Líbano, a promessa que ficou por cumprir 

"A mais breve história do Líbano", de Catarina Maldonado Vasconcelos, ajuda-nos a compreender "a peça do puzzle que falta para compreender o Médio Oriente". 

"A mais breve história do Líbano" dá a conhecer um país que vive da promessa de um futuro que é constantemente adiado. As permanentes convulsões revelam a resiliência de um povo que vive no centro dos interesses do mundo inteiro. A jornalista e escritora Catarina Maldonado Vasconcelos, entrevistada pela Ana Bernardino, conta-nos a história do Líbano, um país destruido que "nunca aprender a ser de si próprio".

A breve história do Líbano" já disponível nas livrarias nacionais. Catarina Maldonado Vasconcelos porque é que escolheste este país como tema do teu livro de estreia?

É uma boa pergunta, porque eu acho que estamos a entrar numa era geopolítica de homens fortes, onde só as grandes potências têm um lugar à mesa.  E às vezes faz falta parar um bocadinho para pensar nos danos colaterais. O Líbano, ao longo dos anos, das décadas, tem sido visto sempre como um dano colateral por estar num xadrez geopolítico bastante explosivo. 

A guerra israelo-palestiniana tem sido tratada, muito bem tratada, muito documentada por autores muito reconhecidos de renome, mas o Líbano tem sido a peça do puzzle que falta para explicar o Médio Oriente. E eu acredito que para se compreender o mundo tem que se compreender a história do Médio Oriente. E para se compreender a história do Médio Oriente tem que se compreender a história do Líbano.  Portanto, eu queria que esta história fosse uma história maior, porque esta região acaba por afetar o mundo inteiro e onde há interesses do mundo inteiro, como sabemos.   

A História do Líbano é muito rica e reveladora de um país muito fustigado pela Guerra... 

Concordo. Conhecemos mais as histórias recentes de conflitos fronteiriços, ataques terroristas,  o fortalecimento do Hezbollah,  mesmo o próprio facto de haver um pacto sectário nacional que divide os poderes. Mas o Líbano tem sido um laboratório de queda e de surgimento de impérios.  Eu começo o livro com os fenícios, como os inventores, como a civilização com vocação para o mar e que recebe este nome dos gregos, mas que era um povo cananeu e que depois inventa a escrita,  que é uma invenção que acaba por ter uma influência muito grande em todo o mundo, que nós adotamos,  e depois passa pelos assírios, pelos persas, pelos gregos,  pelos otomanos, pelos franceses,  uma quantidade de civilizações que faz com que isto seja... O Líbano é como se fosse a história da humanidade concentrada num espaço, é um laboratório da humanidade.  E essa parte acho bastante interessante. O que que eu quis emprestar, como jornalista, é o meu olhar e é um olhar diferente, um olhar de quem vê o leite e mel, a promessa e a destruição. Portanto, a decadência desse sonho,  o momento em que há emergência desse sonho e como ele quase se concretiza e depois é sempre adiado.  E é interessante. Em Portugal nós temos esta ideia relativa às nossas antigas colónias de que sofreram dores de crescimento, tiveram sempre um sonho adiado.  Mas o Líbano nunca é visto dessa forma e o Líbano faz parte do ultramar francês.  Tem estado sempre na sombra de interesses maiores, ou seja, maiores que o próprio país.  A França moldou o seu nascimento,  a Síria manipulou o seu destino durante décadas,  o Irão instrumentalizou através do Hezbollah, a Arábia Saudita comprou-lhe elites políticas e as monarquias do Golfo ora investiam, ora desinvestiam no Líbano conforme os ventos da geopolítica.   

O Líbano tem sido a história de um sonho, da resiliência de um sonho, e tem sido um país que não se rende à tragédia. Aliás, há uma palavra que no coloquialismo libanês que significa desenvolver uma pele, uma carapaça tão dura como a do crocodilo, para poder aguentar de crise em crise. São crises sucessivas. E nós temos ouvido falar do Líbano durante anos e anos só sobre crises e é difícil às vezes alinhar tudo isso e desenhar nas nossas cabeças o que é o enquadramento daquele povo.  

Estava a ouvir-te falar e só me surgia essa ideia do Líbano como o país do Quase.... Estamos quase a dar atenção ao Líbano, mas aparece outra coisa e nós desviamos a nossa atenção ... 

É exatamente isso.  E acho que essa ideia está muito bem expressa no slogan que foi criado nos anos 50, 60, na altura.... Em 1956, o Líbano cria uma lei de sigilo bancário que faz com que se torne um refúgio para o investimento externo.  Acaba por fazer a sua aposta económica no setor bancário e na confiança de investidores externos. Não desenvolve a força da sua moeda, não desenvolve a sua economia,  não diversifica. Ou seja, o contrário da Suíça, mas ganha um slogan que é Suíça do Medio Oriente e Beirute como Paris do Medio Oriente.  E essa ideia é uma ilusão persistente, é a ideia do Quase,  que por altura da Guerra Civil implode completamente. Mas nesta altura, nos anos 50 e 60,  era um hub turístico, cultural e financeiro muito importante.  O Líbano, como ligação à Europa, tinha um pé no mundo árabe e um pé no mundo europeu. Nós falamos da Turquia, da Rússia, mas também o Líbano era uma ponte entre o Oriente e a Europa. Aliás, o Líbano está muito próximo de nós e houve um convívio vibrante nestas décadas de intelectuais pelos cafés de Beirute,  de atores que circulavam e faziam as longas-metragens de Hollywood.  Beirute esteve na moda, Beirute esteve quase a ser, mas a guerra acaba por estilhaçar todos esses sonhos,  ao contrário da Suíça, que tem uma estabilidade institucional que o Líbano, que não foi nunca permitido ter. 

Antes de 2006, da invasão israelita,  estava a ver um movimento muito grande de reconstrução do país, mas novamente uma guerra abalou o território. Este país tem estado numa crise sem precedentes desde 2019, quando o setor bancário falhou completamente. As pessoas que tinham o dinheiro depositado e que queriam levantá-lo não podiam. Houve até assaltos, pessoas que se juntavam para reivindicar o próprio dinheiro. Portanto, falha o poder central porque é dividido entre fações religiosas baseado num censo de 1932. Estima-se que existam 6 milhões de pessoas no Líbano, mas não temos a certeza.  Hoje, a população xiita será cerca de 50%, mas não há censo que o apoie. Portanto, para que o Hezbollah não tenha mais poder no país do que o que já tem,  não se faz um novo censo e continuam os principais poderes divididos entre cristãos maronitas e sunitas. Isto faz com que também haja tensões muito pulverizadas entre as fações religiosas que não se veem representadas, porque são as mesmas famílias há anos a perpetuar estes poderes.  Perpetuam-se no poder. Costumo definir como uma espécie de federação informal de clientelas religiosas, em que a soberania do Estado não é plena e a autoridade vem de um equilíbrio de poderes de líderes comunitários. Portanto, altamente frágil este equilíbrio.   

E como é que o percebemos?  

A maior metáfora para esta falta de equilíbrio ou para este equilíbrio tão ténue foi o que aconteceu em Beirute em agosto de 2020, em que vivemos a maior explosão não-nuclear da história, no Porto de Beirute, por incúria e corrupção dos governantes e também do Hezbollah, que deveriam fazer a fiscalização do armazenamento dos cereais e das toneladas de nitrato de amónio que ficaram ali acumuladas e que acabaram por explodir.  

A sucessão de crises é demasiado intensa para aquelas pessoas aguentarem, muitas fugiram do país.  

O que é mais uma ironia do país, porque país recebeu mais de 2 milhões de refugiados também. Aquilo que nós percebemos é um caldeirão de convulsões, não é?  Porque se aqui falamos tanto de migrações em Portugal, e Portugal é um país pequeno, o Líbano é bastante mais pequeno, e é dos países com mais refugiados per capita no mundo. Ou seja, as pessoas também fogem para encontrar abrigo, mas não o encontram. Não há possibilidade de haver paz.  

Aliás, não há paz social no Líbano... 

 Não há paz porque o Líbano tem sido palco de batalhas por procuração. O Líbano é praticamente impedido de ter neutralidade porque tem no Hezbollah uma grande interferência interna. Também temos que reconhecer o Irão como uma potência que perturba muito a região. 

O destino de Gaza tem estado sempre entrelaçado ao destino do Líbano, porque o Hezbollah o quis e porque o Irão o quis. Mas não podemos ignorar que o Irão,  como qualquer superpotência, tem os interesses próprios na região e criou esta constelação de grupos irmãos, o Hamas, o Hezbollah e os Huthis, que são disruptores.  O Hezbollah é o Partido de Deus, isso é dizer muita coisa, é um movimento, é uma milícia. Mas quando se pergunta quem é do Hezbollah, podemos estar a falar de um professor, de um médico,  de um porteiro, de um guerrilheiro, de um terrorista, de um político. 

Porque é que o Hezbollah está “entranhado” em toda a sociedade libanesa? 

Por isso, quando tudo falha, é o Hezbollah que está, está para as pessoas.  Além dos grupos informais que se organizam e que asseguram água, eletricidade, cuidados médicos. Um país que importa tudo e, portanto, está altamente dependente da rota pela Síria, sendo que a Síria, neste momento,  também um país em convulsão interna, que está a aprender a estabilizar,  tudo isso torna o Líbano muito dependente de tudo o que se passa ali à volta.  E a paz é um ideal quando temos casa, temos luz, temos água.  Os nossos filhos podem fazer os trabalhos de casa à noite,  podem prosseguir os seus estudos.  Podemos ficar doentes porque isso não vai condicionar a nossa carreira para sempre.  A paz é uma ideia inatingível para já . 

Mas há um novo governo no Líbano que foi criado e que tem tido o apoio dos Estados Unidos, de França. Joseph Aoun é o novo presidente, é um cristão maronita, como é tradição desta democracia. 

Apesar de o governo ter tomado posse, sem a frase inaugural,  tradicional  “Povo, exército, resistência”,  aboliu finalmente essa expressão, fazendo uma alusão à sua maior oposição ao Hezbollah. Mas sabemos que o Exército Nacional não tem tido esse poder para desarmar o Hezbollah.  Israel também se queixa da ação da UNIFIL como insuficiente.   

Esta situação de fronteiras também é uma artificialidade das fronteiras que foram criadas no Médio Oriente também por intervenção europeia no século XX.  É bastante importante também para conhecer a história do Líbano.  

Catarina Maldonado Vasconcelos entrevistada por Ana Bernardino