Jovens, wild e livres: crianças tailandesas contam a sua história

Os doze jovens resgatados e o seu treinador contaram hoje, na primeira pessoa, tudo o que viveram.

Chegou o dia de voltarem para casa. Os Wild Boars, a equipa composta por 12 jovens tailandeses e o seu treinador, saíram hoje do hospital, 26 dias depois de terem ficado presos numa gruta em Tham Luang.

Em conferência de imprensa, a equipa, juntamente com 3 mergulhadores, um oficial da Marinha, três médicos e uma psicóloga, responderam à questões que o mundo lhes quis fazer.

Comecemos pelo início: a visita a esta gruta era para ter demorado apenas uma hora e seria uma mera atividade de team-building. Isto porque depois teriam que ir para a festa de anos de Night, uma das crianças.

O grupo avançou para dentro da gruta sem grandes preocupações, mas quando voltaram para trás, não conseguiram sair. O nível das águas estava demasiado elevado.

Tentaram então nadar, uma vez que costumam praticar natação após os treinos de futebol. Quando se aperceberam de que não estavam a conseguir avançar, renderam-se à realidade: estavam perdidos.

Resolveram esperar que o nível das águas baixasse no dia seguinte. Viam que a água escorria pelas paredes, portanto ficaram junto a elas para a monitorizar. Enquanto faziam isso, recolhiam água para beber: "estava limpa", assegura o treinador.

Pelo meio, tentaram escavar as paredes da gruta, na esperança que acabariam por atingir o exterior. Quando perceberam que isso seria praticamente impossível, escavaram para tentar construir um abrigo.

O contato

Passaram-se 10 dias até que um som de esperança ecoou na gruta: um dos rapazes ouviu alguém nas águas. Pediu a todos que se calassem, para ter a certeza de que o som era real. Era mesmo, e de repente emergiu um mergulhador nas águas escuras da gruta. "Quantos são vocês? ", perguntou num inglês que consideraram como "demasiado rápido". "Somos 13", disse o rapaz.

"Brilhante", respondeu o mergulhador britânico, identificado como Jason. A partir daí, reacendeu-se a esperança de que podiam realmente sair dali.

Os mergulhadores foram transportando comida para dentro da gruta. Todos os rapazes estavam bem, física e mentalmente, pelo que não havia grandes preocupações para organizar a sua saída.

Enquanto se preparava a operação de resgate, jogavam damas entre eles, faziam grelhados à noite e pensavam nos trabalhos de casa que teriam para fazer.

A ordem pela qual as crianças saíram da gruta foi decidida pelas próprias. Todos estavam em condições iguais para sair, pelo que quem se voluntariou primeiro, saiu primeiro. Aliás, o difícil foi mesmo que alguém assumisse a condição de ser o primeiro a sair, tal era o espírito de grupo que se construíra: ninguém queria abandonar ninguém.

Kunan, o mergulhador tailandês que morreu a levar mantimentos aos rapazes

A morte de Kunan foi vista pela equipa como um sacríficio para que eles pudessem sobreviver. 

O treinador diz que todos ficaram tristes porque sentem que lhe custaram a vida.

Todos os resgatados escreveram mensagens num retrato do mergulhador. Ao mais novo de todos, coube a responsabilidade de ler o que tinha escrito:

"Obrigado por te sacrificares por nós. Descansa em paz. Peço desculpa a toda a tua família, com todo o meu coração. Espero que estejas num sítio melhor".

O futuro:

Sobre o que vão fazer daqui para a frente, todos têm uma certeza: querem estudar até ao grau mais elevado que conseguirem e ser jogadores de futebol.

O treinador da equipa diz que quer ser SEAL, ou seja, quer ingressar na Marinha, e três das crianças acompanham-no nesse desejo.

Para já, todos estão preocupados com os muitos trabalhos de casa que, segundo eles, têm para fazer.

O que mais querem comer é porco frito crocante, frango, chocolate e arroz e até revelaram um dado curioso: adoraram a comida lá dentro. Tanto, que alguns até trouxeram comida para fora da gruta, dentro dos fatos de mergulho.

Por fim, a psicóloga que acompanhou as crianças reiterou a importância de continuarem com a sua vida familiar e escolar de forma normal e deixou um conselho aos pais: "não façam julgamentos e tenham cuidado com as perguntas que fazem sobre o que se passou na gruta. Deem-lhes tempo, eles vão acabar por dar respostas".