de ritmos, sem utilizar mais elementos. Há outras guitarras ali, mas o disco está limitado a esses elementos.
Era como se estivesses a gravar cassetes como o Daniel Johnston, naquela forma muito arcaica.
Sim, a ideia era criar um som minimal, em que as canções fossem realmente o foco, com letras que as pessoas pudessem compreender: histórias de ficção que fossem engraçadas, nada para levar demasiado a sério. É pegar nas coisas rotineiras e dar-lhe um lado mais poético e mais cómico, com as letras a assentarem na sonoridade, que tinha que ser mais minimal, não poderiam ser coisas demasiado produzidas em estúdio, com muitos artifícios, baterias e baixos e essas coisas. Porque aí, as canções iriam perder a sua magia. É muito importante perceber onde e quando as coisas devem encaixar e que tipo de som funciona num ou noutro projeto. Vindo dos White Haus, onde tenho camadas e camadas de sintetizadores, caixas de ritmos e coisas mais trabalhadas, foi libertador só me concentrar na canção.
Que jogo de tabuleiro é este em forma de serpente, com cartões?
Foi uma ideia engraçada que tive. Uma vez, estava a navegar no Instagram e vi um jogo de tabuleiro e pensei: “olha que engraçado, um jogo de tabuleiro era engraçado de se incluir num disco. Um disco [vinil] ao abrir fica mais ou menos com o tamanho retangular de um jogo de tabuleiro, como o Monopólio. “Se calhar podia-se fazer um jogo estilo Jogo da Glória”. Depois pensei: e se fosse um Jogo da Glória misturado com o Trivial Pursuit, em que as pessoas que compravam o disco tinham que responder a perguntas sobre as canções. Se calhar isso era uma coisa muito mais interessante, porque o Jogo da Glória não tem interesse nenhum, é só sorte. Então pensei que como o disco tem tantas personagens, pensei que era engraçado pedir ao ilustrador para fazer uns bonecos que se movem nas casas da serpente. Fui fazendo os protótipos e fui testando o jogo e criando as perguntas. Foi outro projeto que me deu imenso gozo fazer. A ideia é, à medida que vais ouvindo as canções, ires respondendo às perguntas e chegar ao fim do jogo. É uma graça porque as perguntas estão limitadas. Isso torna-se repetitivo. Mas a piada é poderes jogar com os teus amigos. É algo de diferenciador que motiva a comprar o vinil e não a ouvir só em plataformas de streaming. É uma peça de edição limitada para colecionador, numerada, é algo de especial para quem valoriza este tipo de coisas.
Estavas a falar há bocado de uma atuação mais teatral. Vai ser assim que te vais apresentar ao vivo na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, e no Auditório CCOP, no Porto?
Sim, quem for ao Instagram de Wolf Manhattan, vai perceber um pouco o universo dos personagens que lá estão. Eu quero que o espetáculo passe muito por isso: um concerto/peça teatral/performance. Há um contacto mínimo com o público, que vai assistir como se fosse numa peça. Não é um concerto convencional. Quero mesmo arriscar a fazer algo um pouco diferente. Pelo menos, são essas as minhas intenções. Se a coisa funcionará ou não, eu acho que sim. Eu quero proporcionar ao público uma experiência diferente. Não quero que seja uma coisa convencional de só ir lá e tocar as canções. É um espetáculo que está a ser pensado.
Portanto, vais atuar mascarado.
Exatamente. Não vou como João Vieira, vou no meu alter-ego, que está visível nas fotos de promoção. Quero que as pessoas fiquem alienadas a tudo o que se passa lá fora, como se entrassem numa sala de cinema, desligassem o telemóvel e se focassem naquilo que estão a ver. Ou como se fossem ver teatro ou bailado. Acho que nos concertos as pessoas ainda se distraem e pegam nos telemóveis. Aqui queria que a experiência fosse diferente. Estamos a trabalhar nesse sentido.
Já imaginas próximas aventuras para o Wolf Manhattan?
As minhas aventuras são tocar este discos e que a música chegue a muita gente. Acho que o disco tem potencial para crescer, o espetáculo vai funcionar. Tem tudo para correr bem. É um projeto que está muito bem pensado a todos os níveis e eu acho que o mundo está neste momento a precisar de canções. Acho que está tudo muito virado para a produção e faltam as canções. E eu quero que as canções sejam a parte principal do projeto.
Vamos ter a presença de um fantasma chamado Vince?
Vamos. Ele [André Tentúgal] é que me puxou a escrever estas canções. A ficção tem ali um lado de verdade.
