Kendrick Lamar e SZA foram enormes no Restelo
Dois astros, dois concertos numa só experiência. A Grand National Tour passou ontem por Portugal.
A Grand National Tour estacionou ontem à noite no Estádio do Restelo - uma das 13 paragens na Europa do circuito que junta Kendrick Lamar a SZA na maior digressão partilhada na história. Ao todo são 39 datas, incluindo as da América do Norte onde a digressão arrancou em abril.
O estádio, claro, encheu. Difícil foi encontrar um lugar vazio por ali e na área circundante do recinto. Para muitos, a proeza de entrar para a zona da relva não foi a tarefa mais fácil do mundo. Ao redor do estádio, mesmo com as portas abertas, vimos pessoas alinhadas em filas aparentemente intermináveis, que, pelo que pudemos perceber, demoraram a escoar.
Ouvimos sotaques de vários pontos do país e idiomas de lugares mais longínquos. Todos com um único ponto de convergência: o estádio do Restelo. Avistámos fãs de Kendrick Lamar, fãs de SZA e admiradores de ambos - os mais sortudos de todos. Dois concertos numa experiência monumental que ficará, certamente, alojada na memória de quem a viveu.
Kendrick Lamar goza de uma espécie de hegemonia, amplamente respeitada, na cena rap atual, e SZA é um dos nomes efervescentes do R&B contemporâneo. Um autêntico power couple artístico, unido pela camaradagem e admiração mútua - uma ligação que, de resto, testemunhámos em diversos momentos do espetáculo.
Lamar foi o protagonista do intervalo do Super Bowl de 2025 que teve a maior audiência na história. É também o primeiro rapper a ser reconhecido com a distinção Pulitzer para a música e está entre os vinte artistas que somaram mais Grammys na história das estatuetas douradas.
Os feitos na indústria musical - meandro que tanto lhe aguça a acutilância e lírica provocatória - são dignos de nota, é certo, mas coloquemos o foco no verdadeiro ouro: os álbuns que têm editado e que são a pura expressão de uma alma artística que não vacila na honestidade nem no ofício.
Inflamado pelas turbulências sociais e humanas, como, por exemplo, a injustiça racial, e movido pela observação mordaz do que rodeia, Lamar é também mensageiro das densas introspeções e dos caminhos internos que faz. O rapper de Los Angeles edificou uma identidade ímpar na cena musical do género. Dá à cena hip-hop atual uma substância particular, sendo gabado pela lírica narrativa, profunda e imersiva.
É a quarta vez que atua em solo português depois de ter passado duas vezes pelo Primavera Sound Porto (em 2014 e em 2023) e uma pelo Super Bock Super Rock, em Lisboa, em 2016.
E depois há SZA, com quem Lamar tem colaborado ao longo dos anos e que é uma das vozes proeminentes do R&B atual. A cantora e compositora estreou-se majestosamente em Portugal no ano passado com um concerto no festival Primavera Sound Porto.
A experiência partilhada Grand National Tour - que era aguardada desde o início do ano - foi dividida em nove atos e teve a duração de cerca de três horas. O alinhamento contou com mais de 50 canções, com sets intercalados entre os dois e momentos em que se cruzaram no palco. Além dos temas dos respetivos catálogos de cada um, o Restelo escutou canções que ambos dividiram no estúdio e que materializam a tal ligação artística que os une desde 2014. Apesar de “GNX” (álbum que Lamar editou em novembro de 2024 e SZA’s “SOS Deluxe: Lana” que SZA pôs cá fora um mês depois) terem sido o motor de arranque da tour conjunta, ambos olharam pelo espelho retrovisor para celebrar momentos discográficos mais antigos.
Eram oito noite, de um dia que teimou em ser demasiado quente para horas de espera à porta do estádio, quando a multidão, previamente sobreaquecida pelo set de DJ Mustard, começou a ficar agitada com a iminente chegada do rapper de Los Angeles.
No palco vemos um Buick GNX a emergir. É precisamente o carro, com uma forte carga simbólica para Lamar, que dá nome ao álbum mais recente e à atual digressão. GNX é o modelo Grand National Experimental que foi uma edição especial e limitada do modelo Buick Regal que em 1987 surpreendeu pela velocidade, não deixando de ser um símbolo da estética ligada ao hip-hop. 1987 foi também o ano de nascimento do rapper de Los Angeles, levando à interpretação que, com a escolha do GNX para a capa do álbum, Lamar queira vincar o statement da autenticidade do seu percurso artístico na cultura rap da West Coast.
Dentro do carro, e debaixo da forte aclamação da multidão, abre o concerto com wacced out murals - precisamente do álbum mais recente. Move-se depois para a liberdade do palco onde exalta o tom nas rimas. Entre squabble up, King Kunta, ELEMENT e tv off saúda Lisboa que mais tarde voltou a gabar. "Que cidade simpática!", disse às tantas.
Muda o cenário e entra SZA, dócil e imponente, em cima do carro, agora coberto por plantas trepadeiras - apontamento cénico do seu imaginário que recriou no Restelo. Lamar espera para acompanhá-la em 30 for 30 - canção que abre o set da cantora do Missouri. Em Love Galore, Broken Clocks e The Weekend é acompanhada pelo coletivo exímio de bailarinos. A suavidade de SZA muda a atmosfera para uma dimensão mais etérea. Há flores no ecrã e SZA move-se com leveza enquanto mostra as acrobacias da voz.
Euphoria - uma das diss tracks que Lamar “dedica” ao canadiano (e arqui-inimigo) Drake - abre ato seguinte. O rapper, que começa sentado, mas apenas projetado no ecrã, avoluma a energia assim que o próprio ecrã se abre. Volta a surgir no palco, agora em cima de uma escadaria. Neste set, o corpo de bailarinos junta-se, em vários momentos, ao rapper, que, de rajada, oferece mais uma série de temas, entre os quais Alright - canção de esperança que ficou colada aos protestos do movimento Black Lives Matter em 2020. No Restelo, foi mais um tema a meter o público a cantar em uníssono - uma comunhão suada que se manteve até ao fim.
Os fãs saltam, com euforia, em family ties, seguindo-se uma ovação demorada de todo o recinto ao rapper que, feliz e omnipresente no êxtase do público, contempla todos à volta, reconhecendo que naquele espaço há amor. Já no final do ato, e agora em cima do carro, Lamar reflete, com profundidade, quando canta man at the garden.
Os universos artísticos dos dois vão-se alternando ao longo da noite, mas sem grandes exuberâncias cénicas, estando o foco essencialmente nas atuações. No universo de SZA, há borboletas, louva-a-deus e até uma formiga gigante. Mais uma mão-cheia de canções. O fundo avermelhado de Low, que meteu o recinto a ferver, desaparece para o ato a dois.
'Doves in the Wind', do álbum de estreia de SZA Ctrl, chama Lamar outra vez para o palco. O rapper fica depois para 'All The Stars' - canção da banda sonora do filme "Black Panther" que foi recebida com o público aos gritos. Foi nesta altura que o mar de gente se transformou numa constelação com as luzes dos telemóveis. SZA, que no Restelo não se elevou numa plataforma (como tem feito) devido ao vento, agradece a reação do público. "Tivemos de alterar algumas partes devido ao vento, mas vocês compensam com a vossa energia". Segue-se LOVE até ao final do ato conjunto.
Antes de se voltarem a cruzar no palco, mais três atos: dois para Kendrick Lamar e um para SZA. A maratona de temas de ambos não cansou quem estava no recinto.
A viral 'Not Like Us' fechou o set a solo do rapper antes de voltar a partilhar o palco com a cantora para o grande final. A multidão no Restelo cantou - de uma ponta à outra - a diss track final do beef de Lamar com Drake, da qual Lamar saiu vitorioso.
Luther e Gloria ficaram para o fim depois de uma breve pausa a soar a encore. Uma ovação colossal recebeu os dois no palco. "Cantem connosco", pediu o rapper, como se fosse preciso. Braços no ar e agradecimentos ao público. SZA agradeceu em português e Lamar pediu um aplauso merecido para os milhares que ali estavam. Final com o Restelo a entoar o tradicional cântico "esta m**** é que é boa" - que SZA pediu para que traduzissem. Os dois, que estavam no centro do palco, dançaram, com alegria, ao som das vozes a capella dos fãs. Mais do que palavras valem os vídeos:
A Closer Look At Kendrick And SZA Dancing To “This Shit Is Good” Chants In Portuguese At Estadio do Restelo In Lisbon, Portugal On The GNX Tour ???? ?? pic.twitter.com/giE711sX7J
— Kendrick Lamar & SZA Grand National Tour (@kdotszagnxeraa) July 27, 2025
Kendrick Lamar asked the crowd to repeat the chants, then continued dancing to them. ???? pic.twitter.com/adA5VApEa8
— kendrick Lyrics (@WordFromKdot) July 27, 2025
Kendrick Lamar and SZA dance to crowd chants, then SZA asked a fan what the chant mean pic.twitter.com/8hNPJdM0Rx
— pgLang Updates (@pgLangUpdates) July 27, 2025
Não foi permitida a captação de imagens neste espetáculo.
