Lena D'Água: "O Pedro [da Silva Martins] é o meu alfaiate de alta costura"

Novo álbum "Tropical Glaciar" sai nesta sexta-feira. Temas como 'Sem Pressa', 'Pop Toma' ou 'Chá' têm tudo para se apegar aos afetos coletivos.

“Tropical Glaciar” é o disco de ativismo à solta de Lena D’ Água, que o seu compositor Pedro da Silva Martins tenta adaptar e encaixar. Há uma canção de apelo pela paz, como ‘Chá’, e vários temas de intervenção ecologista. O amor também é chamado.

‘Pop Toma’ e ‘Fomos O Que Somos’ têm cola ao ouvidos, num disco de pop inteligente e madura, quase só ao alcance de uma personalidade como Lena D’ Água.

O álbum “Tropical Glaciar” sai nesta sexta-feira, dia 15.  Tal como em “Tropical Glaciar”, Lena D’ Água trepida de vivacidade nesta entrevista... com muitas risadas.   

O álbum ‘Tropical Glaciar’ é uma oscilação de alma? Passa de um ansiolítico na primeira canção 'Sem Pressa' para um estado de ansiedade na segunda canção, 'Naquela'.
Tenho uma história do ‘Sem Pressa’: estávamos já em estúdio, no final da primeira semana e o Pedro disse-me “Lena, chega aqui. Vamos lá ao jardim”. E ele tinha aquilo gravado no telemóvel, uma maquete feita para eu cantar com uma guitarrinha e passa a minha letra para a mão e eu [digo], “ah Pedro, quero!” Ainda pensei em dar o [o nome do álbum] “Sem Pressa”, que também tinha graça: Lena da Água – ‘Sem Pressa’. Mas depois acabámos por voltar à outra ideia do “Tropical Glaciar”, porque é uma coisa e outra. 

Aprendeste a tornar-te uma pessoa desapressada? A vida no campo e a passagem do tempo ensinam isso?
Um bocadinho disso também, mas também tenho momentos de agitação... 'Puxa', primeiro que chegássemos a vias de facto para entrar em estúdio, demorou tanto tempo. Já com o outro disco, demorou quase três anos até estar pronto e sair. Este não durou três anos, mas foi para aí dois anos e meio. E há aquele tempo ali intermédio em que não posso ter pressa. Eu acho que foi por isso que o Pedro escreveu aquilo. Mas que tive momentos sozinha, sobretudo à noite, lá no fim do mundo. Não é assim tão fim do mundo, mas estava sozinha à noite. À espera, à espera, à espera. Mas lá está, depois o Pedro traz-me o medicamento e diz: "sem pressa, devagar tudo se faz". 

Lena D'Água

Ele comunica contigo através das letras que faz? 
Sim. Às vezes mandava-me mensagens para me acalmar, “vamos ter um grande álbum”. Depois tínhamos aqueles dias, semanas e meses de espera para que as agendas das pessoas se compatibilizassem para nos podermos encontrar. 

São 7 pessoas, não é? 
Sim, 7 pessoas. Fora o resto, sim, mas basicamente sim. 

O ‘Que fomos e o Que Somos’ é uma canção esperançosa e sonhadora?
Também já ouve quem achasse que esta canção é uma canção triste. Não acho nada. Houve uma pessoa que me ligou a chorar, não vou dizer quem. A Ana Deus [dos Três Tristes Tigres] fez-me um comentário quando saiu o single. “Lena, essa música vai fazer bem a tanta gente”. Isso é o que nós queremos, quando fazemos música, é isso mesmo que nós queremos, é fazer bem ao maior número de pessoas possível. Mas não aconteceu só às pessoas que ouviram, a mim também aconteceu com essa e com outra deste disco, que é o ‘Metaversão’. Eu estava em casa ainda a fazer as minhas maquetes sozinha, só com a voz, para acertar a minha tonalidade, procurar o melhor tom, porque as maquetes estavam no tom do Pedro, com o Pedro a cantar. Depois aquilo, evidentemente, tem que se adaptar à tonalidade da minha voz. E eu tinha que parar. Em estúdio ainda me aconteceu um bocadinho, mas já não foi quase nada, porque também já tinha passado um ano e tal. Eu já tinha largado as minhas lágrimas a cantar sozinha em casa, comovida com as palavras e também com as melodias. O Pedro é altamente, eu gosto imensamente de o cantar. É o meu alfaiate, é um alfaiate de alta costura, com provas. 


O tema ‘Carne Vegan’ tem uma linguagem mais sexual. 
É a primeira de toda a minha carreira, que me lembre. É a primeira letra, assim, com esse… [picante].  E eu cantei a pensar não em só numa pessoa, mas em várias! Eu não tenho marido há muitos anos, nem namorado, de maneira que estou livre para poder pensar em quem eu quiser. Quando estou a cantar as canções, seja mais de amor ternurento, seja mais assim como a ‘Carne Vegan’, que é malandreca. “Tu até marchavas cru”. 

É valente. 
Precisamente, sobretudo para uma pessoa que não come carne há quase 20 anos. Lá está, neste disco o Pedro juntou algumas das minhas preocupações ecológicas que no outro [disco] não existiam. E neste já começou com: a ‘Fruta Feia’ e a ‘Semente’, também têm alguma coisa disso, tal como a ‘Carne Vegan’, ou o ‘Planeta C’, que não chegou a entrar, porque o Pedro achou que era muito, muito rock, e eu fiquei um bocado chateada, mas não consegui dar-lhe a volta. E ele dizia, “ah, depois, lá mais para frente tocamos ao vivo”. “Planeta C, porque o B já não vai chegar”. É um tema incrível, mas rock de mais para o “menino”. (Risos) O que é que eu podia fazer? Não posso obrigar o Pedro. 

Lena D'Água

O “Tropical Glaciar” é um álbum pop, calmo, macio. 
Sim, eu acho que sim. Já me custa um bocado sair dele, estou tão dentro dele que ainda não consigo ver assim de fora como vocês. E à medida que tu e outras pessoas vão fazendo algumas perguntas, eu tenho que pensar, porque ainda estou muito dentro dele e ele dentro de mim. Ainda não estou suficientemente afastada do “menino”, só quando ele sair, no dia 15 de novembro, em vinil lindo, com a capa linda de abrir, um trabalho da Susana Fernandes. Ela não tem redes sociais, mas é uma grande artista do Porto. Várias pessoas perguntaram se aquilo foi feito em inteligência artificial. Não, aquilo foi feito à mão. Eu vi, fizemos dois zooms, em que ela primeiro apresentou a ideia e depois mostrou aquilo tudo, com uns cartões todos coladinhos e cortados à mão, que parecem pétalas, parecem penas, parece um floco de neve e depois tem aquela gradação de cor que vai do mais quente ao mais frio, que é o tropical e o glaciar. Adoro a capa do disco. E vai sair em vinil branco, vinil transparente e também em CD e o resto já se sabe nos digitais, claro. 

É possível estabelecer uma relação entre o ‘Carne Vegan’ e um tema teu com mais de 40 anos como o ‘Jardim Zoológico’?
Tem qualquer coisa a ver, apesar de no ‘Jardim Zoológico’, os animais não serem para consumo. [Essa música] tem mais a ver com crueldade. Por mais que eles digam que [o jardim zoológico] é para proteger as espécies, na maior parte dos casos não é nada disso, é só para ganhar dinheiro com as entradas e os animais estão ali. No caso da ‘Carne Vegan’, tem a ver com a minha preocupação com a pegada ecológica, porque eles quando falam na agricultura, no pior da agricultura e da criação intensiva dos abacates que chupa a água toda e o azeite que vem de oliveirinhas pequeninas só por causa da agricultura intensiva, e depois, daqui a uns anos, isto fica tipo deserto. No caso da ‘Carne Vegan’, a minha preocupação com a pegada ecológica vai muito mais além da torneira que está a pingar, da reciclagem, ou do duche mais rápido. A pegada ecológica da pecuária, sobretudo a criação de carne de boi, é duas a três vezes maior do que todos os aviões e autocarros e automóveis juntos.

Revês-te nesta mensagem do ‘Pop Toma’, no que escreveu o Pedro sobre a superficialidade?
Claro. É um bocado como o ‘Chiclete’, dos Táxi, “mastiga e deita fora”. E ainda vai mais longe, porque uma grande de dose é tudo mentira, é tudo manipulado, aquilo não é assim, a vida das pessoas não é aquela. É uma grande ilusão, uma grande mentira. Agora estamos a falar mais do Instagram, do Facebook já não tanto. Eu uso mais o Facebook para ler pessoas que gosto, que escrevem bem, que me fazem rir e que me fazem pensar. Ao Instagram, só lá vou só de vez em quando. Tenho uma pessoa que trata de fazer lá algumas publicações e tal. Eu agora já não sou como fui no princípio. Quando entrei no Instagram, [publicava posts sobre] a minha cadela, os meus gatos, e mais não sei o quê. Mas de “Desalmadamente” para a frente, tornou-se um sítio profissional, não é? Já não meto lá muito a Lena Maria, agora é mais o concerto que fizemos, o que vamos fazer, a música que saiu, o disco que vai sair, não sei o quê, uma coisa mais profissional. É por isso que eu não uso muito o Instagram. E os filtros que se põem, ai, faz de conta que eu sou tão gira. Faz de conta que eu tenho tantos músculos. É tudo um faz de conta. E depois há tanta gente com depressão, e cujas depressões ainda se agravam mais. Miúdos e pessoas mais fraquinhas de cabeça acham que aquilo é verdade, e que a sua vida própria é uma porcaria em comparação. Por isso não acho nada saudável e a letra do Pedro, assim, de uma forma muito ligeira, toca nesse problema. 

No tema-título ‘Tropical Glaciar’, dás a volta ao mundo do amor. És também assim, no momento dorido, formas um iceberg?
Sim, já fui. Agora já estou um bocado reformada dessas coisas. Apaixonei-me imensas vezes na vida. Tive muitos namorados, relações mais sérias, três ou quatro, das quais dois já morreram e dois ficaram meus amigos. Mas acho que gastei a pilha da paixão (risos). 

Lena D'Água

Tens neste disco um tema que é um apelo à paz, ‘Chá’. Achas o mundo está a precisar de ‘Chá’? 
Sim, se o amor não está a conseguir… Foi o que a Pedro escreveu: “se não vai lá com amor, quem sabe cura com chá”. Eu tenho esperança nas pessoas mais novas. Tem-se visto nos últimos 15, 20 anos a maior consciência dos miúdos. Quando as crianças tiverem acesso a certos dados, quando eles perceberam que a chicha que têm no prato é aquele patinho que viram tão lindinho no Jardim Zoológico, ou na Quinta Pedagógica… Se calhar, quando eles fizerem essa ligação, e quando os deixarem fazer essa ligação, vai haver menos carne, carnes que são animais mortos nos pratos.

Como é que trabalhas com o Pedro? Tu lanças as sugestões e ele tenta corresponder-te com o que lhe pedes?
O Pedro faz as coisas. No outro disco, ele deu-nos as canções e “agora façam o que entenderem com elas”, no “Desalmadamente”. Desta vez não, ele esteve incluído nos arranjos e na produção. Podemos dizer que praticamente a banda toda participou nos arranjos e na produção. Menos as miúdas, claro, é sempre a mesma cena (risos). Eu tenho muita sorte, tenho uma banda lindíssima. 

Tens a mesma idade mental que eles? 
Acho que sim. No princípio, há muitos anos eu costumava ser a mais nova. Em todo o lado. E agora sou sempre a mais velha. Até nos meus concertos. São raras as pessoas da minha idade, ou mais velhas. Agora a maior parte das pessoas tem 30, 40 anos e depois há os miúdos com 12 anos. Tenho um clube de fãs, o meu primeiro clube de fãs da vida, que foi criado agora há meses por dois miúdos: uma miúda que vai fazer agora 14 anos, do Algarve, a Violeta, e um miúdo do Alentejo, de Alvito, que tem 17 anos, que é o Tomás.

Lena D’ Água é acompanhada atualmente pelo diretor de banda e guitarrista Pedro da Silva Martins, pelo guitarrista Luís J. Martins, pelo baixista Nuno Prata, pela vocalista e guitarrista Catarina Falcão, pelo teclista Vicente Santos Teclado e pelo baterista e percussionista Sérgio Nascimento.