Leffest: começa a maratona do melhor cinema do mundo

Entrevista ao diretor do festival, Paulo Branco. O cineasta de culto Hal Hartley é uma das figuras em destaque desta edição.

Desde esta sexta-feira que decorre a 19ª edição do Lisbon Film Festival, mais conhecido como Leffest. Até ao dia 16 de novembro, os cinéfilos vão poder descobrir o melhor do que se faz no cinema de todo o mundo. Os novos filmes dos cineastas Hal Hartley, Richard Linklater ou do alemão Christian Petzold integram a secção de competição.

O Leffest é muito mais do que um festival em que se exibem filmes. Há conversas, masterclass, espetáculos de dança e concertos, um deles da atriz portuguesa Catarina Wallenstein enquanto fadista.

Quanto ao cinema, o radar do Leffest vai a sítios que a humanidade ocidental mal imagina, com a secção de filmes da Ásia Central, de países como o Cazaquistão, o Quirguistão, o Uzbequistão e o Tajiquistão.

Paulo Branco, na função de diretor do festival Leffest, fala-nos das suas apostas pessoais.

Pelas minhas contas, o Leffest tem 85 convidados. Isto é um festival muito difícil de resumir, não é?
Desde o início que o Leffest é sobretudo um festival pensado para proporcionar ao público um encontro com grandes artistas, desde cineastas a escritores, artistas plásticos, tudo de uma maneira a fazer realmente uma reflexão sobre não só o cinema e o estado do cinema no ano em que o fazemos, além das suas relações e das suas conexões que cada vez são mais evidentes com as outras formas de expressão artística.

Temos uma secção dedicada ao Cinema da Ásia Central. É uma pérola por descobrir?
É, sim senhor, porque eu estive convidado aqui há um ano ou dois no Quirguistão e apercebi-me da vitalidade que também havia nos jovens cineastas nesses países e que, sobretudo, na dificuldade que eles tinham de que os filmes deles fossem reconhecidos ou vistos internacionalmente. Há algumas exceções. E, portanto, propus que se organizasse este ano esta secção que não só tem um lado histórico, porque haverá filmes absolutamente incontornáveis da cinematografia desses países, como também vamos trazer alguns dos filmes mais recentes e os realizadores que estarão cá para serem descobertos não só por nós, mas também por todas as pessoas ocidentais que poderão, a partir de agora, considerar a qualidade dos filmes que vamos mostrar. Esse é um tipo de trabalho que o festival faz permanentemente. E tem dado alguns frutos e espero que continue a dar. E, sobretudo, eu só espero que haja a curiosidade e que público volte a ter a curiosidade que, às vezes, está um pouco adormecida de ver filmes que não têm vedetas e que vêm de cinematografias um pouco exteriores àquilo a que estão habituados.
Daí a importância desta secção que nós este ano incluímos, assim como a secção dedicada ao cinema espanhol, Um Novo Élan do Cinema Espanhol, como a gente lhe chama ao cinema espanhol, porque aí também há a possibilidade de ver filmes. Alguns deles foram grandes êxitos no país sozinho e que não chegaram à nossa distribuição comercial. E são filmes que têm de ser vistos num ecrã. Alguns dos realizadores estão connosco e vamos ver que, apesar desta definição de cinema espanhol, eles todos mantêm uma grande originalidade derivada das regiões onde foram produzidos, como o País Basco, a Catalunha, a Andaluzia, a Galiza e, logicamente, Castela. Todos eles têm a reivindicação de que são filmes espanhóis. Há toda esta vitalidade e originalidade que o cinema do país vizinho conseguiu adquirir. E, sobretudo, uma conquista do público, mas com filmes que escapam à formatação dos filmes habituais, das séries de televisão ou das plataformas. 

Paulo Branco

Teremos ainda duas grandes mostras da cinematografia, que é a Isabel Ruth e o Arturo Ripstein. A carreira de cada um deverá ser consagrada por nós. O Arturo Ripstein é uma referência única em todo o cinema mexicano. Podemos dizer que a seguir a Buñuel, é grande referência, podemos dizer é o Manoel Oliveira de agora. Quanto à Isabel Ruth, toda a gente sabe a importância que teve essa atriz no cinema português e continua a ter, mesmo quando nos últimos filmes tem aparições mais curtas. Mas são absolutamente marcantes e, portanto, para nós era indispensável fazer estas duas homenagens.  

Paulo Branco

A Selecção Oficial atrai grandes nomes do cinema como o Hal Hartley, o Richard Linklater, o Christian Petzold, ou a húngara Ildikó Enyedi, além de nomes emergentes deste ano. Esta foi uma seleção difícil?
Não, não é uma seleção difícil de conseguir porque os filmes que se destacam anualmente, como sempre, não são tantos como isso.  Aqueles que nós pensamos que são absolutamente excecionais, como em tudo, não são tantos como isso. E, portanto, os filmes que trazemos às duas competições - a competição oficial e a secção descoberta - são realmente excecionais. E são filmes que demonstram que o cinema continua a ser a arte mais universal, porque vemos aqui filmes de realizadores da Índia, da China e do Irão, juntamente com realizadores ocidentais e americanos, todos no mesmo plano de igualdade. E curiosamente os realizadores que cá vêm, vêm sobretudo com essa intenção de descobrir os cineastas que também cá estão ao mesmo tempo que eles e a partir daí trocarem pontos de vista sobre a obra de cada um. Porque isso é um dos grandes pontos fortes do nosso festival, a maior parte destes realizadores já está connosco. E portanto, há sempre uma possibilidade de dar a conhecer as obras uns aos outros e, a partir daí, inclusive, talvez depois cruzamentos futuros.  Temos um filme português notável, “Entroncamento”, do Pedro Cabeleira, que recomendo ao público. Se não forem a todos os filmes, que tentem ir a quase todos, porque mesmo se alguns estrearem em Portugal, outros muito provavelmente não terão essa facilidade. Como sabe, a estreia de um filme em sala, por vezes, não é tão simples como isso e, portanto, alguns desses filmes não chegarão às salas. Alguns deles chegam, felizmente, e o festival para isso tem contribuído. O nosso objetivo é que todos estes filmes que estão na competição sejam exibidos em Portugal. E, portanto, vamos tentar que isso aconteça.  

Paulo Branco

Mais uma vez, há aqui uma posição pela questão de Gaza, na exposição do coletivo Dahaleez e ainda vamos ter uma Noite Síria no Teatro do Bairro. O Leffest recusa-se a ser apolítico, não é?
O apolítico não existe. Qualquer gesto nosso, seja individual ou outro, é um gesto político. Quer queiramos, quer não. O não querer já é um gesto político. O festival sempre se situou na zona em que não pode alhear-se do mundo. Não é que tenha ajudado o que seja, mas no ano passado penso que fomos o primeiro festival no mundo a chamar como verdadeiro genocídio ao que se passa em Gaza. E trouxemos cá muitos convidados palestinianos que não eram convidados em mais lado nenhum na Europa; provavelmente só em Espanha. Infelizmente, posso dizer, a realidade da barbárie do que se passou em Gaza é evidente para todos e, finalmente, para o poder político. E, portanto, não podíamos deixar de parte essa situação absolutamente inaceitável e criminosa. Temos que continuar a chamar a atenção de uma maneira ou de outra para estas situações que se passam no mundo. 

O que é que pode dizer sobre o espetáculo “Noite de Fado: Catarina Wallenstein e os seus amigos”?
A Catarina é uma atriz por quem eu tenho imensa admiração, produzi vários filmes em que ela entrou, e eu sempre soube que ela era uma cantora de fado excecional.  Este ano convidei-a, por ser atriz e por ser cantora de fado, e demos-lhe um espaço - foi a Inês Branco Lopes que teve essa ideia - no Teatro do Barro, para ela e os seus amigos fazerem “Uma Noite de Fado”, porque todos os nossos convidados estrangeiros querem sempre um dia ir assistir a Uma Noite de Fado. Resolvemos facilitar, organizando no próprio Teatro do Bairro “Uma Noite de Fado”, que não é só para os nossos convidados, está aberto ao público. E lá estará a Catarina com aquelas pessoas que ela estima e que nos vai oferecer, penso eu, um concerto único. 

Paulo Branco