Jon Fosse: "Quanto mais escrevo, mais misteriosa se torna a vida"
Tímido e avesso à exposição pública, o escritor norueguês encontrou na escrita uma forma de chegar àquilo que as palavras, por si só, não conseguem dizer.
O Nobel da Literatura de 2023, Jon Fosse, falou no Fólio, em Óbidos, sobre o silêncio, a infância, a fé e a impossibilidade de explicar o mundo.
Há escritores que procuram respostas. Jon Fosse prefere preservar as perguntas. Quanto mais escreve, mais lê e mais aprende, mais misteriosa lhe parece a existência. "Porquê estamos aqui? Para onde vamos?", questiona o Nobel da Literatura de 2023. "É tudo um enorme mistério."
No sábado, dia 10, perante uma sala cheia no Fólio Festival Literário Internacional de Óbidos, o escritor e dramaturgo norueguês falou de literatura como quem se aproxima de algo que não consegue inteiramente explicar.
Jon Fosse é um homem tímido, reservado, pouco interessado na notoriedade que acompanha o reconhecimento internacional. O Nobel, admitiu, é simultaneamente "uma bênção e uma maldição". Desde que recebeu o prémio, em 2023, já não consegue sair de casa, em Oslo, sem ser reconhecido. Há sempre alguém que o aborda, pede uma fotografia ou procura um instante de proximidade. Para quem preferia não ser conhecido, a fama tem um preço.
O silêncio também escreve
A conversa começou pelo teatro, uma descoberta que o próprio autor descreveu como uma das maiores surpresas da sua vida. Depois de ter escrito poesia e romances, Jon Fosse experimentou escrever uma peça. Em poucos dias, concluiu "Alguém vai chegar", uma das suas obras teatrais mais representadas.
O que descobriu nesse processo foi uma linguagem que não depende apenas das palavras. As pausas, a duração do silêncio, o ritmo das frases e aquilo que fica por dizer passaram a ocupar um lugar central na sua escrita.
"Foi através da escrita para teatro que aprendi a linguagem silenciosa", explicou.
Essa linguagem não é fácil de definir. Uma pausa pode conter ameaça, expectativa ou qualquer outra coisa que não chega a tornar-se explícita. O silêncio não é um vazio entre duas falas, é sim um espaço onde o significado continua a acontecer.
Na obra de Jon Fosse, as palavras parecem frequentemente avançar por aproximações, repetições e desvios. O que importa não está necessariamente expresso numa frase isolada, mas na relação entre as frases, no ritmo que as liga e no que permanece suspenso.
A sua prosa e o seu teatro procuram, assim, uma espécie de poesia que não precisa de se apresentar como tal. O escritor combina a cadência do verso livre com a concentração narrativa dos romances para construir uma voz própria, reconhecível tanto nas peças como nos livros.
Aos sete anos, a experiência que mudou tudo
A infância regressou várias vezes à conversa, sobretudo através de Cenas de uma Infância, uma coletânea de textos escritos entre 1981 e 2013 e recentemente publicada em português.
O livro permite acompanhar a formação de uma linguagem literária: dos primeiros textos, ainda próximos das convenções narrativas, até às histórias em que a repetição, a ambiguidade e a redução da ação se tornam elementos fundamentais.
Fosse recordou o embaraço de ter vencido, ainda estudante, um concurso literário promovido por um jornal universitário. A publicação do seu rosto na primeira página foi, confessou, uma experiência mais constrangedora do que a exposição mundial que lhe trouxe o Nobel.
"Sou um homem tímido. Muito tímido", disse.
Mas há outra memória de infância que ocupa um lugar decisivo na sua relação com a escrita. Aos sete anos, sofreu um acidente grave e perdeu muito sangue. Viveu uma experiência próxima da morte, durante a qual sentiu estar fora do próprio corpo e conseguiu ver-se de outra perspetiva.
Só muitos anos depois começou a compreender a importância daquele episódio na sua formação artística.
A experiência, explicou, terá contribuído para a perspetiva a partir da qual escreve: a possibilidade de olhar para si próprio como se estivesse fora de si, como se a vida pudesse ser observada de um lugar diferente daquele que habitualmente ocupamos.
Essa distância reaparece na sua literatura, incluindo na "Septologia", a extensa obra em que duas personagens chamadas Asle parecem, simultaneamente, duas pessoas distintas e duas versões de uma mesma existência.
A memória, porém, não se transforma em literatura por uma simples reprodução dos acontecimentos. Fosse contou que tentou escrever sobre a própria infância com a máxima fidelidade possível, mas depressa percebeu que a realidade, transposta diretamente para a página, não bastava.
"A literatura tem a ver com transformação", explicou. É preciso ultrapassar a situação concreta, encontrar outra dimensão, chegar a algo que não estava presente na experiência original.
Por isso, apesar de ter tentado aproximar-se da autoficção antes de esta se tornar uma tendência literária, Fosse não se reconhece nesse caminho. Nem sequer como leitor. Na sua perspetiva, a literatura precisa de ultrapassar a simples exposição da vida pessoal.
A paisagem onde aprendeu as palavras
A Noruega ocidental, com os seus fiordes, a água, a chuva, o vento e a escassez de luz, é muito mais do que um cenário nos livros de Jon Fosse. É uma presença que atravessa a sua obra, mesmo quando o escritor vive longe do lugar onde cresceu.
Foi junto ao fiorde de Hardanger e na ilha de Karmøy, próxima do mar do Norte, que aprendeu palavras elementares como "chuva", "pedra" e "estrada". São palavras comuns, partilhadas por toda a gente, mas que permanecem ligadas, dentro de si, à paisagem em que as conheceu.
A relação entre linguagem e lugar tornou-se inseparável. Escrever sobre aquela região é regressar a uma espécie de território interior, uma paisagem que deixou de ser apenas geográfica para se tornar memória, ritmo e imaginação.
Mesmo quando viveu na Áustria, no centro da Europa, junto ao Danúbio, Fosse procurava a água. Por vezes, conduzia até ao rio apenas para observar o movimento da corrente, enquanto continuava a escrever sobre a Noruega.
A sua língua literária também participa dessa relação com a origem. Fosse escreve sobretudo em nynorsk, uma das duas formas oficiais da língua norueguesa, historicamente associada, entre outras regiões, ao oeste do país.
Questionado sobre se essa escolha representa uma posição política ou uma declaração de orgulho, respondeu com simplicidade: "É a minha língua."
Não sente necessidade de escrever literatura noutra língua. Não por rejeição de outras possibilidades, mas porque é nessa língua que encontrou a sua forma de expressão.
A obra que cresceu sem plano
A "Septologia", uma das obras centrais da sua carreira, nasceu sem a dimensão monumental que viria a adquirir. Fosse começou por imaginar um romance de extensão habitual. Continuou a escrever, porém, e a história cresceu.
A versão original do manuscrito chegou às cerca de 1500 páginas. Ao mesmo tempo, o autor abandonou a pontuação convencional que utilizara nos livros anteriores, deixando a narrativa avançar num fluxo contínuo.
Não foi uma decisão previamente calculada. A escrita encontrou o seu ritmo e o escritor deixou-a prosseguir.
Na obra, duas personagens chamadas Asle (ambos pintores) podem ser interpretadas como duas pessoas, duas versões da mesma pessoa ou uma realidade paradoxal em que as diferenças acabam por convergir. A identidade permanece instável, e a narrativa não se apressa a resolver a ambiguidade.
Para Jon Fosse, a "Septologia" reúne elementos que já existiam nos seus livros e peças, mas apresentados sob uma nova luz. É uma extensão do trabalho anterior e, simultaneamente, uma síntese de muitos dos seus temas.
O escritor recordou alguns dos momentos mais felizes que viveu durante a sua criação: aqueles em que sentia ter encontrado alguma coisa, em que a escrita lhe revelava algo que ainda não sabia formular.
Não consegue, contudo, resumir numa mensagem aquilo que pretende transmitir. Está convencido de que existe algo essencial que deseja dizer, mas considera que a melhor maneira de o fazer é através da própria literatura.
De ateu a católico, sem respostas definitivas
A conversa chegou também à religião, um tema que Fosse aborda a partir da experiência pessoal e da desconfiança perante as certezas absolutas.
Abandonou a Igreja luterana norueguesa aos 16 anos e considerou-se ateu durante muitos anos. A mudança começou gradualmente, através da própria experiência de escrever e da dificuldade em explicar, de uma perspetiva estritamente materialista, de onde vinha aquilo que acontecia durante a criação literária.
A leitura do místico medieval alemão Mestre Eckhart foi decisiva. Fosse encontrou na sua obra uma maneira de pensar Deus que aproximou da reflexão filosófica de Martin Heidegger sobre o ser.
Antes de se converter ao catolicismo, aproximou-se também dos quakers, comunidade religiosa marcada pela ausência de sacerdotes e pela importância do silêncio e da luz interior. O seu avô tinha sido quaker, e o escritor encontrou nessa tradição uma afinidade com a dimensão silenciosa que procurava na vida e na escrita.
Mais tarde, através da mulher, proveniente de uma família católica, aproximou-se da Igreja Católica, começou a frequentar a missa e aprofundou as suas leituras.
A conversão não significou, contudo, a aceitação de respostas fáceis. Fosse mantém-se profundamente desconfiado de qualquer dogmatismo ou tentativa de simplificar aquilo que considera misterioso.
Não sabe definir Deus, nem sequer dizer com segurança o que Deus não é. Mas a possibilidade de uma presença transcendente tornou-se, para si, uma forma de realidade.
A fé, tal como a literatura, não elimina o mistério. É antes uma maneira de permanecer diante dele.
A vida continua a ser um mistério
Entre as suas referências literárias e filosóficas, Jon Fosse destacou Samuel Beckett, o poeta austríaco Georg Trakl, Ludwig Wittgenstein, Martin Heidegger e Mestre Eckhart. São autores muito diferentes, mas ligados, de formas distintas, à linguagem, ao pensamento, ao silêncio e aos limites da compreensão.
No final da sessão, regressou a uma questão prática: como proteger a escrita num mundo cada vez mais ruidoso?
A resposta foi direta. Fosse protege-se como pode, vive de forma reservada e tenta preservar o espaço privado de que precisa. O reconhecimento público tornou esse exercício mais difícil, mas não alterou a sua necessidade de continuar a escrever.
Depois da "Septologia", quis fazer algo diferente. Escreveu uma nova trilogia, situada num universo ficcional a que regressa por prazer, procurando uma escrita menos pesada, sem a ambição de competir com a própria obra anterior. Os livros, esclareceu, já estavam escritos antes de receber o Nobel. Foram publicados depois.
Entretanto, tem-se dedicado também à tradução, incluindo a obra "O Castelo", de Franz Kafka, um dos escritores que mais admira.
A tradução é outra forma de trabalho literário: exige conhecimento da língua, atenção ao estilo e capacidade de recriar uma obra alheia sem perder aquilo que a torna singular.
E Jon Fosse continuará a escrever. «É a minha vida», afirmou.
No fim da conversa, ficou a ideia que atravessou toda a sessão em Óbidos: "quanto mais escreve, mais misteriosa se torna a vida".
