Líder do IHRU admite que não foi feliz nas declarações sobre jovens e sacrifício pela habitação
Benjamim Pereira explica que quis fazer uma comparação com o passado para explicar que a habitação sempre foi um problema em Portugal, mas sem "saudosismo".
O presidente do instituto responsável pela habitação, Benjamim Pereira, admitiu hoje que expressões que utilizou sobre a capacidade de sacrifício dos jovens foram infelizes, esclarecendo que não teve intenção de desvalorizar as dificuldades na habitação ou sugerir a emigração.
“Embora sem qualquer intenção, aceito não ter sido feliz em todas as expressões que utilizei, mas acredito no que estou a fazer, acredito no caminho delineado pela tutela e dou todos os dias o meu melhor”, afirmou o responsável pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, numa nota de esclarecimento.
Benjamim Pereira esclareceu ainda que “em momento algum disse que os jovens não tinham dificuldades ou que não estavam a sofrer consequências com a carência de habitação”.
“O que fiz foi um paralelismo com o passado, evidenciando através de um exemplo pessoal, que a habitação sempre foi um problema neste país e que os portugueses sempre valorizaram e se sacrificaram muito para poderem ter uma habitação própria”, acrescentou.
O presidente do IHRU destacou ainda que, quando falou dos portugueses que se sacrificaram para ter casa, foi “com tristeza” e “não com algum tipo de saudosismo”, considerando que “não se pode exigir aos jovens de hoje os sacrifícios de outrora”, pois tal significaria que o país em nada tinha conseguido melhorar em mais de 50 anos de democracia.
“Muito menos aludi, em momento algum, à emigração. Muito pelo contrário, não tivesse eu sofrido na pele a ausência dos familiares, exatamente nesse contexto de exigência que os forçou a sair”, acrescentou.
O responsável salientou que nas declarações também referiu o respeito “pelo direito de manifestação e a compreensão” pelas exigências dos manifestantes.
Na quinta-feira, em Vila Nova de Gaia, Benjamim Pereira disse não saber "se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício" da anterior, recordando que os seus próprios avós emigraram "para poderem ter uma casa".
"Já fomos todos jovens, não é? (…) E percebemos essa dificuldade. Eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa", disse aos jornalistas.
Falando acerca das manifestações pela habitação que têm ocorrido sobretudo no Porto e em Lisboa, e questionado sobre se a geração atual está a ter menos sacrifício do que a geração anterior, o responsável do IHRU disse não querer ir "por esse caminho".
"Só estou a dizer que os meus avós emigraram para o Brasil e para a Argentina para poderem ter uma casa. O meu pai emigrou durante 20 anos, sacrificou a vida", prosseguiu, e perante as questões dos jornalistas sobre se os jovens também devem emigrar, afirmou que não estava "a dizer isso".
Pedindo para "concluir o raciocínio", Benjamim Pereira disse que os seus familiares emigraram "porque a casa era, efetivamente, uma coisa muito importante para a sua vida, a sua base logística, como é hoje".
"É preciso que haja um compromisso de todos. Reparem, os jovens podem organizar-se, fazer cooperativas", afirmou.
Frisando que fazia "um apelo" e não "uma crítica", Benjamim Pereira pediu "a todos que se possam unir", pois "é um problema que tem de ser resolvido por todos e os jovens também fazem parte desta equação".
O ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz, considerou, numa entrevista ao Jornal Nacional da TVI na quinta-feira à noite, infelizes as declarações do presidente do IHRU sobre os jovens e o problema da habitação e disse já ter pedido explicações.
Entre manifestações e as denominadas acampadas, com centenas ou milhares de manifestantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.
