Livro "A História dos Abba": os fab four suecos dissecados a fundo

Entrevista ao autor, o jornalista Jan Gradvall, que conquistou a confiança dos quatro membros dos Abba.

É publicado nesta quinta-feira, dia 17, o livro “A História dos Abba”. Referir a nacionalidade sueca do seu autor, o jornalista Jan Gradvall, não é um mero detalhe, mas sim a essência do livro. É o conhecimento profundo do escritor sobre a realidade social da Suécia que determina a grande valia deste livro, que não é uma mera biografia ordenada pela cronologia dos factos, mas antes um conjunto de ângulos de Jan Gradvall que explica com pertinência o fenómeno musical e comercial dos Abba, uma das bandas pop mais bem sucedidas do planeta.

Escreveu este livro desapressadamente. Foi a paciência um elemento-chave para escrever este livro e para definir o que queria dele?
Penso que sim. Tudo começou com um artigo histórico que escrevi há 11 anos. Sou um jornalista de música. Trabalho como jornalista de música na Suécia há 40 anos. Escrevi um longo trabalho sobre os ABBA há 11 anos. Foi a primeira história desde que eles se tinham separado e na qual eles resolveram falar. Este artigo foi escrito há 11 anos e todos os quatro membros aceitaram serem entrevistados para esse trabalho. Depois deste trabalho, eles confiaram em mim por ser jornalista de música e fui como que integrado no seu mundo. Mas não planeava escrever um livro, porque eu achava que não o quereriam e julgo até que os ABBA nunca irão autorizar um livro biográfico oficial. Porém, após ter feito estas quatro entrevistas e depois ao fazer ainda mais entrevistas a cada um deles em diferentes ocasiões, senti que já tinha imenso material. Portanto, decidi escrever este livro, que não é uma autobiografia, é sim o meu livro sobre os ABBA. Eu disse-lhes isso e eles deram-me a sua bênção e desejaram-me boa sorte. Penso que eles se sentiram gratificados por esse livro ser escrito por um jornalista de música sério, ainda por cima da Suécia. 

Jan Gradvakk

Os membros dos ABBA são conhecidos por serem pessoas muito reservadas. Foi complicado para si conquistar a confiança deles?
Penso que ajudou eles saberem de alguma maneira que eu era um jornalista musical e não um jornalista de tabloides interessado em cusquices sobre eles. Quando eles estavam ativos entre 1972 e 1982, a imprensa só interrogava os ABBA sobre cusquices: casamentos, dinheiro, política. Depois, apareci eu bem mais tarde e só me interessava falar com eles de música. Isso foi particularmente frutuoso com a Agnetha Fältskog, que raramente dá entrevistas. Quando me encontrei pela primeira vez com ela, só me interessava falar de música. A Agnetha é uma excelente compositora, nem toda a gente tem essa noção. Ela já escrevia as suas próprias canções antes dos ABBA. Ela era o único membro dos ABBA, e ainda é, que sabe ler folhas de pautas. A Agnetha Fältskog é uma excelente pianista, sabe tocar com fluidez quer Haydn, quer Bach. Quando conversei com ela sobre música, abriu-se imenso e desatou a revelar uma série de pormenores. Desconfio que nunca tenha falado antes com um jornalista de música, que quisesse falar com ela enquanto cantora e profissional da música. Com o Björn [Ulvaeus] e o Benny [Andersson], foi mais fácil, porque eles já estavam habituados a dar entrevistas. E a Frida é muito maleável e extrovertida, o que ajudou. Mas penso que até mesmo a Frida apreciou que o meu foco tivesse sido a música. Como sueco, sei bem de onde eles vinham. Estou muito familiarizado com a cultura sueca e com o que foi preponderante para os ABBA. 

Fiquei surpreendido ao ler no seu livro alguns pormenores sobre a Agnetha, como o que acabou de dizer sobre o facto de ser a única dos ABBA que sabia ler folhas de pautas. O Jan recordou também uma surpresa sobre a sua personalidade, ao revelar que por não é assim tão tímida quando falava em sueco.  
Presencialmente, a Agnetha não é tão tímida. Teve que tornar-se tímida ao ter um embate duro com os jornalistas, com os quais tinha perdido a confiança. Como era muito famosa, um ícone e uma sex-symbol, atraiu uma imprensa e gente suspeitas. Na verdade, ela é apenas uma mãe orgulhosa dos seus filhos, que têm agora a avô por perto. Adora cavalos e cães. Ela pode cantar maravilhosamente em inglês, mas não é assim tão segura a falar na língua inglesa. Mas acho que me ajudou muito o facto de eu lhe entrevistar em sueco. Quando não falamos na nossa língua materna, seja sueco ou português, sentimo-nos mais limitados sobre aquilo que dizemos. Podemos fazer perguntas, responder, mas perdem-se as nuances, especialmente no caso da Agnetha, que se tornou mais silenciosa quando os ABBA tocavam na Europa, porque se sentia insegura com o seu inglês.

Fala no termo de “inglês turístico” no seu livro. Pensa que os ABBA foram os grandes embaixadores mundiais do “inglês turístico”?
Sim, foram realmente muito importantes, porque antes dos ABBA assumia-se que para se ser bem sucedido internacionalmente, tinha que se vir de um país de expressão inglesa. Tinha que se vir dos Estados Unidos, do Reino Unido ou da Austrália para se ser levado a sério, até surgirem os ABBA, ou outros gurus como os Kraftwerk da Alemanha, ou o Giorgio Moroder. Penso que os ABBA abriram caminho para outros grupos europeus que vinham de países que não falavam inglês. Eles provaram que podiam se tornar gigantes em todo o mundo. Penso até que esse inglês limitado ajudou-os. Quando os ABBA cantam “money, money, money must be funny in a rich man's word”, não é propriamente um termo académico de Oxford English, mas é muito fácil de se apreender. Julgo que pessoas da Itália, de Espanha, de Portugal, da Alemanha ou de França compreendiam bem as letras, que eram muito diretas. Eu nunca diria que são letras simples, mas sim diretas e fáceis de fixar. 

Jan Gradvakk

O livro começa com a descrição de uma das últimas músicas dos ABBA antes da separação, ‘The Day Before You Came’. É difícil encontrar algum terreno comum entre os ABBA de 1982 e os ABBA de 1973 que gravaram ‘Ring Ring’?
Se compararmos os Beatles de 1963 com os Beatles de 1970, há enormes diferenças entre ‘She Loves You’ e ‘The Long and Winding Road’. Eles progrediram imenso. Penso que com os ABBA foi semelhante. Se compararmos ‘Ring Ring’ e ‘Waterloo’ com ‘The Day Before You Came’ ou ‘The Winner Takes It All’, é muito diferente. Ele foram aprendendo a elaborar mais os arranjos, foram mudando o som, inclinando-o mais para os sintetizadores no final. Mas a nível de melodias, há uma ligação. São melodias muito, muito boas, enraizadas na folk sueca, com uma melancolia subtil. De alguma maneira, a música é muito positiva, mas tem sempre lá no fundo algo de muito melancólico, como uma sabedoria de que a vida é muito dura e complicada, o que é muito comum na cultura sueca.  

É curioso ter mencionado a folk sueca, porque também sinto muito esse lado folk neles e até surpreendentes afinidades das músicas dos ABBA com as irmãs canadianas Kate & Anna McGarrigle [ligadas à folk]. Considera que é injusto serem vistos apenas como uma banda pop?
Penso que depende do que se entende o que é um grupo pop. Para mim, o termo de grupo pop é algo fantástico. Mas se se entender a pop como uma música superficial, penso que é depreciativo [para os ABBA]. As irmãs McGarrigle são um excelente exemplo. Podíamos escolher aleatoriamente uma música dos ABBA, tocadas apenas com guitarras acústicas e harmonias vocais e soariam muito bem à mesma, porque têm uma forte influência da música folk. Os ABBA também têm influências de música de outras partes da Europa que ouviam na rádio, como árias italianas, a chanson française, a música schlager da Alemanha. É também isso que diferencia os ABBA de tantos grupos americanos e ingleses. Podemos sentir algo mais nos ABBA que não conseguimos perceber de onde é. Penso que eles absorveram essas influências europeias, combinadas com a folk, onde estão as suas raízes. O Björn Ulvaeus tocava num grupo folk sueco. Portanto, eles combinaram essas influências com as harmonias vocais dos Beach Boys, porque eles também tinham influências americanas.   

Obviamente, escreveu sobre Frida como uma Lebensborn, na Noruega. Como é que os fãs e a imprensa reagiram quando souberam que Frida era filha de um soldado nazi?
Essa história é conhecida há bastante tempo, porque, quando os ABBA se tornaram uma das maiores bandas do mundo, a Frida foi contactada pelo seu pai biológico, o tal soldado alemão. Os dois tiveram um encontro, que eu refiro [no livro]. Uma série de jornais de então publicou essa história, não havia qualquer segredo. Portanto, as pessoas sabiam disto e também que ela não tinha culpa nenhuma. Mas era a sua história. Eu resolvi contextualizá-la mais, para se ficar a compreender melhor a Europa do pós-guerra e como isso afetou a Frida, a criança norueguesa filha de um soldado alemão e de uma jovem mãe norueguesa, que teve que fugir para a Suécia para educar a filha.

Acha que a Agnetha dava um toque humano especial às canções que é muito raro hoje em dia no mundo do estrelato da pop?
Completamente! Quer a Agnetha, quer a Frida são grandes cantoras, mas são também muito boas contadoras de histórias. Talvez possam ser comparadas a outra música europeia, como a música francesa, a Édith Piaf, aquela tradição francesa em que, ao contares a história, tornas-te na personagem sobre quem cantas. Portanto, sempre que a Agnetha e a Frida cantam, não é necessariamente sobre elas. Mas tomam as personagens sobre quem cantam, como na canção ‘The Day Before You Came’, por exemplo, em que a Agnetha se torna nessa espécie de mulher solitária que vive uma vida corriqueira. Julgo que o que as tornava tão boas cantoras era o facto de terem tido para trás um passado incrível. Começaram a cantar por volta dos 15 anos de idade em diferentes bandas suecas de dança que estavam sempre em digressões. Elas faziam valer-se da sua enorme experiência. Quando pergunto aos quatro separadamente qual é o molho secreto que os faz soarem a ABBA, todos eles respondem que é a combinação entre as vozes da Agnetha e da Frida. Enquanto a Agnetha canta com a sua voz soprano cristalina, a Frida nivela-se um pouco mais abaixo com o seu mezzo. Quando cantam em uníssono, soam realmente a ABBA.

As duas funcionam como um coro. As vozes têm tantas camadas. É como se o Benny e o Björn estivessem a lapidar ouro. 
Penso que eles escreviam música para a Frida e para a Agnetha, foram aprendendo como é que as vozes delas funcionavam. No estúdio, todos eles trabalhavam e aperfeiçoavam muito as harmonias. Podiam passar horas incontáveis em estúdio. A Agnetha odiava andar em digressão, mas adorava estar em estúdio a gravar novas canções.

Os ABBA são mais complexos do que as pessoas pensam?
Sem dúvida! Penso que é mais fácil fazer uma música que soe complexa. Mas é incrivelmente difícil música que soe instantânea, dá logo para perceber que é orelhuda. Mas o que é único nos ABBA é que pode-se ouvir as canções dos ABBA dez vezes, vinte vezes, cem vezes, e continua-se a descobrir novos detalhes. Nunca cansa. Por um lado, são canções simples, mas com uma profundidade incrível. Sempre que oiço o Dancing Queen, continuo a ficar bastante impressionado. Acho um erro rotular as canções dos ABBA como simples. 

O Jan estabelece um paralelo no livro entre os ABBA e o tenista Björn Borg como os grandes embaixadores da Suécia em todo o mundo. Mas a Suécia tinha tido antes ícones globais como as atrizes Greta Garbo e Ingrid Bergman, o cineasta Ingmar Bergman ou a personagem Pipi das Meias Altas, dos livros da Astrid Lindgren, ou até marcas como a Volvo, a Saab ou a Tetra Pak. O que é o faz achar que a imagem da Suécia só mudou depois dos Abba e do Borg?
A Greta Garbo foi antes um ícone de Hollywood, tal como a Ingrid Berman. Eram suecas mas a sua imagem não era de suecas. Não muita gente se apercebia que vinham da Suécia. Mas no caso dos ABBA, eles tinham uma imagem diferente das estrelas do Reino Unido e dos Estados Unidos. Pareciam mais caseiros, sem usar roupas caras de estilistas. Eles faziam as suas próprias roupas. Não tinham nada de cool. Eles eram uma banda do povo. Eu menciono especificamente o Björn Borg, porque ele tem a mesma idade que os ABBA. Iam às mesmas boîtes. Tinham uma aparência parecida. O Borg tinha o mesmo nome de Björn, como o Björn Ulvaeus. A Volvo deixou de ser sueca, passou a ser chinesa. Mas nos anos 70, os ABBA e o Björn Borg mostraram às novas gerações que se podia ser da Suécia e ser grandioso. O Borg inspirou uma leva de grandes tenistas suecos nos anos 80. E na música, muitos dos êxitos mundiais que se ouvem são escritos e produzidos por suecos, especialmente o Max Martin, que compôs canções para a Taylor Swift, The Weekend, a Ariana Grande, ou o Justin Timberlake. Portanto, há muitos suecos que ouviram e viram os Abba e se inspiraram. Na verdade, acho que os Abba são hoje mais importantes na Suécia e em todo o mundo do que eram quando estavam ativos.