Livros para todos ainda são exceção em Portugal
Projeto inovador quer garantir que nenhuma criança fica de fora da leitura. Esta quinta-feira assinala-se o Dia Internacional do Livro infantil (2 de abril).
Em Portugal, falar de inclusão na educação tornou-se comum. Mas quando se olha para as prateleiras das livrarias e bibliotecas, a realidade é bem menos inclusiva. Para milhares de crianças cegas, com baixa visão, no espectro do autismo, com deficiência intelectual ou surdas, o acesso ao livro continua a ser uma barreira. “A realidade é muito, muito má”, afirma a professora Célia Sousa, coordenadora do Centro de Recursos para a Inclusão Digital do Politécnico de Leiria. “Temos vários livros já editados em Portugal, mas eles não entram nos circuitos comerciais. São projetos. E, sendo assim, não estão acessíveis a todas as pessoas que necessitam deles.”
Apesar de existirem iniciativas pontuais e projetos académicos, os livros acessíveis continuam afastados do grande público. Para a investigadora Célia Sousa, há um misto de desconhecimento e preconceito por parte do setor editorial. “Existe uma falsa ideia de que não há público suficiente. E também o mito de que estes livros são muito mais caros. Podem ser um pouco mais dispendiosos, mas, quando pensados de raiz, a diferença não é assim tão significativa.”
A exclusão começa cedo. Crianças cegas enfrentam a escassez de livros em braille ou audiolivro. Crianças com deficiência intelectual ou autismo encontram textos pouco adaptados. Já as crianças surdas enfrentam um desafio adicional já que a língua portuguesa não é, para muitas, a sua língua materna. “A língua materna é a Língua Gestual Portuguesa. Por isso, muitas vezes, precisam de aceder aos livros através de videolivros para compreenderem melhor a história”, explica.
Num sistema educativo que defende que “todos aprendem juntos”, a falta de materiais adequados revela uma contradição estrutural. Foi precisamente para responder a esta lacuna que surgiu o conceito de livro multiformato, uma abordagem inovadora que procura garantir que todas as crianças possam ler a mesma história, ao mesmo tempo. “O princípio base é simples: um livro que possa ser lido por todas as crianças em simultâneo”, resume Célia Sousa.
Na prática, trata-se de um único livro que integra múltiplas formas de leitura: texto ampliado, braille, pictogramas, imagens em relevo e códigos QR que dão acesso a audiolivros, videolivros em Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição das imagens.
Os pictogramas (símbolos visuais que ajudam a interpretar o texto) funcionam como “emojis da leitura”, facilitando a compreensão para crianças com dificuldades cognitivas ou linguísticas. Já a audiodescrição permite que crianças cegas “vejam” as ilustrações através da descrição sonora.
Em alguns casos, os livros incluem ainda personagens em 3D ou elementos táteis, reforçando a experiência sensorial.
Célia Sousa, coordenadora do Centro de Recursos para a Inclusão Digital do Politécnico de LeiriaPolitecnico Leiria
A origem do projeto remonta a 2010, quando a própria professora se confrontou com a limitação dos livros tradicionais. “Eu ia às escolas contar histórias e percebia que havia crianças que ficavam de fora. E isso, para mim, não fazia sentido.” A solução não foi inventar algo totalmente novo, mas integrar o que já existia. “Já havia braille, já havia audiolivros. Nós juntámos tudo num conceito único.” Desde então, o projeto evoluiu com base em investigação académica e colaboração direta com pessoas com deficiência, que participam na validação dos conteúdos, desde o braille à audiodescrição e aos pictogramas.
O impacto vai muito além do acesso ao livro. “Tem um impacto extraordinário, porque não se sentem excluídas. Estão a usar o mesmo livro que os colegas.”
Mas há um efeito adicional relacionado com o impacto nas outras crianças. “Quando pegam num livro destes, ficam curiosas. Perguntam por que tem ‘piquinhos’ (braille), por que tem símbolos, por que tem vídeos. E isso abre espaço para falar sobre diferença, inclusão e formas diversas de ler.”
Apesar do sucesso (os cerca de vinte livros já editados pelo Politécnico de Leira esgotam em uma ou duas semanas) o acesso continua limitado. Fora de alguns museus e espaços específicos, os livros multiformato não estão disponíveis no mercado generalista. Ainda assim, os dados são claros: entre 25% e 30% das crianças, a nível mundial, precisam de algum tipo de adaptação na leitura.
A experiência do Politécnico de Leiria já ultrapassou fronteiras e está a ser replicada noutros países. Mas, em Portugal, o caminho ainda está no início.
