Jüra: "poder dizer a verdade é um trabalho interior"
A 21 de abril, Joana Silva atua no Hard Club, no Porto, e no dia 29 de abril, sobe ao palco do Capitólio, em Lisboa.
Joana Silva é Jüra. E Jüra é uma artista de corpo e alma que recorre à música como forma de expressão suprema da verdade que transborda das moléculas emocionais que a compõem. A carreira na música começou há cerca de quatro anos, mas a dança, o teatro e o circo já conduziam Joana Silva pelas lides das artes performativas há mais tempo.
Em 2022, a cantora e compositora, natural de Alcobaça, editou "jüradeamor", o EP que ainda respira nos palcos. Mais recentemente, deu a conhecer os dois primeiros singles de uma trilogia que a meteu a trabalhar com outros espaços e perspectivas artísticas. Com Icaro fez 'ameio', a primeira canção a ser mostrada, e com Blaeckfull deu vida a 'milagre' - o single mais recente. A terceira canção chama-se 'Quero Um Tempo' e foi feita com o produtor Ned Flanger. É o último single da trilogia e vai ser partilhado em maio.
Nos dias 21 e 29 de abril, Jüra apresenta-se ao vivo no Hard Club, no Porto, e no Capitólio, em Lisboa. Em ambos os espetáculos, a artista portuguesa vai estar acompanhada por DØR (diretor musical, guitarrista e teclista), Miguel Garcia (guitarra) e Pedro Serralheiro (bateria). David Fonseca, Iolanda, Icaro e Murta estão convocados para o concerto em Lisboa e Icaro estará presente no espetáculo do Porto.
Os bilhetes para ambas as datas encontram-se disponíveis nos pontos de venda oficiais e em www.jura.pt.
Vamos começar pelo 'Milagre', o novo single. É um título forte. Qual é a história desta canção?
O tema faz parte de uma trilogia que me meteu a trabalhar com pessoas diferentes. Esta canção em particular nasceu de uma colaboração com o Blaeckfull, que é um produtor com quem ainda não tinha trabalhado. É a junção de duas identidades muito distintas. É uma canção que quer transmitir uma mensagem de força e de motivação para a vida. Também enaltece a importância de cuidarmos bem de nós.
Sei que escreveste esta canção numa altura em que estavas mais triste. Decidiste mudar o foco e elevar o melhor de ti. Foi assim?
Sim. Eu sou uma pessoa muito emocional, muito intensa. São os dias menos bons que me fazem repensar em tudo, mas vou do 0 ao 80 muito rapidamente. Tanto me deixo levar pela tristeza como na manhã seguinte já estou a desejar tomar conta da minha vida. A canção 'milagre' é uma consequência desse turbilhão de emoções e da necessidade de me lembrar que podemos ser nós a tomar conta do nosso rumo.
Sentes que esse toque emocional que dás à vida tem o impacto nas pessoas que ouvem as tuas canções?
O feedback tem sido muito positivo. É muito interessante. Nunca pensei ter uma carreira na música mas agora sei o quão gratificante é perceber que aquilo que me cura é também o que cura os outros. Cada canção é uma reconstrução da minha realidade e a força que sai de cada uma dessas reconstruções ajuda os outros. As pessoas agradecem-me. Abordam-me e dizem-me que as minhas canções dão-lhes força.
Dizes que as três canções chegam com uma nova pulsação. Que pulsação é essa?
É uma pulsação mais acelerada que acabou por ser conjugada com os tais novos encontros criativos. É algo que não foi premeditado, foi uma coincidência. As novas canções são mais vibrantes. Fazem-me mexer, fazem-me dançar. São mais palpitantes.
Como é que escolhes as pessoas com quem queres trabalhar?
Acho que a vida tem metido as pessoas certas no meu caminho. O que faço é aproveitar esses encontros e agarrar as oportunidades que surgem desses cruzamentos. Curiosamente, já tinha falado com o Blaeckfull sobre uma eventual parceria há algum tempo mas foi agora que surgiu a oportunidade de nos juntarmos. Foi assim que nasceu o 'milagre'. Quando conheci o Icaro, com quem fiz a 'ameio', a oportunidade para colaborarmos surgiu de imediato. A terceira música é com o Ned, que é também um produtor que eu já conhecia.
Sobre os convidados para os concertos no Porto e em Lisboa:
E como é que lhes passas as tuas ideias, as tuas emoções?
É um desafio muito grande transmitir o que somos a alguém. Além de termos individualidades criativas diferentes, a minha forma de fazer canções é muito emocional, o que, de certa forma, faz com que seja desprendida do "meu querer". Respeito muito a canção que nasce. Sinto que não devo fazer muitas modificações e isso pode provocar algum desconforto com as pessoas com quem estou a trabalhar. Sei, porém, que aquilo que nasce desse espaço comum de criação tem uma força maior do que qualquer produto que possa ser criado. É muito interessante cruzar formas diferentes de trabalho. Eles ensinaram-me coisas e vice-versa. Estamos todos constantemente a aprender e a fazer coisas novas a acontecer. É muito fixe.
É como moldar o barro, neste caso moldar as tuas ideias para canções...
Sim. É importante que eles trabalhem a arte de produzir, mas também importa que deixem o meu espaço de liberdade intacto, para que possa transcrever os meus sentimentos de uma forma que me seja mais confortável. É claro que estamos a criar juntos, mas é importante que a linguagem de cada um seja ouvida.
O videoclipe do tema 'milagre' foi gravado na vertical, com um telemóvel. Como é que surgiu essa ideia?
Como a ideia da canção é dar alguma motivação para enfrentar os dias, quis partilhar com as pessoas um dia na minha vida. Acho que mostrar a minha realidade é uma forma de ficar mais perto de quem ouve as minhas canções. Quis aproximar as pessoas do meu mundo e, de certa forma, inspirá-las de uma forma mais direta.
É um conceito muito diferente daquele que fizeste com o Icaro para o tema 'ameio'...
Sim. É muito diferente. É uma trilogia, mas os sons e os vídeos são completamente diferentes. O próximo single que vou lançar não tem nada a ver com os dois primeiros. O que os une é apenas a verdade da minha composição, da minha expressão. Isso e o meu mundo que, embora se cruze com outros, existe por si só. Acho interessante podermos ir a outros sítios sem que com isso percamos a nossa essência.
É desafiante manter a verdade, enquanto passeias por esses mundos ou pelas exigências da indústria?
Penso muito nisso. Mas acredito que vou manter essa verdade. Poder dizer a verdade é um trabalho muito interior. É um compromisso que assumi comigo própria. Aliás, eu comecei a fazer canções porque tinha necessidade de expressar o que já não cabia em mim. Quero fazer isso para o resto da vida. Quero manter a ligação com a música o mais pura possível. É uma necessidade e não apenas uma vontade.
E estás em contagem decrescente para os concertos no Porto e em Lisboa...
Sim. Vamos voltar a partilhar a vida nesses concertos e multiplicar o amor. Estou muito ansiosa. O palco é o lugar onde me sinto mais feliz. Sou feliz ao partilhar as canções com as pessoas perto de mim. É também uma oportunidade de cruzar as áreas artísticas que gosto, além da música. Falo da dança, da expressão corporal e do circo. Estou a cruzar cada vez mais todas estas áreas. Quero proporcionar uma experiência diferente a quem quiser aparecer nos meus concertos. Quero que apareçam para multiplicar o amor comigo. Quero que possamos sair dos concertos a sentirmo-nos mais leves.
