Lena D'Água e os hipocampos musicais

A primeira mulher vocalista de uma banda rock em Portugal recorda mais de cinquenta anos na indústria da música.

Lena D'Água começou a fazer da música o seu ofício em 1975. A sua voz fez parte das bandas Beatniks, Salada de Frutas e Atlântida. Enquanto a primeira vocalista feminina de uma banda de rock em Portugal sofreu os preconceitos. Enquanto cantora procurou dar voz aquilo que a inquietava no mundo. Nos estúdios da Bauer, faz uma viagem pelos hipocampos musicais.

Lembra-se do seu primeiro contacto com a música?

O meu primeiro contacto deve ter sido na barriga da mãe, porque o meu pai comprava discos, era futebolista, mas tinha uma paixão grande pela música e cantava muito bem. A minha mãe também, mas era mais na igreja. O meu pai era mais Tony de Matos e o Nat King Cole. Depois os meus irmãos nascem a seguir a mim, a Cristina primeiro e o Rui a seguir. Não era nada de especial cantar-se afinado naquela família, não era nenhuma coisa de outro mundo. Anos e anos, nunca imaginei que um dia a minha vida ia ser subir a palcos e cantar para pessoas.

Era super tímida, mas houve ali um momento na minha infância que foi muito marcante. O meu pai jogou muitos anos no Benfica, 13 anos. O último ano a jogar, quando tinha 7 anos, foi em Viena, na Áustria. Lá fomos os quatro, a mãe, a avó - ainda tinha a minha avó Sara, a mãe da minha mãe - e passámos aquela temporada em Viena. Fomos uma vez assistir, não sei se era uma missa cantada ou um espetáculo, dos Pequenos Cantores de Viena que tinham a minha idade. Todos rapazinhos tinham aquelas vozes angelicais de quando temos 7 anos e eu fiquei deslumbrada. O meu pai percebeu, comprou uns disquinhos dos Pequenos Cantores de Viena, que eu ainda lá tenho. Foi muito marcante. Ainda hoje eu comovo-me quando ouço muitas vozes juntas a cantar. É muito comovente e muito belo.

Depois comecei a aprender também o alemão, porque eu já sabia ler. Tinha passado para a segunda classe, os meus irmãos eram mais pequenitos, na escola falava-se alemão. Lá me adaptei. Teve de ser. Esses tais disquinhos, uns EPs com quatro músicas e um LP, de longa duração, eu tinha as letras das musiquinhas, e cantava. Ajudou-me a aprender a dizer algumas palavras em alemão. Depois, quando voltámos, ficaram algumas memórias da língua, mas pronto, quando depois te afastas e não voltas a ter aulas daquela língua, depois fica tudo assim. Quando não se dá uso.

Pois é, nós também não precisamos disso, temos sempre o inglês. É mais fácil, é verdade. Atualmente então é uma porta aberta.

Faz o seu percurso, até mesmo a entrada na universidade, e a música não é o caminho que está a tentar seguir.

A música aparece em determinado momento, mas há este bichinho que aparece. Essa curiosidade. Sou de uma geração que conheceu os Beatles na telefonia, como a gente dizia. Também aprendi a falar um bocado inglês. Tinha dez anos, talvez, e para cantar as letras e fazer vozes com os Beatles, eu tinha que escrever, mas eu não sabia bem o que era aquilo. Só pela fonética escrevia a fonética das letras das canções, para poder cantar com eles. Tenho uma pena de não ter guardado esse bloquinho onde eu escrevia as letras dos Beatles, só em fonética.

Andei aqui no Liceu Maria Amália, fiz ali o liceu todo, e quando passei no exame do 5º, equivalente ao 9º agora, pedi ao meu pai uma guitarra. Porque a música sempre foi uma coisa que me emocionava muito, desde pequenita. Fomos ali à Rua do Carmo comprar uma viola acústica, assim, com o bracinho porque eu era pequenita, tinha 14 anos. Com a ajuda de um amigo lá do bairro de Santa Cruz, em Benfica, onde eu nasci, onde vivi a maior parte da minha vida, lá fui tirar os acordes, e descobri nessa altura uma cantora americana, ela morreu há pouco tempo, Melanie Safka. Ela tinha gravado um álbum sozinha, só com a guitarra, aquilo foi maravilhoso para mim porque eu podia cantar naquele tom, que é o tom para mulheres. Os Beatles era difícil cantar, tinha que fazer umas vozes.

No Liceu Maria Amália fazíamos uma espécie de audição para ver quem é que entrava no Orfeão, e eu queria fazer a segunda voz, que era mais difícil. A primeira voz é para mim, não tem interesse nenhum, é fácil de fazer. Quando ia lá a professora de canto coral, uma por uma, eu a tentava fazer a voz mais baixa, mais grave, para ver se conseguia ficar com as segundas vozes. Era muito mais interessante, mas não conseguia, ficava sempre na primeira voz. Aquela voz agudinha, pronto, que não me deixava ser escolhida para fazer as segundas vozes.

Surge a vontade do desafio?

Sim, aquilo para mim era tão fácil, não dava luta.

Depois acabo o liceu no quadro de honra. Não é que eu gostasse muito, estudava quando era preciso, mas normalmente estava muito atenta. Gostava de muitas coisas, de letras e de ciências. Quando chega a altura de escolher os últimos dois anos - era o terceiro ciclo que se chamava na altura - escolhi económicas que tinha cadeiras de ciências e de letras e dava para fazer sociologia. Sempre fui muito interessada nas raízes das coisas e nos movimentos do pensamento humano, na etnologia e na arqueologia. Era tudo logias, logias. Queria escolher um curso que me levasse a estudar e a compreender o máximo possível, que não fosse uma coisa muito específica.

Estava no primeiro semestre do primeiro ano no ISCTE em Sociologia, quando acontece o 25 de Abril. Tinha aulas naquele dia. Matemática às oito da manhã, não sabia de nada. Tinha apanhado o autocarro 50 na Avenida Gomes Pereira, saía com a aula praticamente à porta e quando chego a porta estava a fechar. Aquela secção tinha poucos alunos e às oito da manhã matemática, estava só meia dúzia. Nós mal nos conhecíamos nesse ano de 1973, as aulas começaram muito tarde em meados de novembro. Estava um dos rapazes, que já sabia o que é que se tinha passado, e estava excitadíssimo. Dizia "Ocuparam o Rato Clube!", ele era alentejano e eu percebia o Rato Clube! Passados uns segundos, é que eu percebi que ele estava a dizer o Rádio Clube, que era esta casa onde nós estamos agora. Foi aqui que aconteceu uma grande parte do 25 de Abril, os comunicados. Tinha 17 anos, foi uma experiência absolutamente marcante, e tive imensa sorte, gostei muito de viver sobretudo os primeiros tempos. Depois, política, já sabe, começou tudo à batatada em menos de três tempos, o PS, o PSD, todos.

Inicialmente houve este sentimento de liberdade porque até aos dezassete anos tudo aquilo que conhecia era a ditadura, era esta limitação. Havia coisas tão parvas, eu era miúda aqui no Liceu Maria Amália, nós usávamos bata com um emblema, bordado à máquina por eles. Tínhamos de comprar aquilo e as mães coziam na bata de acordo com o ano, tinha uma cor diferente, mas as batas eram iguais, brancas, até ao joelho. Era proibido usar calças, estes pormenores que não fazem sentido nenhum. Usar calças era uma ousadia, essa proibição foi levantada um ano antes do 25 de Abril. 

Ainda pela faculdade, é por esta altura que surgem os Beatniks?

Sim, foi no ano a seguir. Já sabia tocar a minha guitarra, tinha os meus amigos de Benfica. 

Benfica parecia uma aldeia na periferia de Lisboa, fica ali assim mesmo perto da saída da estrada de Sintra. Nós íamos para os bancos dos jardins e levávamos uns livros de poesia. Aqueles tempos, a seguir ao 25 de Abril, foram lindos. Depois havia um que tinha uns bongos, eu e o meu amigo que me ensinou os acordes, as guitarras. Aprendi as músicas da Melanie Safka. Começaram a dizer que eu era a Melanie de Benfica.

Por esta altura, há uma festa de carnaval com um palcozinho no Parque de Campismo de Monsanto, na Casa Branca como eles chamavam. Eu e os meus amigos de Benfica, éramos seis ou sete, pegámos num autocarro para irmos para essa festa. Foi nessa noite que eu conheci aquele que foi meu namorado, com quem depois casei e de quem tenho a minha filha. Foi uma paixão praticamente à primeira vista. Um encontro muitíssimo especial e depois dei-me conta que ele morava na Amadora e os meus amigos de Benfica tinham amigos nos amigos dele. Foi muito divertido, não soube logo que ele era músico, mas depois com as conversas lá fiquei a saber que ele era viola baixo e que estava a reestruturar uma banda onde já tinha tocado uns tempos antes de ir para a Bélgica - porque foi um dos casos que saiu do país para não ir à guerra. Eu tinha dois amigos que estavam na guerra e era uma coisa tremenda.

Ele disse para aparecer numa noite para ouvir umas músicas. Acabámos por começar a namorar e eu ia fiquei à espera de bebé cerca de um mês depois. Mas não foi acidente, eu achei que tinha de ser, do alto dos meus dezoito anos. Era amor. Estava convencida que era para a vida toda, como diz a Carolina. Ficou o fruto daquele amor que é a minha querida Sara.

Isto está tudo a fazer 50 anos, meu amor. O nosso encontro foi há 50 anos. A Sara nasceu vai fazer agora em dezembro 50 anos. Faço 50 anos desde a primeira vez que cantei com eles em palco em março. O 25 de abril também fez 50 anos, no ano passado.

Quanto aos Beatniks acabou por ser natural. Estava lá nos ensaios com a bebé, a fazer umas coisinhas simples, vestidinhos e camisolinhas. Alguém diz tu devias começar a ir connosco quando fizermos os concertos. Começaram a tocar ao vivo um ou dois meses antes da Sara nascer. Eu entrei depois em março, fazia uns coros. O Tó Leal era o vocalista. Foi assim: sem estar à espera, sem querer e por amor. Sendo certo, claro, que a minha paixão pela música já existia desde sempre. A minha comoção com a música tinha existido sempre na minha vida.

A última atuação de Lena com os Beatniks foi a abertura de Jim Capaldi. Não é um concerto qualquer, é uma casa grande no Coliseu de Lisboa.

Pois foi, fizemos a abertura. Tocámos primeiro, há meia dúzia de fotografias. Tenho pena que não haja mais. As fotografias que eu tenho, até são boas, vê-se eu, o Tó e umas sombras lá atrás. Mas não tenho gravações nenhumas daquele tempo, não cheguei a gravar com eles. Esse foi o meu último concerto com Beatniks porque o meu casamento, entretanto, já estava desatado. Civilizadamente estava marcado e nós ali éramos o baixista e a cantora, de maneira que eu fiz o concerto sem problemas nenhuns.

Houve dois músicos do Jim Capaldi que ficaram muito impressionados com a minha voz e um deles disse-me "Devias ouvir Billie Holiday". Foi os primeiros vinis que comprei. Os primeiros vinis da Billie pensei "Esta mulher era incrível". Morreu três anos depois de eu nascer, passou muito em tempos de racismo e os problemas com a heroína e o álcool. Aquela voz era incrível para transmitir coisas. Aquele músico deve ter sentido que havia qualquer coisa que me aproximava dela, de facto quando muitos anos mais tarde faço o repertório de Billie Holiday aqui com os meus amigos do Hot Club. Tonalidade perfeita.

Tive várias inspirações: a primeira foi a Melanie Safka, depois foi Billie e a Elis Regina que cheguei a ver quando veio a Lisboa em 1978. No ano em que fiz coros da música "Dali Li Dou", dos Gemini, no Festival da Canção e fomos a Paris. Elis foi a artista convidada, já tinha discos dela mas depois de a ver ao vivo aquilo foi que incrível. Pequenina. Descalça. Incrível, incrível. O pessoal na plateia tudo engravatadíssimo e as senhoras todas cheias de jóias. Foram essas três cantoras. Uma brasileira e duas americanas por acaso. Agora é outra americana, é a miúda, a Billie Eilish: amo-a, adoro-a, é interessante.

Continua a conseguir encontrar nestas novas vozes traços que de lhe tocam?

A Billie tem qualquer coisa... Sinto que esta miúda é da minha tribo. Agora tem vinte e três anos, mas eu comecei a ouvir quando tinha para 16 anos com "Ocean Eyes". Descobri nesta altura e eu fiquei "O que é isto? Que voz é esta?", é uma coisa incrível. Ela e o Finneas são aquela parceria da dupla dos manos que fazem aquelas músicas incríveis. Tenho sempre as antenas ligadas para o que se está a passar no nosso mundo em termos musicais. Onde há tanto ruído, muita palha e tanta coisa que não interessa nada. Mas de vez em quando descobrem-se assim pérolas. Como a Billie Eilish, que eu amo.

Quando saí dos Beatniks já sabia que a música era o caminho?

Ainda fiz o curso de Magistério Primário, com o 25 de Abril a faculdade onde eu estava foi uma das que ficou sem professores para fazer as reestruturações e os "saneamentos". Foi muito tempo e não estava para isso. Houve pessoas da minha idade, mais ou menos, que fizeram os cursos com passagem administrativa sem aulas, sem nada. Eu não estava para isso. Comecei Magistério Primário, que é no Instituto Superior de Educação, porque também havia disciplinas que me interessavam: 'Psicopedagogia', 'Linguística' e 'Música, Movimento e Drama'. Foi um curso piloto espetacular. Deixou de ser o professor sozinho daquele lado em cima e as crianças todas do outro. Nós aprendemos fazendo e fazíamos os trabalhos das diversas disciplinas. 'Música, Movimento e Drama' era sempre a "Lena da Música". Ainda fiz estágios em duas escolas, nos Olivais e em Loures. Os miúdos adoravam-me. As professoras não gostavam lá muito, porque quando eles me viam a chegar nas janelas das salas começavam a gritar "a Lena da Música, a Lena da Música".

No que toca à carreira na música, o último concerto com os Beatniks foi no princípio de 1978. Tinha-me separado há duas semanas, foi assim mesmo à pele, no verão antes de 1977 nós fomos tocar num Festival Musical Açores. Aqui de Lisboa foram vários jornalistas e foi uma pessoa ligada às editoras produção musical. Ouviu-me e quando voltámos passado uns dias toca o telefone para me convidar para ir a estúdio fazer uns coros para artistas já consagrados.

Eu nos Beatniks não ganhei um tostão, foram dois anos só mesmo de estágio não remunerado. Por esta altura, estava acabada de me separar e aquilo dava-me algum dinheiro. O trabalho de estúdio era mínimo três horas, mesmo que eu estivesse lá só uma, recebia 1950 escudos (9,86€) nunca mais me esqueço. Já nem sei fazer as contas do que era 1950 escudos. Eram quase dois contos. Nesse trabalhinho era chamada para fazer os coros. Estou no original de "Eu Tenho Dois Amores" de Marco Paulo, "Mocidade Mocidade" de António Calvário, também num disco de Carlos do Carmo. Tudo isto no final de 70's e princípios de 80's. Depois comecei a cantar Jingles que era um cachê melhor.

Eu encantada, comecei a ganhar dinheiro com a música. Tinha uma pequena. Estava na casa dos meus pais outra vez. Tinha-me separado. 

Foi em gravações de publicidade que conheço o Luís Pedro Fonseca e o Zé da Ponte que eram dois criativos que compunham Jingles, mas para além disso faziam canções. Começou então a desenhar-se aquilo que seria a nossa banda 'Salada de Frutas'. O LP de 80 que é impecável, o "Sem Açúcar". Tudo nomes metidos por mim. Eu e o Luís Pedro tínhamos já as nossas preocupações ecológicas, foi em 1981 com aquele super, hiper, mega êxito "Robot" que nós ficámos famosos e eu fiquei reconhecida para sempre. Sobretudo naquela altura só tínhamos uma estação de televisão só havia RTP, nem sequer havia RTP 2, por isso toda a gente via as mesmas coisas nos mesmos dias à mesma hora. 

Como foram os primeiros tempos de estrelato?

Foi um tempo muito giro, só que para mim era um bocadinho cansativo. Os miúdos aos gritos. Não é fácil, não é fácil. O foco estava em cima de nós, não havia mais canais, não havia internet, não havia nada... Mas eu lá consegui lidar com isso bemzinho, até porque quando eu nasci o meu pai era super famoso por causa do Benfica e da seleção. Saiu no jornal a notícia que nasceu a primeira filhinha do José Águas.

Quando os jornalistas iam lá a casa fazer entrevistas ao meu pai fotografavam-me muito. A seguir, quando a Cristina e o Rui nasceram também eles. Lá está, eram miúdos aos gritos quando saíamos no carro e íamos para qualquer lado. Já tinha aquela espécie de vacina, já me tinha habituado por contágio digamos assim.

Num espaço de dez anos, tem projetos a uma velocidade quase imparável: Beatniks, Salada de Frutas e depois a banda Atlântida. Foi fácil adaptar-se a dar a cara a novas bandas?

Fui despedida da Salada de Frutas. Não queria uma mulher à frente, aquelas coisas que ainda hoje vão acontecendo.

Era difícil ser mulher na indústria da música?

Não era difícil porque eu não estava sozinha. Tinha o meu compositor, que por acaso fomos namorados durante sete anos. O Luís Pedro ficou a olhar para eles e disse "Então está bem. Olha, boa sorte. Tchau." Veio e fizemos a Banda Atlântida, que foi logo a seguir. O "Robot" sai em maio de 1981, com a Salada de Frutas. Depois em setembro, numa memorável Festa do Avante, sou despedida e o Luís Pedro vem comigo.

O primeiro single "Vigaro cá, vigaro lá" sai ainda nesse ano com "Labirinto" no lado B. Já com aquilo que ainda não era completamente, mas quase a Banda Atlântida. Depois sai o meu primeiro álbum "Perto de Ti" em 1982.

Com aquilo tudo: 'Nuclear Não, Obrigado', 'Demagogia',  'Carrossel da vida na cidade", "Perto de Ti", tudo isso... Aquele homem era genial. Também tinha mau fatio, mas isso acontece.

Ao olhar para trás, a ideia inicial que temos das bandas que ascendem no rock são as masculinas. Sente que a mentalidade da época ainda não estava pronta para o sucesso de Lena D'Água?

Claro. Se fores ver, aquilo que o Luís Pedro fazia como compositor e arranjador não tem nada a ver com o boom do rock português. Aquilo era um rock progressivo, sinfónico, que já não agradava aos críticos da nossa praça.

Já era velho para eles. Mas eu tinha crescido com isso nos Beatniks, tinha ouvido os Yes e os Genesis. Estava mesmo nas minhas águas.

Quando rompe o boom do rock português, nós fomos sempre um bocado à parte. Os críticos acusavam-me de ser afinada demais para o rock. Depois, como usei minissaia três ou quatro vezes e aquela túnica branca onde apareci numa festa que deu muito nas vistas... A crítica foi sempre muito madrasta para mim e para o Luís Pedro. Ignoraram-nos, mas o público não. Nós íamos tocar a qualquer lado e era sempre uma loucura.

Nunca me senti sozinha, porque nunca estive sozinha. Nunca me senti desprotegida, era a minha segunda família. Depois o Luís Pedro produz Rão Kyao, nós também desatámos a nossa ligação. A banda deixa de ter nome. 

O álbum da Lena D'Água, de originais, só surge muito mais tarde. Cheguei graças àquele menino que me telefonou, e que tem sido o meu parceiro de escrita e composição nestes dois últimos álbuns. Já há nove anos, que começámos a funcionar, eu e o Pedro Silva Martins.

Estes dois álbuns são diferentes?

Sim.

A preocupação ecológica e com o mundo já estava lá no "Nuclear Não, Obrigado".

"Jardim Zoológico" é de 1983, "Papalagui" e "Terra Mágica", há muitas... "Trabalhar p'ra ganhar a vida", que é um quadrinho da Mafalda e o Luís Pedro fez a música dali. Lá está a minha costela da Sociologia e a minha herança daquele grito da liberdade do 25 de Abril. A partir daquele ano, em que fiz 18 anos, tudo já se podia dizer. Já se podia batalhar pelas coisas que nós já sabíamos que eram muito importantes há tantos anos.

Há uma ocasião muito gira, que também fez este ano 50 anos. A primeira vez que eu votei foi a primeira vez que a minha mãe votou. Porque antes as mulheres não votavam em Portugal. No dia 25 de Abril de 1975, as primeiras eleições livres.

Nos últimos nove anos os palcos recebem-na de uma forma diferente?

Sim, há muito mais juventude. Os meus fãs antigos, entretanto, cresceram também. Houve uma renovação incrível e as crianças redescobriram-me com "Desalmadamente". Foi o hipocampo, esse tema que as crianças adoram por causa dos gatinhos e os macaquinhos. Nem imaginas a quantidade de mensagens no Instagram de jovens mães, a dizer que adormecem os bebés com "Desalmadamente". Estou convencida que há alguma coisa na minha voz, na minha forma de ser. Tenho uma grande criança dentro de mim, não prescindo. Sou irreverente, sou maluca, sou às vezes muito impulsiva, mas também sei pedir desculpa. Há alguma coisa na minha voz que as crianças reconhecem, não sei. São da minha tribo. Ou então eu sou da tribo delas.

Já "Tropical Glaciar" andou para a frente em relação ao "Desalmadamente". Era um "Olha, estou cá, não morri. Ainda não fui embora." Agora já não, já passámos essa fase e fomos mais longe até. O Pedro é incrível, escreve e compõe de uma maneira...

É por este caminho que quer continuar a fazer música?

Sim, até sempre. Não tenho ideias nenhumas de fazer outra coisa. Se a minha voz continuar aqui e a vontade. O que mais me custa são as viagens. Apesar de agora os caminhos serem mais curtos, é muito taxado, porque as autoestradas são uma seca.

Nem há casas para ver, detalhes para se reparar...

E comprar como havia sempre, aqueles restaurantezinhos onde a gente parava à ida ou à vinda para almoçar, onde eu comprei várias cerâmicas. Na altura em que ainda eram pintadas à mão, baratinhas. Disso tenho saudades, pode demorar menos tempo, mas a autostrada é uma seca e cansa-me muito. Depois chegamos, ensaiamos. Temos de fazer ensaio de som para acertar tudo, depois lá almoçamos. Mas sim, não há hipótese de ser de outra maneira. Vou cantar até sempre, até ao fim e espero que esta minha voz se mantenha.

O que é que ainda lhe falta fazer?

Falta-me escrever a história da minha vida. Já é uma vida tão longa, já faço 70 para o ano. Já tenho um nome provisório, e a memória também é coisa que ainda não me abandonou e eu duvido que me vá abandonar. Tenho muito drama. Sofri muito, chorei muito. Agora já menos, mas ainda me comovo muito. Agora já me protejo melhor.

Quando tu és uma borboleta e jovem num mundo de homens sofres um bocado, apesar de estar sempre nos grupos, nos músicos e nos técnicos, Sofres um bocado com a falta de reconhecimento. Ficavam bloqueados com a imagem: as pernas, as pernas, as pernas, as pernas, as pernas... Uma vez fui à televisão e era uma mulher. Faz-me uma entrevista e eu aguentei-me bem, mas fiquei lixada. "O que é que acha de ser considerada a cantora das pernas?" Como se não tivesse toda a gente duas pernas, não é? Eu às vezes até dizia "Que coisa, porquê que não falam das pernas da Rosa Mota? Ela pode mostrar e eu não posso." A Rosa Mota, que nós somos raparigas de meia-idade, e ela estava também no topo, ganhava as maratonas. 

Acho que vai ter uma parte que se vai ouvir, porque eu quero que pessoas que não conseguem ler ou que são invisuais possam ler. Há partes desse livro que eu sei e quero. Primeiro sou eu e essa ideia já está completamente decidida na minha cabeça. Também vai ter fotografias. Partes importantes vão ser escolhidas para que as pessoas possam ouvir.

É isso que me falta o livro que está por escrever, que ainda não sei bem como é que vai ser.

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.