Liv Ullmann: a belíssima vulnerabilidade de mostrar a alma

Estreia-se hoje a série documental "Uma Estrada Menos Percorrida" na plataforma Filmin.

Uma das maiores atrizes europeias dos últimos 60 anos, a norueguesa Liv Ullmann, mobiliza toda uma série documental de três episódios sobre si, "Uma Estrada Menos Percorrida". Ullmann está na história do cinema como a grande musa de Ingmar Bergman (a maior das suas várias musas), em alguns dos seus filmes, numa inter-dependência entre o retratista e a retratada. Sem a retratada, o retratista não consegue dizer o que quer. 

Liv Ullmann foi uma luminescência no cinema de Ingmar Bergman. A beleza da sua alma projeta-se no seu rosto, na sua pele, sem diferenciação. É um ser belamente vulnerável, corajoso na sua transparência. Mais a câmara de filmar se aproxima da face de Liv Ullmann nos tais close-up, mais real é o seu sofrimento e a sua beleza. Mais o cinema cresce. E nisso Ingmar Bergman era mestre. Liv Ullmann sabia ser a sua figura, com os seus olhos azuis lacrimejantes e brilhantes, o ar desperto e sensível. Se as sardas do seu rosto eram resplandescentes, se o nariz tinha um beleza curvada, era porque também a alma avivava o que há de belo.  

No meio disto tudo, e de todo o seu talento empático e magnético, Liv Ullmann só queria ser uma pessoa normal que queria comer waffles com queijo com os amigos na Noruega. Tudo isso está à vista nesta série da Filmin: a excelência do seu trabalho com Ingmar Bergman e, simultaneamente, uma desconcertante simplicidade.

A série documental segue nos dois primeiros episódios uma ordem cronológica, que nos vai revelando algumas curiosidades. Liv Ullmann Nasceu no Japão - o seu pai era la engenheiro. Viveram no país insular antes do ataque a Pearl Harbour e da eclosão da II Guerra Mundial no país nipónico.

Sente-se o drama da morte precoce do seu pai. O vazio das memórias do pai tornar-se-iam uma "fenda" na sua vida. A mostragem das cartas desenhadas que escrevera para o pai, que faleceria pouco tempo depois, são um dos tesouros de "Uma Estrada Menos Percorrida".

Depois, surge a jovem atriz Liv Ullmann, no monólogo de "Romeu e Julieta", na prova de admissão na escola de teatro de Oslo, que falhou. Seguiu-se o teatro de província na Noruega durante três anos.
“Camarins e corredores longos e estreitos, que são pequenos e sobrelotados. O cheiro da mobília antiga e dos cenários. A alegria de trabalhar em equipa”, recorda Liv Ullmann, que é vista na série a gravar os seus depoimentos num estúdio sonoro.

Aos poucos, o destino começa a empurrá-la para a câmara de Ingmar Bergman e para ele próprio, mesmo quando ainda faltavam alguns anos. A carreira de atriz no cinema começa em 1959, num filme norueguês, de que Ingmar Bergman se apercebeu. A sueca Bibi Anderson torna-se a sua melhor amiga. Liv Ullmann começa a entrar no mundo de Ingmar Bergman. Ao primeiro encontro com Ingmar Bergman, o realizador pergunta-lhe: "queres entrar nos meus filmes?". Começaram a trabalhar no filme "Persona" (de 1966), um papel mudo em que falava pelo olhar. “Eu conseguia mostrar o que ele tinha dificuldade em expressar”, diz-nos na série Liv Ullmann.

Vêem-se algumas lindíssimas imagens de bastidores, como as cenas de preparação, com Ingmar Bergman semideitado sobre a mesa, a falar com Liv Ullman e Bibi Anderson - e provavelmente a explicar-lhes o que ele desejva para as cenas.

Nas filmagens finais, Ingmar Bergman caminha na praia com Liv Ullmann, a contar-lhe o sonho que tiveram: "que eles os dois estavam profundamente ligados". Os olhos de Liv Ullmann  brilham, ao mesmo tempo que a sua voz embarga, por causa das lágrimas de felicidade, ao dizer-nos isto.

Os dois ligam-se romanticamente e têm uma filha, Linn. Continuam fazer filmes juntos. O casal vai para a ilha de invernos inclementes de Farö, que da contemplação idílica passou para a saturação, no caso de Liv Ullmann, a sentir falta do rebuliço, ao contrário de Ingmar Bergman, que preferia o isolamento. A série da Filmin fala também dessa separação invulgarmente harmoniosa.

Liv Ullmann começou a fazer filmes com estrelas americanas, como Charles Bronson e James Mason, sem largar o cinema escandinavo, no caso, o sueco "Os Emigrantes", um dos filmes que a atriz mais gostou de fazer, sobre um casal de camponeses à procura de melhores condições de vida para eles e para os seus filhos, numa outra terra.

A pura Liv Ullmann cai no mundo mais artificial de Hollywood. Torna-se atriz nomeada para os Óscares e no contacto social recebe elogios mais por simpatia do que por sinceridade. Era um mundo disforme, com papéis que não assentavam no seu perfil: Liv Ullmann dá o exemplo de "Quarenta Quilates", onde interpreta uma mulher nova-iorquina mais velha, com aquele sotaque de norueguesa. A América rendia-se mais a Liv Ullmann do Liv Ullmann à América. Atinge mesmo o estatuto de celebridade. Foi capa das revistas Time e da Newsweek.

 

Mais desajustada esteve dos bastidores de Hollywood. Europeia da cabeça aos pés, não fez o corte de cabelo radical que lhe sugeriram, nem aceitou a conta paga para gastar de quantia avultada num salão de beleza para uma mais forte maquilhagem. Não quis ser aquilo que lhe estavam a propor: uma estrela de Hollywood. Ou pelo menos, não cedeu às regras para o ser.   

A vida social da ingénua e pura Liv Ullmann foi também agitada fora de Hollywood. Recebeu o Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, no camarim do teatro, teve encontros na Casa Branca, na companhia do Secretário de Estado norte-americano (muito ligado à Realpolitik) Henry Kissinger, para quem Liv Ullmann "poderia não entender muito de política, mas compreendia muito bem o ser humano".

Ao longo da série, Liv Ullmann sente-se sempre a seguir as pisadas de Greta Garbo e, à sua semelhança, também trabalha na Broadway. Por coincidência, Liv Ullmann cruza-se com a atriz lendária em Nova Iorque, junto ao Central Park. Liv queria dizer-lhe umas palavras, mas Greta Garbo, assustada, desatou a fugir. Era a sua fase reclusa de atriz retirada. Não seria uma atriz norueguesa que lhe iria quebrar esse isolamento que escolheu para si.

A meio dos anos 70, Liv Ullmann torna-se uma ativista feminista. E a sua humanidade não parou: tornou-se embaixadora da Boa Vontade da UNICEF ou co-fundou a Women for Refugee Women and Children, entre outras ações em zonas complicadas do planeta.

Liv Ullmann foi mais amada pelo mundo fora, do que na sua Noruega. A atriz regista isso com amargura e lembra a expressão escandinava do  "Janteloven", uma espécie de desdém mesquinho a quem tem sucesso.

Na série "Uma Estrada Menos Percorrida", Liv Ullmann tem uma das melhores distinções que poderia ter: os depoimentos elogiosos de atores de topo como Jeremy Irons ou Cate Blanchett, com quem trabalhou. Não são palavras vãs, elas vêm de quem sabe.

A sua faceta de realizadora é também mostrada e, nessa atividade, a sua vida volta a cruzar-se com Ingmar Bergman na qualidade de argumentista de dois dos seus filmes: "Private Confessions" e "Infidelidade". Foi uma relação especial com Ingmar Bergman que durou toda a vida, até à morte do cineasta, quando a atriz se deslocou até à ilha de Farö. Ingmar Bergman chamou-a e ela apanhou o seu primeiro voo privado da sua vida, para ir ter com o seu grande amor, que se estava a despedir. Mais uma vez, os dois corpos separaram-se harmoniosamente.