Lenny Kravitz, o amplificador do amor
MEO Arena encheu para ver um dos grandes ícones do rock dos últimos 35 anos.
Estava um verão tórrido na MEO Arena, uma sala praticamente toda lotada para o concerto de Lenny Kravitz. Eram 21h16 quando o astro irrompe pelo meio do palco através de um ascensor e para abrir de forma explosiva com a canção ‘Bring It On’, uma jimi-hendrixada e uma bojarda de blues-rock, com direito a estilhaços pirotécnicos.
Lenny Kravitz estava com as suas longas tranças, uns óculos escuros espaçosos e um casaco de couro. Tudo certo portanto na farda rock & roll, onde nem faltou a pose - talvez mesmo imensa pose. Segue-se ‘Minister of Rock 'n Roll’, uma auto-aclamação mas também um consenso na MEO Arena. O público pareceu concordar com ele, enquanto já dava para ver melhor o enquadramento dos nove músicos que o acompanhavam, com um quarteto-base mais exposto, um teclista encostado às laterais, um trio de metais e lá atrás um coro de dois cantores.
‘TK421’ é de uma assertividade eletrofunky. Multiplicam-se ecrãs azulados por toda a estrutura do palco, como se fosse a Zoo TV Tour dos U2 (a célebre digressão tecnológica de 1992-93), mas o zoom de Lenny Kravitz era ao amor, mas já lá vamos. Em ‘TK421, há saxofone, Lenny Kravitz dá umas dedadas no baixo. Já se sabe, correm vários ícones no sangue de Kravitz, nesta música é James Brown que liberta o seu espírito de onde quer que ele esteja.
‘Always on the Run’ provoca a primeira desarrumação nos lugares sentados dos balcões que deixavam de ser assim tão sentados. Afinal, estava a ouvir-se um dos clássicos do rock & roll dos anos 90, que deram fama mundial a Lenny Kravitz. “My mama said” surge verso sim verso não, até ficar no ouvido para sempre.
Depois de uma passeata para uma revista de olhares à sala e um bem pronunciado “boa noite”, Lenny Kravitz resolve conversar connosco um pouco. “Todos os dias que acordo, agradeço a Deus”, diz, até falar em celebração da vida e do amor - seria uma mensagem política? ‘I Belong to You’ é a primeira música mais calma da noite, numa pop encostada ao trip-hop, reflexo dos anos 90, mas que em palco surge num formato mais propenso à eletricidade. Lenny Kravitz aproveita os últimos frames da canção para uma dança com ele próprio e com a sua guitarra elétrica.
‘Stillness of Heart’ é alavancado por outro refrão popular. A fumarada enevoa o chão. Lenny Kravitz saca de um poderoso solo de guitarra. E depois, como ele já sabe algumas coisas disto, virou-nos as costas e deixou Craig Ross a segurar a canção na guitarra acústica, a permitir a participação do público, com Lenny Kravitz a ressurgir para comandar o público na cantoria. No meio da eficaz interação, Lenny tira o casaco de couro e mostra a sua peitaça de Hércules, com um top de vestido feminino.
Em ‘Believe’, Lenny Kravitz parece um fã dos Beatles a cantar, numa música em forma de coração e em que o amor é tudo. O astro rock fica a tocar guitarra acústica num dos palanques laterais, enquanto que o seu fiel Craig Ross impõe a sua categoria de guitarrista solista no outro palanque lateral. Na música ‘Honey’, Kravitz entra em modo de cantor soul terno, a suplicar um afeto da sua querida. Já em ‘Paralyzed’, entra aos zigue-zagues glam-rockers como se estivesse nos T-Rex, até ir mais além, à monumentalidade dos picos dos Led Zeppelin. ‘Low’ é uma mescla de soul, rock e funk, com Lenny Kravitz em alternância com o coro.
Na 11ª música do concerto, ‘The Chamber’, Lenny Kravitz continua de guitarra na pista de dança, mas personificando alguém mais inseguro. “Cause when I make love to you/It's someone else that you're feeling”. Na adrenalina da noite, surgem as dúvidas emocionais. Em ‘I'll Be Waiting’, o fantasma do outro continua, mas aqui Lenny Kravitz já está na posição da reconquista: “I'm the one who really loves you baby/I've been knocking at your door”. Lenny Kravitz canta o tema ao piano e abanam-se milhares de telemóveis luminosos no ar, noutro dos momentos empolgantes da noite.
Lenny Kravitz descansa na escadaria da bateria como uma rei encostado na cadeira do trono, agarrado ao suporte de microfone que parecia o seu ceptro. Lá faz ele mais longos olhares para a multidão. Por vezes, sobe os óculos escuros até à testa para nos ver melhor. Terminada mais uma revista à multidão, o rocker faz-nos uma longa apresentação da banda que fazia antecipar uma cartada das grandes, que era, no caso, ‘It Ain't Over 'Til It's Over’, outro clássico da sua carreira, num rock suave, mas outra vez com Lenny Kravitz apanhado numa derrocada amorosa. “So many tears I've cried/So much pain inside/Baby It ain't over 'til it's over”.
Lenny Kravitz não é só um excelente guitarrista, é também um magnífico cantor cuja voz enche as canções. O tema ‘Again’ dá espaço a todas as potencialidades vocais do músico. Isto antecede a escalada emocional final. ‘American Woman’ é um blues psicadélico dos Guess Who apanhado mesmo a jeito por Lenny Kravitz para a sua rampa de ícone rock dos tempos de hoje, numa versão sem as sinuosidades underground do original. Uma poderosa guitarrada anuncia ‘Fly Away’, num mero desejo de viver na vertigem sem grandes profundidades filosóficas. A malha rock compõe este tapete voador que Lenny Kravitz não quer que aterre. O público apanha este tapete voador, na tal vertigem. Para o golpe final, fica reservado ‘Are You Gonna Go My Way’, artilhado com um dos grandes riffs de guitarra dos anos 90. Ocorre novo rebentamento pirotécnico, mas o grande bombardeiro estava na bateria e era uma mulher, Cindy Blackman Santana.
No encore, Lenny Kravitz faz um aquecimento como se fosse um buesman rural e acústico das primeiras gerações. Mas depois dá a ordem; “devemos amplificar o amor”. E o que se segue é ‘Let Love Rule’, um desejo de amorcracia, um regime livre de ódios. Com pompa de metais a lembrar as bandas da editora Staxx, ‘Let Love Rule’ é um mundo, uma soul expansiva com jam e com Lenny Lravitz a já não caber no palco. Desce para a plateia, como um Papa a cruzar a multidão, dando a mão ou levantando-a para dar a bênção, até chegar a um pequeno palco no centro da plateia em pé. A passeata de Kravitz pelo público baralhou as próprias câmaras de filmar, que desistiram de o procurar. O público, esse, continuava entretido, como se estivesse a jogar ao Onde Está o Wally?, neste caso, onde está o Lenny? No meio disto tudo, a banda ainda está a tocar ‘Let Love Rule’. Há meia-hora? Lenny Kravitz reencontra, entretanto, o caminho do palco principal para animar mais um pouco ‘Let Love Rule’. Pelos vistos, havia ainda mais ângulos para explorar na música. Às tantas, começa a crescer a expectativa de que Lenny Kravitz queira prolongar a sua estada em Portugal e adiar o seu voo só para continuar a cantar ‘Let Love Rule’. Tanta coisa que podia acontecer durante a longa interpretação de ‘Let Love Rule’, como por exemplo um debate televisivo entre candidatos às Eleições Legislativas. Mas, por incrível que pareça, se uma baleia da Groenlândia pode morrer ao fim de 200 anos, também vai surgir uma altura em que ‘Let Love Rule’ terá que acabar. E acabou. Foi uma interpretação esmagadora que conclui um concerto muito bem pensado a nível de alinhamento. Em regime de best of, Lenny Kravitz foi imperial.
