Leo Middea celebra 10 anos de carreira com concertos especiais no Porto e em Lisboa

Entrevista ao cantor e compositor brasileiro que em outubro vai celebrar o seu percurso artístico na portuense Casa da Música (Sala 2) e no Espaço Time Out, em Lisboa.

Leo Middea vai celebrar 10 anos de carreira com dois concertos especiais em Lisboa e no Porto. O músico brasileiro, atualmente a viver em Portugal, atua na Casa da Música (Sala 2), no Porto, a 10 de outubro, e no Estúdio Time Out, em Lisboa, dois dias depois, a 12. O início de ambos os espetáculos está marcado para as 21h30.

Oriundo do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1995, Leo Middea escolheu Portugal para viver. Está por cá desde 2017 e sempre que pode enaltece o afeto que tem por Lisboa, cidade onde vive. Sentimo-lo em canções como 'Lisbon, Lisbon', 'Bairro da Graça' ou 'Freguesia de Arroios'. 


São 7 anos em Portugal, mas uma vida conectada a outros lugares, como é o caso da Argentina para onde se mudou aos 18 anos, com uma guitarra numa mão e o sonho de ser músico na outra.

Desde a estreia nos palcos - que aconteceu em Buenos Aires - até aos dias de hoje, o músico carioca já editou cinco discos, sendo "Gente" - o mais recente - de 2023. O álbum de estreia - "Dois" - foi editado em 2014, seguindo-se "A Dança do Mundo" (que lançou em 2016) e "Vicentina" e "Beleza Isolar", que editou em 2020.  

O foco criativo está já no próximo registo discográfico. Como nos contou, o sexto álbum que assina irá refletir o caminho musical que tem trilhado, incluindo um "resgate" das origens e as primeiras influências musicais que o ajudaram a construir o caminho artístico que celebra uma década. Recentemente, o cantor e compositor disponibilizou o álbum ao vivo "Leo Middea no Estúdio Showlivre (Ao Vivo)".

Em 2024, Leo Middea participou no Festival da Canção, tendo conquistado o segundo lugar com a canção 'Doce Mistério', posição que partilhou com o cantor João Borsch. Embora a vencedora da edição deste ano, que mais tarde representou Portugal na Eurovisão, tenha sido iolanda, a oportunidade de subir ao palco do festival da RTP ofereceu ao músico brasileiro a visibilidade merecida no país que escolheu para viver.   

O que é que estás a preparar para os concertos de celebração dos dez anos de carreira?
Quero revisitar o meu repertório. Claro que o "Gente", o meu disco mais recente, tem uma certa prioridade no alinhamento, porque é o álbum que tenho levado para a estrada nos últimos tempos. Mas também vou escolher as canções que acabam por marcar estes dez anos de carreira. O meu repertório mudou tanto desde os primeiros discos. Até a minha voz mudou. Está a ser interessante voltar às canções antigas. Há temas que não tocava há muito tempo. Os concertos vão ser um resumo da minha carreira.

Com cinco álbuns editados, como é que estás a fazer a seleção dos temas para os alinhamentos dos espetáculos?
Vou escolher algumas canções que foram importantes no meu percurso artístico mas que foram ficando fora dos alinhamentos, à medida que fui editando álbuns novos. A canção 'O Mochileiro' (o primeiro single que lancei) é um bom exemplo. Era a canção que todos os meus amigos cantavam quando comecei a minha carreira. E era um tema muito popular nos concertos que dava na altura. O alinhamento será muito sustentado na lembrança dessas canções e no significado que têm para mim. Quero captar os momentos mais importantes do caminho que fiz. O tema 'Ciranda' abriu-me uma porta gigante quando o vídeo viralizou no Facebook. Isto ainda no tempo em que o Facebook era uma plataforma popular. (risos) Já não toco essa canção mas posso dizer que quando atuo no Brasil é uma das mais pedidas. Não posso terminar um concerto no Brasil sem tocar a 'Ciranda'.   

Sei que quando compões vais buscar inspiração às tuas vivências, às tuas emoções e às tuas experiências. A preparação destes concertos está a fazer-te refletir sobre o teu percurso de vida? 
A interpretação que faço do tempo é uma coisa muito doida. (risos) Sinto que aconteceu tudo muito rápido e que foi tudo muito intenso. E as marcas ficam nas canções e na forma como estou em palco. Parece que foi ontem que decidi que queria fazer música ou que andava a pedir dinheiro nas ruas de Lisboa para poder gravar um disco. Foi há algum tempo, mas, por outro lado, parece uma experiência muito recente. Agora, que já consigo pagar a renda do meu apartamento, começo a sentir um certo distanciamento. E ainda bem. Mas os calos, as angústias e a ansiedade que vivi no início da minha carreira permanecem. Estão na forma como me expresso, nas minhas canções e principalmente no palco. Antes sentia ansiedade quando o pisava e agora sinto que é a minha casa. É um lugar onde me sinto relaxado. É como se estivesse no meu habitat natural.       

Como Leo Middea enfrentou o medo do palco


Mas és corajoso. Eras muito novo quando pegaste no violão e foste para a Argentina...  

Tive dois professores de teatro, o Daniel Ávila e a Karla Tenório, que foram fundamentais na construção da minha vida. Como estavam muito ligados ao teatro de rua ajudaram-me a trabalhar a intuição e o impulso. Um ator de rua tem de saber o que fazer quando aparecem distrações ou quando acontecem imprevistos. Acabei por aplicar muitas coisas que aprendi no teatro à minha vida. Há até uma frase dessa altura que me marcou bastante. É a frase: "o melhor ator é aquele que consegue ter menos tempo entre o pensamento e a ação", que é a base do improviso. Além disso, o meu professor sempre me disse que "só tem coragem quem tem medo". E isto foi algo que me incentivou muito. Quando saí do teatro decidi enfrentar os meus medos e fui para a Argentina. Fui com o meu disco e com a minha coragem.


Sei que nem sempre foi fácil. Li numa entrevista que estiveste quase a desistir da música...

Houve momentos em que quis desistir da música, mas a verdade é que nessas alturas parecia que a vida me incentivava a continuar. Aconteciam coincidências que me voltavam a pôr no caminho da música. Sempre que estava a passar por dificuldades na minha carreira, acontecia qualquer coisa que me fazia voltar à luta. Posso dar um exemplo. Quando sentia que estava tudo mal esbarrava com alguém que me dizia o quanto gostava da minha música. Esse tipo de coisas incentivava-me a não desistir. E isso aconteceu-me uma série de vezes.  

Os encontros que incentivaram Leo Middea a não desistir da música


És uma pessoa com fé?

Acho que a fé reverbera de várias formas. Se estivermos a falar de uma fé mais contida, posso dizer que sim. Mas também já tive uma fé que reverberava noutras energias, como a energia do Yoga ou da meditação, por exemplo. Quando tinha 20, 21 anos decidi viajar para a Índia para fazer um retiro de silêncio. Estava a passar por um período muito difícil devido à morte do meu pai. Quando andamos na casa dos vinte ainda achamos que os nossos pais são imortais. São a nossa segurança emocional, a nossa casa. Quando o perdi comecei a ter problemas com a ansiedade e a ter muito medo da morte e da passagem do tempo. Foi por isso que decidi parar com tudo o que estava a fazer e ir para a Índia. Precisava de silêncio. Nem sequer levei a guitarra. Durante esse retiro refleti muito sobre aquilo que queria para o meu futuro. Acho que o facto de ter dado o primeiro concerto da minha vida em Buenos Aires [Argentina] fez-me perceber que o meu caminho teria de passar por sensações que pudessem ser experienciadas em vários pontos do mundo. Sabia que queria navegar por várias culturas. A experiência que vivi na Argentina ficou muito presente na minha vida. E acho que, com essa experiência, percebi que queria circular pelo mundo com a minha música. Queria circular por mais cidades, por mais países. Queria levar a minha cultura e o meu bairro a vários lugares. Também foi durante uma meditação que fiz nesse retiro que tive a ideia de viajar para Portugal.        

A decisão de vir para Portugal


Como é que foste acolhido por cá? Achas que o facto de vires de fora ainda dificultou mais o teu percurso como músico?

Eu vim para cá quando ainda era muito novo. Tinha 20, 21 anos. Ainda estava na flor da energia de querer descobrir o mundo, as minhas vontades, as minhas emoções. Acho que ser músico, ator ou artista é difícil em qualquer parte do mundo. São profissões muito concorridas e ao mesmo tempo que têm um mercado muito fechado. Acho que é natural que se dê mais oportunidades às pessoas que já são de determinado país, seja o Brasil, Portugal, França ou Espanha. Foi o que senti quando cheguei. Senti que não havia muito espaço para a nova música popular brasileira imigrante. Era um espaço que estava muito bloqueado. Mas agora há tanta gente de fora, especialmente pessoas que vieram do Brasil, que as duas culturas acabam por se mesclar cada vez mais. Hoje em dia, esse espaço está muito mais aberto. Mas quando cheguei ninguém me conhecia, não tinha muito público. Acabei por ir seguindo a minha intuição. Outra coisa que fiz foi observar. Parei para ver o que estava a acontecer. Foquei-me no que queria fazer, que era apostar na música autoral, e dei uma margem de tempo para concretizar.        

As primeiras experiências como músico em Portugal


Prezava mais aquilo que o meu trabalho pudesse representar no futuro do que o dinheiro imediato. No entanto, cerca de um ano após ter chegado a Portugal, cheguei à conclusão que tinha de voltar para o Brasil. Aqui tinha muito trabalho mas muito pouco dinheiro. Achei que não tinha outra alternativa. Mas depois conheci uma portuguesa com quem comecei a namorar. Essa pessoa revolucionou a minha vida naquela altura. De alguma forma, deu-me o afeto que eu estava a precisar naquele momento e incentivou-me a continuar. Fez-me acreditar que tudo ia dar certo. Estou-lhe muito grato por isso. Se não fosse ela, hoje não estaria em Portugal.   

A história de amor que serviu de incentivo para ficar em Portugal


E como é que te sentiste no palco do Festival da Canção?

Para mim, foi uma experiência grandiosa. Nunca imaginei que um dia poderia participar no Festival da Canção. Cheguei a Portugal no ano da vitória do Salvador Sobral [2017]. Foi nessa altura que conheci o festival e a Eurovisão. Antes disso era algo muito distante para mim. Mas ter participado representa uma série de coisas. Não só para mim mas também para os meus amigos músicos. Acho que dá esperança aos músicos imigrantes. Acho que lhes diz que é possível chegar a um lugar com tanta visibilidade na estação de televisão pública. Acho que, por isso, foi muito importante ter participado. Foi uma das coisas mais grandiosas que aconteceram na minha carreira. Tentei celebrar ao máximo tudo o que vivi no palco do festival.  


Sentes que nestes 10 anos amadureceste criativamente? Que diferenças é que sentes em relação ao início do teu percurso?

Acho que, a cada ano que passa, vou evoluindo musicalmente. Não só na composição mas também na produção ou no que quero emanar com a minha música. Acho que cada disco que faço supera o anterior. E em termos de números também. O último já atingiu um milhão de streams. Isso dá-me vontade de continuar a superar-me. Vou crescendo devagarinho. Acho que é um bom caminho. É um caminho que demora, mas ajuda-me a perceber para onde quero ir e aonde quero chegar. Acho que os cinco discos que lancei nestes 10 anos deram-me esse tipo de crescimento. 


Olhando então para o cimo dessa "escadaria discográfica", como é que descreves o "Gente", o teu disco mais recente? 

Quando falava sobre o álbum com o Breno Viríssimo, que produziu esse disco e que será o produtor do próximo, dizia-lhe que queria que fosse uma celebração popular. Como tínhamos saído de uma experiência pandémica, queria usar elementos mais virados para a pop. Elementos que ainda não tinha utilizado nos discos anteriores. O álbum deu-me muito trabalho, mas acho que ficou bom. Gostei muito do resultado final. Gostei tanto que até tenho medo que o próximo não fique tão bom. (risos) Dei o melhor que podia naquele momento e agora já estou a trabalhar no próximo. No novo disco quero resgatar as minhas origens. Quero ir buscar o meu bairro [no Rio de Janeiro] e as minhas primeiras influências. Quero fazer o percurso desde essa altura até ao ponto onde cheguei. Acho que esse é o mote para o álbum seguinte.   

A festa da lusofonia que encontrou em Lisboa