Kris Kristofferson, o cowboy hippie, morre aos 88 anos

Elvis Presley, Janis Joplin ou Johnny Cash cantaram músicas suas.

Foi noticiado há algumas horas na imprensa americana a morte de Kris Kristofferson, ocorrida no passado sábado, na sua casa da ilha havaiana do Maui. O cantor tinha 88 anos de idade.

Kris Kristofferson consolidou-se como uma das maiores lendas do country e da música americana. Nasceu no Texas, vindo de uma família de tradição militar. Cresceu a ouvir country, nomeadamente Hank Williams. E foi para a Universidade de Oxford, onde se formou no curso de Literatura Inglesa.

Tornou-se militar do exército norte-americano, pilotando helicópteros pela Europa fora, sobretudo na Alemanha Ocidental. Porém, inspirado pela poesia de William Blake e pela música de Hank Williams e de Bob Dylan, Kris Kristofferson teve a coragem de quebrar a tradição militar da família, rumando à capital do country, Nashville, com a difícil missão de se tornar músico para a vida.

Começou a compor para outras vozes, enquanto servia em bares, acumulando outros empregos duros em Nashville. Quem não se adaptou a esta vida foi a sua mulher e os seus dois filhos, que acabaram por se ir embora de Nashville… Mas não Kris Kristofferson 

O músico levou a contracultura dos hippies à capital do country. Para Kris Kristofferson, a embriaguez dos músicos country e os devaneios de drogas dos hippies eram atitudes erráticas que não eram assim tão diferentes. Não foi logo aceite. As suas canções começam por ser rejeitadas pelas editoras de Nashville. Era destemido por cantar sobre situações sexuais. E tinha um visual diferente dos músicos de country, com aquele ar hippie, de cabelo compridos. Em 1970, submeteu a voz bonita às suas composições, no poderoso álbum de estreia, “Kristofferson”.

Kris Kristofferson elevou a fasquia das composições no mundo do country, com as suas elaboradas rimas e uma maior sensibilidade. Um dos primeiros a reconhecer isso foi Johnny Cash, para quem Kris Kristofferson era um dos melhores compositores de country de sempre. A canção 'Sunday Mornin' Comin' Down' foi o início de uma amizade fortíssima e de um respeito mútuo entre Johnny Cash e Kris Kristofferson. A composição foi dada à voz carismática de Cash que rapidamente se torna uma das canções mais fortes do seu reportório.

Outra composição de Kristofferson que se tornou célebre na voz de outros foi 'Me and Bobby McGee', que Janis Joplin gravou poucos dias antes da sua morte por overdose de heroína, em 1970.

Kris Kristofferson recebeu muitos prémios, mas o seu maior galardão não foi como músico mas sim como actor, ao vencer o Globo de Ouro pela sua interpretação no musical de 1976, “A Star Is Born”, onde contracena com Barbra Streisand.

Kris Kristofferon nunca se tinha imaginado a cantar à frente de uma equipa de filmagens, mas a carreira de actor começou a correr-lhe bem, com a ajuda da sua boa imagem. O realizador de westerns Sam Peckinpah simpatizou especialmente com o seu amigo Kris, tornando-se um actor recorrente nos seus filmes. O seu segundo álbum a solo, “The Silver Tongued Devil and I”, servia de banda sonora quase total para o filme de 1972, “Cisco Pike”, que tem no elenco Gene Hackman, e o próprio Kris Kristofferson, na pele novamente de um músico.


A soma de composições de Kris Kristofferson para o êxito de outros não parava de crescer ao longo dos anos 70. Figuras do country como Ray Price ou a cantora Sammi Smith foram alguns dos beneficiários, tal como lendas do rock & roll como Elvis Presley ou Jerry Lee Lewis que deram também voz às composições de Kris Kristofferson.

Em 1973, Kris Kristofferson casou-se com a cantora country Rita Coolidge. E entrelaçaram-se também na música, quando lançaram o disco de duetos “Full Moon” nesse ano do matrimónio, em 1973.

Rita Coolidge já aparecia na capa do álbum do ano anterior de Kris Kristofferson, "Jesus Was a Capricorn". Os dois lado a lado pareciam relaxados e de óculos escuros, de ar bem sorridente. Rita Coolidge faz mesmo alguns dos coros em vários temas deste disco de 1972, como no tema-título 'Jesus Was a Capricorn' e no comovente 'Why Me'. 

Tal como June Carter e Johnny Cash, Kris Kristofferson e Rita Coolidge formavam um dos casais com mais química do country. Mas os problemas entre os dois foram crescendo, ora por causa dos problemas de álcool de Kris Kristofferson, ora porque as duas vidas dos dois músicos não estavam a encaixar numa só. Kris Kristofferson e Rita Coolidge ainda gravaram três álbuns de duetos, o último deles de 1978, “Natural Act”, já quando as coisas não estavam muito bem entre os dois. 


Mas uma das suas maiores colaborações foi quando Kris Kristofferson se associou a outros três rebeldes do country: Waylon Jennings, Willie Nelson e o senhor Johnny Cash, no supergrupo The Highwaymen. A canção mais famosa desse projecto chama-se 'Highwayman', a versão de uma canção de Jimmy Webb sobre um fora-da-lei que encarna várias personagens. Esta interpretação do supergrupo de country narra os finais dramáticos de um salteador de estrada, de um marinheiro e de um trabalhador de uma barragem que tomam metaforicamente a vida celeste de um astronauta.