Johnny Cash faria hoje 90 anos
O músico histórico nasceu a 26 de fevereiro de 1932 em Kingsland, Arkansas. Morreu em 2003.
Ao longo das nossas vidas deparamo-nos com uma escolha. Podemos escolher o amor ou o ódio... eu escolho o amor.
Johnny Cash
É um dos nomes mais importantes da música do século XX. O autêntico, complexo e gentil Johnny Cash faria hoje 90 anos. Resgatamos dez curiosidades sobre a vida do homem que cravou uma marca profunda na narrativa histórica musical. Escreveu mais de mil canções, compôs mais de cem hits e deu voz a canções de outros que acabaram por ficar um pouco suas. É a história do man in black (o homem de preto) que nos deixou em 2003.
A rádio e os campos de algodão
J.R. Cash, assim se chamava quando era criança, começou a trabalhar com a família nos vastos campos de algodão do Arkansas quando tinha apenas cinco anos. Tinha seis irmãos. A vida de trabalho, em plena Grande Depressão, era árdua, mas levava-se a cantar. No lavor dos campos entoava-se sobretudo gospel.
Motivado desde pequeno pelo ritmo e pelos sons, o pequeno J.R. - que aprendeu a tocar guitarra com a mãe (Carrie Rivers Cash) e com um amigo de infância - "colava" o ouvido à rádio sempre que havia oportunidade. A música moveu-o cedo para os seus desígnios. Johnny Cash começou a compor aos 12 anos.
O irmão Jack
Foi também aos 12 anos que Johnny Cash embateu, com violência e sem aviso, com a palavra "perda". O irmão Jack Cash, dois anos mais velho que o músico, morreu na sequência de um terrível acidente na serração onde trabalhava para arranjar mais algum dinheiro que ajudasse a sustentar a família. A tragédia mudou Cash. Levou-lhe a parte da alegria pueril e encaminhou-o para uma existência bem mais solitária e introspetiva. Mais isolado e pensativo, o pequeno Cash teve de lidar com a dor excruciante de ter perdido um irmão. Importa acrescentar que Jack, um ávido leitor da Bíblia, fortaleceu a fé de J.R. até no leito de morte.
No livro "Cash" - a autobiografia que Johnny Cash editou com Patrick Carr em 1997 - o músico descreve o momento em que a família se despediu de Jack na cama do hospital. Momentos antes de morrer, Jack contou que estava num lugar maravilhoso, à beira de um rio e rodeado de anjos. A visão relatada pelo irmão nunca se dissolveu na memória de J.R.. "O Jack ficou comigo. Está sempre comigo e está também nas três canções que cantámos no funeral - 'Peace in the Valley', 'I'll Fly Away', 'How Beautiful Heaven Must Be', - foram estas canções que me sustiveram e que me renovaram ao longo da vida. Onde quer que eu esteja, posso começar a cantar uma destas canções para sentir paz. A graça de Deus invade-me. São canções muito poderosas. Muitas vezes têm sido o meu único caminho de volta, a única porta de saída da escuridão", escreveu Cash na autobiografia que editou em 1997.
Pertenceu à Força Aérea dos Estados Unidos (Air Force)
J.R. Cash alistou-se na Air Force em 1950. Tinha 18 anos. Foi na recruta que o músico decidiu mudar o nome para John R. Cash - até porque nunca seria aceite no universo militar se mantivesse apenas as duas iniciais no nome. O serviço levou-o para Landsberg, na Alemanha, cidade para onde foi destacado como operador de comunicações de rádio. Foi também em solo alemão que Johnny Cash comprou a primeira guitarra e formou uma banda: os Landsberg Barbarians.
Johnny e June
Johnny Cash conheceu June Carter (cantora country e membro da Carter Family) no backstage do Grand Ole Opry (evento de música do género) em Nashville, Tennessee, em 1956. Elvis Presley, amigo de ambos, apresentou-os. A atração entre os dois foi imediata, mas a união nem tanto. Johnny Cash era casado com Vivian Liberto e June Carter com Carl Smith. O amor que os uniu (até à morte de June em 2003) só ficou oficializado mais de uma década depois do primeiro encontro. Casaram em 1968.
"Não me lembro de mais nada nesse encontro a não ser dos olhos dele. Brilhavam como ágatas. [O Johnny] dominava as atuações de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Havia apenas uma guitarra, um baixo e um rapaz com uma presença muito gentil, que fazia com que o seguíssemos", escreveu June Carter.
Cash dizia muitas vezes que o amor que sentia por June tinha estatuto de "incondicional". Foi June quem ajudou o músico a libertar-se de adições, como as drogas e o álcool, que estavam a destruí-lo aos poucos. "Ela ama-me apesar de tudo. Apesar de mim. Ela salvou-me a vida várias vezes. Esteve sempre presente, com o amor que tinha por mim".
"Fez com que me esquecesse da dor durante algum tempo. Quando escurece, quando toda a gente vai para casa e quando apagamos as luzes sou apenas eu e ela", contou Cash à Rolling Stone. Johnny Cash morreu quatro meses depois da morte de June Carter.
As atuações nas prisões
Johnny Cash era atencioso com os menos afortunados, com os problemáticos e com os que viviam às margens da sociedade formalmente instituída. Era um homem generoso. Generoso e empático o suficiente para dar concertos em prisões de alta segurança. A primeira atuação para uma plateia privada da liberdade foi em 1958 quando deu um concerto em San Quentin, nos arredores de São Francisco. Alguns anos mais tarde, em 1969, Cash voltou a tocar nesse estabelecimento e aproveitou o regresso para gravar o concerto e guardá-lo em disco. O mesmo aconteceu com o concerto que o músico deu na cantina da Folsom Prison, outro estabelecimento prisional de alta segurança da Califórnia, em 1968.
O fascínio pela prisão e, em particular, pela Folsom Prison remonta aos tempos em que o músico prestava serviço militar na Alemanha no início da década de cinquenta. Foi nessa altura que Cash viu o filme "Inside the Walls of Folsom Prison" (1951) - película que o terá inspirado para a composição do tema 'Folsom Prison Blues' que editou em 1957 com o disco de estreia, "His Hot and Blue Guitar".
Por falar em filmes... "Frankenstein" era um dos filmes preferidos do músico
O filme "Frankenstein" (de 1931) era um dos filmes preferidos de Johnny Cash. Numa entrevista que deu à revista norte-americana Rolling Stone, Cash explicou as razões do fascínio pelo clássico de James Whale. "É sobre alguém que, apesar de ser feito de partes más, tenta ser bom", disse o músico.
Era escritor
Johnny Cash também escrevia. E escrevia desde pequeno. Ao longo da vida, escreveu poemas, histórias e até cartas, de tom reflexivo, que endereçou a si próprio. Cash deixou ainda duas autobiografias: Man in Black (1975) e Cash: The Autobiography (1997). A autenticidade sempre foi transversal na vida de Cash. Transversal também na forma como expôs, literariamente, as experiências biográficas, o amor, a fé, a subjugação às dependências e o caminho tortuoso para a redenção. Em 1986, por exemplo, editou o romance "Man in White" - um livro em que a figura principal é o apóstolo Paulo.
Johnny Cash, um nome e um legado cravados no Country Music Hall of Fame, no Rock and Roll Hall of Fame e no Gospel Music Hall of Fame
Em 1980, Johnny Cash foi indigitado no Country Music Hall of Fame, mas a versatilidade do seu espólio criativo foi reconhecida noutros géneros, como o gospel (com o qual cresceu) e o rock n' roll, muito à conta do espírito de rocker que não só transbordava da obra musical e literária como da vida que levava. Em 1992, o músico e compositor foi reconhecido com a honra de entrar para outro Hall of Fame - o Rock and Roll Hall of Fame.
"Johnny Cash tinha todas as qualidades de uma lenda country: uma vida cheia, um instinto apurado para contar histórias e um olhar determinado sobre o mundo que o rodeava", lê-se no site oficial do Hall of Fame de Cleveland. "As origens humildes de Cash tornaram-no um autêntico contador de histórias com canções e narrativas que falavam sobretudo do homem comum americano. Escreveu prolificamente canções mas nunca de uma forma descuidada. Cada uma delas captou a mais profunda das verdades e ressoou na vida dos trabalhadores".
A 24 de janeiro de 2011, Cash entrou no Gospel Music Hall of Fame. Foi o único a entrar para as três "casas" de reconhecimento.
The Johnny Cash Show
Em 1969, Johnny Cash começou a acumular mais uma função. O músico agarrou o desafio de ser o anfitrião de "The Johnny Cash Show" - programa televisivo emitido pela estação norte-americana ABC em horário nobre. Cash recebeu uma série de artistas no seu cantinho televisivo. A lista é extensa, destacamos alguns: Bob Dylan, Ray Charles, Eric Clapton, Roy Orbison, Neil Young, James Taylor ou Joni Mitchell. O programa durou até 1971.
O toque cashiano nas canções de outros
Johnny Cash entregou a voz (e a alma) a originais mas também a composições de outros sem nunca afunilar o horizonte musical a géneros. Na década de noventa, o músico juntou-se ao famoso produtor Rick Rubin e recriou uma série de versões dos mais variados artistas - desde os U2 aos Nine Inch Nails, passando pelos Beatles ou Soundgarden.
'Hurt' - Nine Inch Nails
'In My Life' - The Beatles
'Heart of Gold' - original de Neil Young
'Johnny 99' - Bruce Springsteen
'Redemption Song' (com Joe Strummer) - Bob Marley
'I Want Back Down' - Tom Petty
'One' - U2
'Rusty Cage' - Soundgarden
