Led Zeppelin sem trem de aterragem

Estreia-se nesta quinta-feira o documentário de Bernard MacMahon, "Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda".

O filme documental de Bernard MacMahon, “Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” é uma obra de arqueologia sobre os primeiros 18 meses dos Led Zeppelin, uma das maiores bandas rock de sempre.

O documentário estreia-se nas nossas salas de cinema nesta quinta-feira e salva para a posteridade - com a milagrosa recuperação técnica - imagens inéditas dos Led Zeppelin ainda debutantes, seja em palco, seja em salas de ensaios e em outros ambientes. São imagens tão inéditas que nem sequer se sabia que existiam.

Mas o tesouro de “Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” é ainda mais fundo. O documentário vai buscar também imagens dos membros dos Led Zeppelin nas suas fases de crescimento, incluindo as suas infâncias, quando se traça o perfil completo de cada um deles, incluindo os passados de Jimmy Page nos Yardbirds e enquanto músico de estúdio ou a falhada aventura de Robert Plant e de Bonham nos Band of Joy.

E quem melhor para contar as suas histórias que os próprios membros vivos dos Led Zeppelin - o guitarrista Jimmy Page, o vocalista Robert Plant e o baixista John Paul Jones - pelas suas próprias palavras, eles que praticamente não dão entrevistas. Junta-se a eles, já de um outro mundo, o falecido baterista John Bonham, através de uma entrevista antiga e áudio cujo conteúdo assenta que nem uma luva com aquilo que se quer do documentário: contar o princípio dos Led Zeppelin e seus antecedentes. 

As entrevistas de corpo e alma aos três músicos vivos dos Led Zeppelin são um dos grandes benefícios de este ser o primeiro documentário oficial da banda

Há também a contrariedade deste ser um filme validado pela banda, com o tal filtro do conteúdo pelos músicos, a condicionar a liberdade de quem o realiza, evitando-se desvios para as polémicas. Mas é essa contrariedade que permite um foco no que interessa, a música, algo em que os Led Zeppelin eram mesmo muito bons.

Este é também o retrato dos tempos de inocência que assolam os inícios das bandas, como o dos Led Zeppelin, antes de outras encruzilhadas menos musicais com os anos 70 já em andamento.

O que um fã ou um curioso dos Led Zeppelin pode ver em “Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” é a ascensão meteórica da banda no primeiro ano e meio, explicada e mostrada em grande detalhe, depois de definido o ADN de cada um dos membros da banda inglesa.

Bernard MacMahon dá-nos a ver quatro músicos ideais numa banda de sonho, deixando por vezes a narrativa em suspenso, para permitir a música respirar e se sentir a grandeza dos Led Zeppelin. Nesta longa-metragem, desfrutamos do desenvolvimento de canções como ‘Dazed and Confused’ ou ‘Whole Lotta Love’, ou os Led Zeppelin a descobrirem a sua omnipotência musical, num cocktail molotov de blues, soul, rock & roll e proto-metal, ou mesmo de virilidade masculina (eles todos) com feminilidade (até isto o vocalista Robert Plant consegue, como se tivesse uma Janis Joplin dentro de si).  

“Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” consegue conciliar melomania com cinefilia, esmiuçando a história e as histórias, mas também sabendo deixar espaço para a simples contemplação. Se nas entrevistas, os Led Zeppelin largam as suas impressões e enquadramentos, vendo-os só a tocar mostra quem são e porque foram tão importantes para a história da música.   

Curiosamente, os Led Zeppelin viveram muito o lado sombrio do insucesso, na vertigem com a iminente separação, algo que o documentário mostra bem.

Se os Beatles preferiram tocar primeiro pela Europa e só depois na América do Norte, os Led Zeppelin fizeram o contrário: quiseram tornar-se grandes na América, antes de terem o Reino Unido a seus pés. É como aquela música de Leonard Cohen, ‘First We Take Manhattan’, só que os Led Zeppelin diriam ‘First we take Manhattan, then we take Britain’. 

A banda de Jimmy Page teve que batalhar muito na largueza infindável na América. “Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” é como um voo transamericano, como uma aparelho voador que não pára, numa viagem de Zeppelin pelos cosmos americano, em sete digressões seguidas sem mini-autocarros, com uma permeabilidade amadora de meios, que seria impensável hoje. A indústria musical ao vivo era ainda um sonho em 1969.

Contra tudo e contra todos (incluindo a imprensa musical), os concertos foram se tornando cada vez mais bombásticos e badalados. O passe-a-palavra lá se foi fazendo, algumas rádios mais marginais ajudaram e o seu público foi crescendo a olhos vistos, até se perderem de vista. Quando finalmente voltaram ao Reino Unido, era para tocarem no Royal Festival Hall, a mais majestosa das salas em Londres.

Poder ver “Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” numa sala de cinema é um privilégio que não se deve recusar. “Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” impõe-se como uma obra de cinema.

Podem ver no post em baixo da Zero em Comportamento quais os cinemas do país que exibem este filme.