Loreen: "há poderes que nos querem separar, a arte faz o oposto"

A cantora sueca edita "Wildfire", o novo álbum.

Loreen nasceu em Estocolmo mas é filha de pais de origem marroquina berbere. A cantora e produtora ficou mundialmente conhecida por ter vencido a Eurovisão por duas vezes, a primeira em 2012 com a canção 'Euphoria' e a segunda em 2023 com 'Tattoo'. As duas vitórias deram-lhe o título da primeira mulher a conquistar duas vitórias na história da competição. 

A cantora sueca editou a 27 de março o álbum "Wildfire" – disco editado após um hiato de nove anos em matéria de edições de álbuns de estúdio. O último que lançou – intitulado "Ride" – remonta a 2017.

"Enraizada na sua herança nómada e moldada por influências eletrónicas, de dança e pop global, a sonoridade de Loreen existe num espaço inteiramente próprio — visceral e etérea, íntima e expansiva", refere o comunicado de imprensa sobre o disco. "Com 'Wildfire', a cantora convida os ouvintes para uma viagem que abraça todo o espectro emocional: desespero e confusão, raiva e agressividade, dor, energia sexual e libertação, permitindo que cada sentimento exista sem julgamento. Em vez de suprimir ou controlar a emoção, o disco cria espaço para que a verdade venha à superfície. No universo de Loreen, o poder não nasce da dominação, mas da honestidade — e é através dessa verdade que algo mais verdadeiro consegue, finalmente, erguer-se das cinzas", acrescenta a nota. 


A artista multiplatinada também partilha o projeto colaborativo SAGES ao lado do compositor e produtor islandês Ólafur Arnalds. “Uma obra profundamente pessoal e intuitiva, SAGES mistura paisagens sonoras cinematográficas com a voz emotiva de Loreen, explorando transformação, vulnerabilidade e libertação criativa”, lê-se na descrição do projeto.


Coversámos com a cantora sobre o álbum, emoções, o papel da arte e sobre a espiritualidade que a guia num mundo que parece cada vez mais caótico. Oiça a entrevista:  

Entrevista a Loreen

Comecemos pelo novo álbum, "Wildfire". Como é que te sentes a editar um disco após nove anos desde o último? 

Sinto que é um pouco surreal porque também questiono o porquê de o Universo ter demorado tanto tempo a dar-me uma ajuda nisto. Sinto que [o Universo] me tem guiado ao longo da vida. Mas eu sou tipo aquele coelhinho da Duracell. Quero que as coisas aconteçam muito rápido. E quando tento que avancem demasiado rápido, há algo que me “diz”, “ainda não está na altura de acontecer”. Mas agora está tudo a fluir maravilhosamente. Agora, sim, é altura certa. E estou muito curiosa para perceber porquê.

Então, acreditas no timing do Universo?


Absolutamente. Ir contra o timing do Universo nunca resultou comigo. E, honestamente, sei que isso sempre foi para me beneficiar. Muitas vezes, quando olho para trás penso, "oh, Deus. Se tivesse feito o queria nesta altura, isto nunca teria acontecido". Ou poderia ter arranjado problemas. Por isso, parece que me está a proteger. Creio que está a fazer o que é melhor para mim. 

"Wildfire" é um título bastante visual. Porquê a escolha deste nome?

Bem, foi um processo muito bonito. No meu processo criativo recebo algum tipo de informação ou, pelo menos, é assim que lhe chamo. Pode ser apenas um pensamento, uma imagem. Vejo tudo de uma forma muito clara mas nem sempre entendo o propósito do que estou a ver. Aprendi, porém, a respeitar essa sensação intuitiva. Lembro-me perfeitamente do sítio onde estava [quando pensei no título]. Foi há cerca de dois anos. Estava a beber um café ou a tomar o pequeno-almoço com a minha equipa e alguém perguntou qual seria o título do álbum. E naquele momento eu olhei para eles e respondi, "Wildfire". E eles ficaram a olhar para mim e perguntaram-me porquê. E eu disse-lhes que ainda não sabia. Naquela altura, não sabia mas agora sei. Percebes? É um processo muito bonito. Agora sei qual foi a razão de ter escolhido o nome "Wildfire". Sei sobre o que era suposto falar. O wild [selvagem] e o fire [fogo] são sobre o espírito. É a representação do espírito de qualquer pessoa. A parte selvagem simboliza a importância de permitir que o espírito atinja o seu máximo potencial. Entendes o que estou a dizer?

Sim, sim.

Isto é muito importante. É assim que vivemos a nossa verdadeViver a nossa verdade é soltar esse fogo. É por isso que arde dentro de mim. A verdade arde dentro de nós. Há uma parte no álbum em que eu digo, “o poder não vem do ato de dominar, mas sim da verdade". Este é que é o verdadeiro poder. E podemos ver o que está a acontecer no mundo. A verdade está a borbulhar um pouco por todo o lado. Já não podemos ignorá-la. A verdade, qualquer que esta seja, está a vir à tona.  

E temos de encontrar essa verdade em nós próprios... 

Certo.

Mas esse processo nem sempre é simples. O álbum tem muitas emoções. Criá-lo ajudou no processo de descoberta dessa verdade? 

A verdade… sim. Exato. O álbum foi criado com base em dualidades. E há uma transformação. O que faço é intensificar cada sentimento ao extremo. Existe a parte da sexualidade, da energia sexual mas também há dor e tristeza. Há agressão, que podemos considerar uma energia densa, mas também há energias mais elevadas, como o amor. É quando despertamos, quando nos sentimos livres. Também há essa energia. Essa dualidade existe sempre. Não há luz sem escuridão. Não há céu sem dor. Não há harmonia sem caos. E isto é importante. A vida e o Universo são construídos com base nisto. Os alicerces são estes. Como é que nós olhamos para o caos? Olhamos para o caos como algo que queremos evitar, certo? Não o encaramos como algo que também devemos apreciar. E digo isto no sentido em que o trauma, a dor, a tristeza, o medo e a ansiedade também nos podem guiar para que nos transformemos em quem realmente somos. Estas emoções, usadas da forma certa, podem ser uma ferramenta para o nosso desenvolvimento. Se o Universo foi criado com base no caos, basta olharmos para os vulcões e para o fogo para vermos a beleza [da criação]. Não podemos contornar a escuridão, apenas rotulamos com algo negativo. Mas, na verdade, existem muitas possibilidades no caos

A última canção do disco chama-se ‘True Love’. O facto de esta ser a última canção tem algum significado para ti?

Sim. Essa canção foi um processo demorado porque [a fazê-la] perguntei-me muito sobre o que é, afinal, o amor, o amor verdadeiro. Andei à volta dessa questão. E sinto que acabei o álbum com a verdade. A verdade é amor. Tudo é amor. A honestidade é amor. E esta é a verdade. Falo da conexão coletiva. Está tudo conectado. E isto é pura Física. Magoar-te é magoar-me. Então, o que é o amor? É perceber que não há separação entre nós. Nem entre nós e a Terra. Amar-me é amar-te. Amar a Terra é amar-me também. É simples. Tem tudo a ver com o despertar. É isso que percebemos quando não vemos as coisas a preto e branco. Quando não nos julgamos e quando não julgamos o mundo. Quando começamos a olhar para o caos de uma forma construtiva. Em vez de olharmos para o caos de uma forma negativa podemos colocar a questão, o que é que isto nos pode ensinar? Por que razão é que o Universo está a agitar tanto as coisas? E também devemos estar atentos a todas as distorções que acontecem à nossa frente. Estas distorções acontecem devido à falta de entendimento do que é o amor. O amor é o antídoto para isso tudo. É o desfecho. É a verdade.  

Isso leva-me à canção 'Feels Like Heaven'. Dizes que o tema é sobre rendição. Rendição a quê?

É sobre aceitarmos o que nos acontece. A 'Feels Like Heaven' fala de conceitos como o céu e o inferno. Nós olhamos para estes conceitos como lugares, certo? Percecionamos o céu como um lugar para onde queremos ir. Mas não é. O céu é um estado de espírito. Cada pessoa tem uma realidade própria, baseada num sistema de crenças que, por sua vez, é baseado em sentimentos. O que damos a nós próprios e o que sentimos torna-se a nossa realidade. Se estamos com uma energia mais densa, a nossa realidade fica mais distorcida. Pode tornar-se naquilo a que chamam de inferno. Mas, se aprendermos a não nos julgarmos e se tentarmos olhar para tudo de uma forma construtiva, podemos começar a construir o nosso céu. O céu não é um lugar, é um estado de espírito. Se entendermos isso, entendemos o poder o temos dentro de nós. Achar que o poder está fora de nós é enganador. O espírito é vasto. O poder interior que permite manifestar as realidades é maior que aquilo que, por vezes, as pessoas são capazes de entender. Falo sobre criarmos a nossa realidade. É difícil para as pessoas entenderem isto, porque há muita coisa a acontecer no mundo. Eu tento dar esse poder às pessoas, dizendo-lhes: podes criar a tua realidade e podes criar o teu próprio céu. Não está nas mãos de mais ninguém. Não abdiquem do vosso poder. É vosso. Pertence-vos por direito. Esta é a minha forma de mostrar amor.  

O mundo está caótico e propício à disseminação do medo. E isso leva-me a citar a Nina Simone que numa entrevista disse que a “liberdade é não ter medo”. Creio que o que estás a dizer vai muito ao encontro deste pensamento… 

Sim. O medo coloca-nos numa posição de retirada. Não podemos expandir no medo. Quando estamos no sentido oposto do medo começamos a ver possibilidades nas soluções. Vemos possibilidades em situações. Se olharmos sem medo para as nossas vidas ou para situações que estamos a viver, por mais negativas que sejam, vamos usar essa reflexão de uma forma que é benéfica para nós. Podemos moldar o medo em algo que nos faça crescer, algo que dê algum fogo às nossas vidas ou que nos transporte para outros lugares. O medo é um sentimento muito interessante. Mas temos de dar o nosso melhor para evitar senti-lo. Há formas de “escapar” ao medo. Temos de ter cuidado com a forma como alimentamos as nossas mentes e os nossos corações em matéria de informação. Porque, tal como disseste, o mundo está a viver um momento de caos. Mas também está a presenciar um despertar. Estão milhões de pessoas nas ruas a protestar para dizer que este não é o mundo que querem ter. Quero um mundo mais leve e luminoso. O despertar está a acontecer em nós por causa do caos que nos rodeia. Estamos a dizer “sim” a certas coisas e “não” a outras. As pessoas ajudam-se umas às outras. Há muita beleza neste processo de despertar. Neste sentido, temos de questionar se a nossa realidade é percecionada com medo ou se, por outro lado, é percecionada com esperança. É uma escolha. Temos de fazer uma pergunta: qual é o melhor antídoto para o mundo em que vivemos hoje? É o medo ou é a esperança? O que é que vai ajudar as pessoas à nossa volta? O medo ou a esperança? É a segregação ou é a inclusão? É algo com muitas camadas. Começa com um sentimento e logo se transforma num efeito cascata. E a conversa que estou a ter contigo também é uma conversa comigo própria.
 
E a arte e as canções também podem guiar-nos no caminho da esperança… 

Sim. É mesmo isso. Porque é uma linguagem comum a todos. Não tem etnicidade e não tem nada que nos possa segregar. 

Exatamente… 

Posso cantar uma canção numa língua completamente diferente ou posso apenas murmurar que sei que vais entender a informação que estou a querer transmitir. É a linguagem que não tem em conta o lugar de onde somos ou para que lugar vamos. Vamos sempre entendê-la. Não podemos subestimar a arte. A arte é muito importante. Neste momento, há poderes que nos segregam, a arte faz o oposto.  

'Feels Like Heaven' abriu um novo capítulo para ti. O que é que podemos esperar desta nova era?

O que podem esperar desta nova era é definitivamente honestidade. Mas também sinto necessidade de falar sobre estes assuntos. Sobretudo nos dias que correm. Sinto que precisamos de ter mais conversas como esta. O que podem esperar de mim é honestidade na arte mas também a criação de um espaço onde seja permitido que as pessoas sintam tudo. Porque o disco tem todas estas emoções e são todas permitidas. E eu estou lá de forma plena. Vão sentir a minha vulnerabilidade, sou honesta com isso. Vão sentir a agressão e a frustração. Mas também vão sentir alegria e felicidade. Vão ver todas essas emoções. É-me permitido sentir. É importante que nos permitamos a sentir. É o que nos mantém vivos de muitas formas.  

Muito obrigada pela entrevista, Loreen…

Obrigada pela energia. Quero dizer que não é coincidência que as mulheres se identifiquem com estes conceitos. O que vou dizer não é para segregar os homens, até porque o masculino e o feminino existem em todos nós, mas acho que estamos a precisar de uma energia mais feminina no poder. A sabedoria dessa energia é importante porque o mundo está numa energia masculina há demasiado tempo. Está na altura de equilibrar as coisas. É preciso que este conhecimento se espalhe. Falo da tomada de decisões a partir da inteligência do coração e não do cérebro. 

Então, há esperança…


Sim. Tenho muita esperança. Vejo uma realidade com muita luz ainda que seja difícil de entender. E sou um pouco bruxinha. Por isso, sim.