LEFFEST: o futuro próximo e o passado do cinema a partir de hoje em Lisboa

Entrevista ao diretor Paulo Branco sobre a 20ª edição do festival internacional.

Começa hoje a 20ª edição do festival internacional de cinema LEFFEST, em Lisboa. A sessão de abertura do evento é o filme norte-americano “Paper Tiger”, de James Gray, tido como um dos mais prováveis candidatos aos Óscares. Adam Driver e Scarlett Johansson fazem parte do elenco. Para o diretor do LEFFEST, Paulo Branco, o festival é uma antevisão dos filmes que vamos ver nos próximos meses. “Eu acho que podem encontrar neste festival todos os filmes importantes que vão estrear em Portugal brevemente. Portanto, as pessoas que tenham a curiosidade ou não querem esperar, poderão vivê-los em salas com ecrãs e condições de visibilidade melhores do que normalmente, quando saem depois em Portugal. Há, por exemplo, dois momentos muito fortes que dificilmente nós pensávamos poder ter e conseguimos, que é o 'You Will See Everything', que estreou agora nos Estados Unidos, é um documentário sobre a Elizabeth Holmes, que estava a bater todos os recordes lá fora, e o 'Musk', esse filme tão controverso, que é sobre o Elon Musk. Esses são dois pontos em que se juntam o cinema com a atualidade e a sociedade".

O programa deste ano inclui a retrospetiva integral do cineasta Lars Von Trier, autor de filmes como “Ondas de Paixão” ou “Dogville”. Outra retrospetiva é dedicada ao português Tiago Guedes. “O Tiago Guedes, para mim, é um dos grandes realizadores portugueses. Tem uma voz muito particular e diversa. São filmes que tentam chegar a um público mais alargado. Portanto, vamos poder ver a obra toda dele. E depois temos o Lars von Trier, que é um dos maiores cineastas da história do cinema e que aí vai ter uma retrospetiva integral em que muitos dos seus colaboradores e atores vão estar cá para falar sobre essa obra. E vamos poder descobrir o ‘Ninfomaníaca’, o ‘Anticristo’, ‘Melancolia’, no meio de muitas outras obras que nunca chegaram a Portugal”.

Outro filme na programação do Leffest é o filme do romeno Cristian Mungiu, “Fjord”, premiado com a Palma de Ouro de Cannes deste ano. “É também um dos também principais concorrentes ao Óscar para o Melhor Filme Internacional. Os Óscares não são sinónimos, à partida, que os filmes sejam de qualidade, mas são, sobretudo, sinónimo de que são os filmes que mais interesse na indústria cinematográfica tiveram este ano. E ter cá, praticamente, os principais concorrentes aos Óscares. Só não temos a “Bola Negra” porque estreia um dia antes. Isso é fruto de uma capacidade que temos de poder trazer em primeira mão esses filmes todos que as pessoas depois vão ouvir falar durante o ano todo.

O Leffest é um festival cultural que transborda para além do cinema, mesmo que a partir do cinema. Este ano não é exceção. “Vai-se passar muita coisa no Teatro do Bairro, como leituras, encontros, performances. Vai haver o tema em (I)moralidades e moralidades, que vai trazer o Abel Ferrara, a Beatrice Dalle, a Catherine Breillat, personalidades muito particulares no mundo da criação artística e atores. Vão poder falar de uma relação com a sociedade, sob transgressões que existem muitas vezes no ato artístico. E, portanto, vai haver discussões que vão ser interessantes. E vamos aproveitar a presença do David Cronenberg e da Barbara Sukowa para fazer uma conversa sobre o Mr. Butterfly, onde eles trabalharam juntos. Vem a Angélica Liddell, que é uma das maiores encenadoras de teatro, que vai cá estar e vai intervir várias vezes e de maneiras diversas. Há uma profusão de pequenos eventos, outros vão sendo inventados à medida que as pessoas estão cá, porque ninguém vem com cachê. As pessoas vêm porque querem vir e estar cá estes dias.

O festival Leffest decorre até dia 15 nas salas São Jorge, Nimas, Culturgest e no Teatro do Bairro. A novidade do Leffest é a inclusão no seu mapa de um cinema multiplex, o Cinema NOS do Vasco da Gama no seu circuito. “As vantagens” desta inclusão de um cinema de centro comercial “é de permitir a um público que normalmente só vai aos multiplex, de poder ir e poder ver filmes que muitas vezes não passam nos multiplex. Alguns passarão mais tarde, mas é uma maneira de conquistar novos públicos dentro do espaço que eles estão habituados a ir”.

Agora que chegamos à 20ª edição do Leffest, é um bom momento de reflexão sobre este festival de cinema. “O que nós temos tentado evitar é institucionalizar o Leffest. O Leffest põe-se em questão todos os anos. E este ano, muito particularmente, que é o vigésimo ano. Quando eu aceitei a primeira vez, nunca pensei na minha vida que fizesse mais que uma edição. Pronto, vai-se fazendo porque achamos e temos motivos que para podermos fazer melhor e, sobretudo, podemos também nós usufruir disto. Mas todos os anos nos pomos em questão. O terreno é sempre muito móvel, não sei o que é que se passará no futuro e quando acabará. E talvez daqui a trinta anos, ainda esteja a dizer a mesma coisa... Se estiver cá. Logicamente, daqui a trinta anos não estou cá de certeza, porque não vou bater o Manuel Oliveira, porque isso ele não me perdoaria".