Kateryna, Iryna e Leonid. Três ucranianos que encontraram em Portugal "uma segunda casa"
Quatro anos depois do início da invasão russa, muitos ucranianos, que fugiram da guerra, permanecem em Portugal.
Portugal acolheu há quatro anos milhares de ucranianos, que fugiram da guerra lançada pela Rússia a 24 de fevereiro de 2022.
Muitos regressaram entretanto à Ucrânia, mas outros optaram por seguir a vida no país que os acolheu.
Kateryna Avdysh, Iryna Vorobiova e Leonid Kolosovskyi são alguns dos ucranianos que encontraram em Portugal "uma segunda casa" e "uma segunda oportunidade de vida".
Kateryna Avdysh
Kateryna Avdysh tinha 19 anos quando deixou a Ucrânia em abril de 2022, acompanhada da mãe e do irmão. O pai foi obrigado a ficar na Ucrânia.
Recordar o dia em que deixou o país é ainda #difícil e horrível", porque disse "adeus" ao pai "e não sabia se ia voltar, o que ia acontecer." Seguiu-se uma "longa" e "estranha" viagem entre Kiev e Lagos, porque Kateryna nunca pensou "que ia viver em Portugal, mas isso aconteceu".
Dois meses depois da chegada a Portugal, a mãe e o irmão regressaram à Ucrânia, mas Kateryna decidiu ficar, porque "não tinha nada a perder". Mudou-se de Lagos para Lisboa e "foi um recomeço."
Kateryna, agora com 23 anos, é cantora e foi construindo a carreira em Portugal. Apesar de querer manter viva a cultura e língua ucraniana, lançou duas canções em português - Lua e O Meu Mar - numa espécie de agradecimento ao país que a acolheu.
Kateryna pensa agora num novo álbum e quer "convidar os músicos portugueses para participar e criar arte juntos.
Salvador Sobral, que venceu a Eurovisão na Ucrânia em 2017, também faz parte do percurso desta ucraniana. Conheceram-se em 2019 ainda antes da guerra. Mais tarde, em 2022, Salvador convidou-a para cantar num concerto no CCB, em Lisboa, e depois gravaram uma música.
"Ele cantou em ucraniano, foi muito esforço mas eu estou muito feliz e o meu país também", sublinha.
Kateryna Avdysh sente-se feliz em Portugal, mas parte do coração está também na Ucrânia, onde espera que seja alcançada a paz em breve porque "as pessoas estão exaustas" de tanto sofrimento.
Leonid Kolosovskyi
Leonid Kolosovskyi estava numa viagem de trabalho na Geórgia quando começou a invasão russa da Ucrânia. Ficou em choque e frustrado e em duas ou três semanas decidiu viajar com a namorada para Portugal, "porque tinha amigos aqui".
"Eles convidaram-nos a ficar algum tempo em Portugal e esperar alguns meses até a guerra acabar. Então tínhamos planos para voltar. Mas como vê, nós não voltámos”, lamenta.
Poucos meses depois da chegada a Portugal, Leonid foi diagnosticado com Leucemia: "começou uma nova página na minha vida. Fiz um tratamento de quase um ano, com o transplante de medula óssea. E o sistema de saúde português ajudou-me a sobreviver. E desse ponto de vista, Portugal deu-me uma segunda oportunidade para viver."
Leonid é realizador e vive em Lisboa. Sempre se sentiu bem acolhido pelos portugueses, um povo "incrível, muito afável, muito bondoso" e pronto a ajudar "em qualquer lugar". E nem a língua tem sido um obstáculo no acolhimento, porque "as pessoas falam inglês fluentemente".
Quatro anos depois da invasão russa, Leonid acredita que a paz é possível e que a Ucrânia irá sair desta guerra mais sólida e poderosa.
Também a família, que vive na Ucrânia, merece a paz: "eles toleram as bombas e apagões, sem aquecimento e eletricidade todos os diais. Eles são super humanos e esperam por esta vitória muito mais do que eu”.
Quanto ao futuro, Leonid Kolosovskyi não sabe se algum dia irá voltar a viver na Ucrânia, mas uma coisa é certa "neste momento é feliz em Portugal".
Iryna Vorobiova
Iryna Vorobiova é natural de Odessa, no Sul da Ucrânia, mas estava em Kiev no dia em que começou a guerra a 24 de fevereiro de 2022.
"Fiquei muito chocada. Estava sentada na minha cama com o meu gato, o edifício de vinte e dois andares começou a tremer. Depois percebi que o edifício mais próximo tinha sido atingido por um míssil. Peguei no meu passaporte, na minha carta de condução, no meu gato e deixei tudo para trás", recorda.
Perante um trânsito caótico, Iryna conduziu três longos dias até à Polónia. Mais tarde, optou por recomeçar a vida em Portugal, porque "foi o único sítio" onde se sentiu "bem acolhida". E, adianta, "essa foi a principal razão, porque lembro-me de ter comparado as pessoas em diferentes países europeus,e para mim, os portugueses foram incríveis."
Iryna recorda ainda o primeiro lar que encontrou em Portugal: "uma associação ajudou-me a encontrar um sítio para viver na casa de uma portuguesa incrível com uma filha, na Parede, perto de Lisboa. No primeiro mês, ela não me pediu dinheiro e ajudou-me com a comida. Depois, arranjei um emprego muito rápido. No segundo mês, ofereci-me para pagar a renda. Vivi lá durante um ano e depois comecei a sentir-me melhor financeiramente. Então, mudei-me e estou a trabalhar num bom projeto aqui.”
Em Odessa, na Ucrânia, permanece a família de Iryna, que tem pessoas próximas na frente da batalha. O pai quase morreu "porque o carro dele foi atingido por um drone e ficou completamente destruído."
O cenário na cidade natal desta ucraniana ainda é "stressante". Por isso, Iryna ainda tem medo de voltar a viver em Odessa: "ainda não se pode nadar no mar, porque às vezes há bombas que flutuam. Muitas vezes não se pode ir à floresta ou a um parque, porque se pode encontrar algo que pode detonar. Além disso, muitas pessoas têm armas agora, muitas pessoas ficaram feridas, inclusive psicologicamente, depois da guerra. Então, tenho medo disso.”
Iryna Vorobiova lidera a filial de Lisboa da Young Business Club, uma organização que reúne jovens empresários ucranianos.
