Keane: feliz reencontro com Lisboa sete anos depois

Campo Pequeno cheio que nem um ovo para celebrar a banda inglesa.

Todas as dúvidas e dilemas existenciais que se abatem sobre uma banda dissipam-se em noites como a vivida neste domingo no Campo Pequeno, em Lisboa, diante dos Keane. O banho caloroso da multidão que enchia o recinto circular serviu de gostoso recarregamento espiritual para a banda inglesa, depois de sete anos de interregno que puseram tudo em causa.
 
O concerto de duas horas, que trouxe os Keane de volta aos palcos da capital sete anos depois, começou com uma das músicas do novo álbum "Cause and Effect", 'You’re Not Home', com os sintetizadores às rodas e em loop, como se estivessem no poço da morte. 'Day Will Come' reforça ainda mais a raça da banda, antes da primeira canção querida da noite, 'Silenced by the Night'. 
 
Sempre muito simpático, o vocalista Tom Chaplin falou dos tempos difíceis destes sete anos de paragem para ele (por causa da toxicodependência) e para o compositor e teclista Tim Rice-Oxley (que sofreu com os efeitos do divórcio). Minutos depois, mais de cinco mil pessoas cantavam com ele 'Everybody's Changing', um dos primeiros grandes êxitos do grupo. As coisas já estavam tão espevitadas que em 'Is It Any Wonder?', Tim Rice-Oxley já não se aguentava sentado, a música pedia posição vertical total. "Vocês parecem-me muito vivos para um público de domingo à noite", desabafou Tom Chaplin.
 
Mas depois, vinham as baladas. Uma das canções da nova colheita, 'Strange Room', estava imbuída de uma melancolia que inspirou um manto de luzes de telemóveis no ar. 'Bend and Break' é a canção pop-rock arrumadinha para elevar emoções, com a ajuda das pinceladas frenéticas dos teclados de Tim Rice-Oxley. 'She Has No Time' é uma daquelas baladas fáceis para os bateristas e uma oportunidade de relaxamento para Richard Hughes, o homem das baquetas nos Keane.
 
Em 'The Way I Feel', as luzes faíscam mais, com um som que faz uma tangente ao synth-rock dos Killers. A festa continua em 'Spiralling', sobretudo para uma mulher que dança de pé na bancada, enquanto sorri de felicidade no meio do sector sentado. Há tantos anos e tanta vida de canções de Keane naquele rosto sorridente. 
 
Tom Chaplin está perplexo com a reacção entusiástica do público do Campo Pequeno. Não resiste em mostrar o seu carinho para com Portugal - que pareceu sincero. "Sempre que posso, passo aqui férias. Sou daqueles ingleses horríveis que vai sempre ao Algarve, às villas", gracejou. Na subida gradual de emoções, conta-se a balada ao piano de 'Try Again' ou a passeata de Chaplin de uma ponta à outra do palco em 'Nothing in My Way'. Foi maestro de um coro de tres mil pessoas, no lançamento de 'You Are Young', onde repetiu o cântico já com a música adiantada
 
Em 'This Is the Last Time', o cantor de cabelo grisalho ergue o seu braço livre no ar repetidamente. A glória está a acontecer. Em 'Somewhere Only We Know', Tom Chaplin estica o suporte de microfone na direção do público, qual herói de grande massas ao estilo de Jimi Kerr dos Simple Minds. Na verdade, Tom Chaplin já não precisava de fazer grande coisa. A energia eólica proveniente das palmas e das vozes do público soprava a favor deles.
 
No encore, 'Crystal Ball' e 'Sovereign Light Café' mantiveram a vibração alta e fecharam um concerto repleto de emoções. Os portugueses adoram os Keane - foi o que deu para perceber neste concerto no Campo Pequeno.