Lisboa a Mil a partir de hoje
Festival desdobra-se entre música e conferências, entre o Cais de Sodré e o Beato.
O festival Mil é um observatório de música, que arrisca só e apenas em artistas menos conhecidos. Os concertos de artistas e projetos de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Espanha, norte de África, França, Bélgica e Países Baixos decorrem em sete salas do Cais do Sodré na quinta e sexta-feira, dias 26 e 27. A área de conferências e conversas começa já hoje no Hub Criativo do Beato.
O impulsionador do Mil, Gonçalo Riscado, fala-nos desta edição e do próprio festival.
“O Mil é especial todos os anos, porque todos os anos conseguimos juntar um grupo de novos artistas muito interessantes para descobrir, e por isso, há uma renovação constante. Cada vez que um Mil acontece, há dezenas de novos artistas no festival e muitos temas na convenção e muitas ideias que marcam a atualidade do setor cultural e da indústria da música, e sempre novas pessoas para conversar. Por isso, estarei a ser injusto se disser que este vai ser melhor que o ano passado ou que os temas [das conversas] são agora mais importantes. A verdade é que tudo evolui, não é? Nas sociedades, na cultura, na própria indústria da música. O que nós tentamos manter é um debate muito atual em relação ao que se está a passar no presente e a perspetivar o que é que vai ser o futuro. Neste caso, quando falamos do festival, qual vai ser o futuro da música? Quais vão ser os artistas de amanhã?”
Aposta em novos artistas
“É fundamental. Isto é um festival de descoberta. Interessa-nos perceber quem está a começar, que som está a fazer e dar uma oportunidade que o público os possa conhecer, uma oportunidade para que agentes e editoras se possam interessar por estes novos talentos. O nosso processo de seleção é algo complexo. Este ano tivemos mais de 1300 candidaturas de três ou quatro dezenas de países. É impressionante a quantidade de pessoas, de artistas, que nos contactam a dizer que querem se mostrar no Mil. E aí começa um grande trabalho de ouvir, de selecionar, ao qual juntamos alguns artistas que já estão na nossa órbita e que gostaríamos muito de ter presentes. Aí chegamos e construímos o programa final. Tivemos muito mais trabalho este ano para selecionar, porque quase que duplicaram as candidaturas ao Mil”.
Radar ligado ao Atlântico, ao Mediterrâneo e à Europa Ocidental
“Temos que ter o nosso radar. A nossa equipa não faz só o Mil, programa o MusicBox, estamos numa série de redes europeias, como por exemplo a Live Europe, e então estamos em contacto com programadores, salas, editoras de vários países ao longo de todo o ano. Temos de facto quatro territórios principais quando desenvolvemos esta nossa atividade: França, Bélgica, Espanha e Brasil”.
O festival tem dias a menos para tanta programação?
“Nós gostávamos de ter mais dias e, inclusive, neste processo de descoberta, são mais de 50 artistas para descobrir em dois dias do festival. Depois, existe a convenção, que são três dias, e onde também há um palco diurno, onde mostramos alguns artistas. Não podemos conhecer tudo. Para planear uma ida ao Mil, é preciso ter muita vontade de conhecer música nova. Não é aquela música que se ouve na rádio, não é essa que se vai ouvir. Este é o momento em que me quero juntar com amigos, à descoberta e criticarmos. Criticarmos é uma coisa muito boa e muito importante. Criticarmos o que vamos ouvir, formar gosto, dar oportunidade. E fazer isso passa por adquirir um bilhete. E fazer uma seleção do que queremos ver, porque há espetáculos que acontecem ao mesmo tempo. Temos programação em 7 salas do Cais de Sodré e há concertos que coincidem. Eu quero começar onde? Quero acabar onde? Por vezes não vemos um espetáculo inteiro, vamos ver algo que só queremos ver um bocadinho, porque não queremos perder aquele que temos uma grande expectativa. A realidade é que quando passaram estes 2 dias, se calhar virmos 1 terço de toda a programação. Seria interessante, há formatos em que os artistas tocam em mais dias e temos a oportunidade de ver mais artistas. Em todo o caso, acho que é sempre possível ver 7 ou 8 artistas por dia e isso já é uma grande barrigada de música e de música nova”.
Os espaços onde vai decorrer o Mil
“A programação musical do Mil acontece na zona do Cais Sodré. Apesar de tão turificada, continua a ser dos bairros da cidade de Lisboa com mais espaços para programação de música ao vivo. O Mil acontece no MusicBox, no Lounge, na Lisa, no Roterdão, num espaço que pertence à escola ETIC, que é o Atmosferas, no B. Leza e no Titanic Sur Mer.
São nossos parceiros já há muitos anos e juntamo-nos para estes dois dias de programação intensa que faz circular as pessoas por estas salas. Às vezes, tem que se passar para o lado de lá da linha de comboio. Mas é tudo muito perto. Às vezes é preciso correr um bocadinho, se não queremos perder o início de um espetáculo ou ainda apanhar algum. Mas é muito interessante esta movimentação de pessoas e acho que traz sempre uma vida muito interessante ao Cais de Sodré durante estes dois dias. As convenções estão concentradas no Hub Criativo do Beato, onde também temos dezenas e dezenas de atividades, entre conversas, palestras, workshops, laboratórios, encontros organizados. O MIL dirige-se ao público em geral, portanto, esta descoberta é pensada para um público que gosta e que quer descobrir música, mas é também pensada para os profissionais da música e da cultura. E estes profissionais encontram-se durante o dia na convenção, trocam ideias, experiências. É uma forma também de os agentes apresentarem os artistas a outros agentes e, portanto, potenciar negócio e possível internacionalização no caso de ser um artista nacional que tem uma oportunidade noutros territórios ou mesmo de o dar a conhecer dentro do panorama nacional. Muitos desses encontros são trabalhados durante o dia. À noite, ouve-se música.
Recusas a definição de feira internacional para o Mil?
Sim, recuso, porque o Mil é um festival de curadoria, não é um encontro comercial. E apesar de termos participantes de muitos países e representantes das editoras, agências, temos um universo de indústria presente. É uma atividade de curadoria. Nós selecionamos os artistas, pensamos numa programação para um público, para estes profissionais também, mas há aqui um lado de curadoria que é muito importante e por isso eu chamo-lhe claramente um festival. Mesmo a nossa convenção tem uma equipa de programação muito focada. Nós dividimos a convenção em três eixos: a indústria da música, política e cultura e um eixo dedicado à economia noturna. E todos os anos pensamos o que queremos debater com quem é que queremos debater, mais do que muitas vezes aproveitar a presença de pessoas para debater coisas. Por isso, eu acho que quando o lado curatorial está tão tão vincado, isto claramente não é pensado como uma feira de negócios, mas como um festival de artes?
Anti-nostálgico mas criador de memórias
"Memória não é nostalgia, é algo que transportamos e que é muito útil e que vai introduzir camadas à nossa forma de pensar, de sentir, de viver culturalmente. A nostalgia remete-nos para um passado, como uma falta de vontade de futuro. Nem por acaso é um dos temas da nossa convenção este ano a abordagem à questão da nostalgia. Porque é que a indústria está a virar-se tanto para a economia da nostalgia? E o que é que isso significa? É só uma oportunidade de negócio ou de facto esta nossa sociedade atual sente pouco futuro e refugia-se no passado como seu espaço de segurança?
Hoje em dia, [a nostalgia] está a contaminar os grandes festivais, inclusive os festivais já de massas, mas que eram tido como mais alternativos. É um som de há muitos anos, apesar de poder ter surgido uma música nova ou um álbum novo".
Na foto em cima, está Rezmorah, um dos nomes do cartaz musical. O concerto de Rezmorah é no Lounge, às 20h45 de quinta-feira, dia 26.
