Luca Argel: "é uma grande imaturidade não olharmos para o mundo como uma casa comum"
Entrevista ao cantor e compositor que edita hoje o álbum "O Homem Triste".
Luca Argel edita esta sexta-feira (23 de janeiro) o álbum "O Homem Triste" – disco que contou na produção com o também brasileiro Moreno Veloso.
O novo registo discográfico do cantor, compositor e escritor brasileiro “reúne canções que refletem sobre a forma como os homens aprendem, ou não aprendem, a lidar com as próprias emoções”, começa por referir o comunicado de imprensa sobre o álbum.
“Partindo de uma experiência íntima, Luca Argel aborda temas como a frustração, a tristeza, o fracasso e a dificuldade em reconhecer a fragilidade. "'O Homem Triste' nasce da consciência de que muitos homens crescem sem vocabulário emocional para compreender o que sentem, sendo ensinados a esconder a dor, a evitar o pedido de ajuda e a confundir força com invulnerabilidade”, acrescenta a nota.
Para acompanhar o disco, o músico criou o Mapa d'O Homem Triste - “uma cartografia simbólica que amplia o universo do álbum. Neste mapa, emoções, silêncios e zonas de conflito surgem transformados em lugares e percursos imaginários, convidando a uma leitura livre e subjetiva. Longe de funcionar como guia ou interpretação fechada, o mapa assume-se como uma extensão visual e poética das canções, reforçando a dimensão artística e emocional do projeto".
Luca Argel vai levar "O Homem Triste" para os palcos em breve. O músico atua a 31 de janeiro no Cineteatro de Amarante, a 6 de fevereiro no Teatro Viriato, em Viseu, e a 7 de fevereiro no Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery.
A 28 fevereiro, Luca Argel sobe ao palco do Theatro Circo, em Braga, a 2 de março atua no Teatro Maria Matos, Lisboa. Em ambos os concertos, o músico vai contar com a presença de Moreno Veloso.
Oiça a entrevista na íntegra:
Quero começar pela descrição do álbum. Podemos ler que é um disco sobre a forma como os homens aprendem ou não aprendem a lidar com as emoções. Acho que é um assunto muito importante. Quero saber o que é que te motivou para pegar nesta temática.
Muitas coisas! Mas posso começar com um testemunho pessoal. O meu afilhado, que fez quatro anos no final do ano passado, é a primeira criança que estou a ver a crescer mais de perto. Estou a vê-lo a crescer desde o primeiro dia. (…) E comecei a reparar que, quando ele começou a frequentar a escola, o comportamento começou a transformar-se. Comecei a identificar alguns padrões que não tinha consciência que existiam. E são coisas que vivenciei e que vi os meus amigos a vivenciar. Falo de situações, como começar a rejeitar certos brinquedos ou certas cores. Sinto que ficou um pouco mais agressivo, começou a gostar de brincadeiras mais agressivas. E começou a ter um discurso verbal um pouco mais violento. Foi então que comecei a perguntar-me sobre o processo de nos tornarmos rapazes. Questionei-me sobre o tipo de coisas que vamos aprendendo e desaprendendo para sermos aceites socialmente, para sermos vistos como um homem ou como um rapaz. Comecei a ler sobre o assunto, a assistir a filmes e a conversar com outras pessoas sobre o tema. Comecei, então, a dar-me conta de muitas coisas. Tive muitos momentos "eureka" ao ler sobre masculinidade. Mas a coisa mais básica que percebi está relacionada com uma frase famosa de Simone de Beauvoir: "não se nasce uma mulher, torna-se uma mulher". Foi algo muito importante para feminismo no século 20. Ajudou a entender a construção social do que é ser mulher e o papel das mulheres na sociedade. Acho que isto também se aplica aos homens e à identidade masculina, no sentido em que não nascemos homens, tornamo-nos homens. Vamos sendo ensinados de muitas formas, sendo que isso acontece de forma muito subtil. Não é explícita. Não nos são dadas ordens. Vamos apenas aprendendo. E vejo isso a acontecer com o meu afilhado. Já via quando ele tinha três anos. É algo que acontece desde muito cedo. Vamos dando reforços a certos comportamentos e não damos a outros. Aprendemos muito cedo que determinados comportamentos recebem uma resposta positiva dos nossos pares, dos nossos pais e dos adultos que nos rodeiam. E outros não. Há coisas que são encorajadas e outras não. A sensação é que nos vamos encaminhando "de forma natural" para um estereótipo, para cumprir os padrões do que é o estereótipo masculino. Mas, mais à frente nas nossas vidas, isso pode transformar-se em problemas. E um desses problemas é a inabilidade em lidar com as emoções.
Sim…
Só para dar mais um exemplo. Na semana passada, estive numa escola secundária, em Matosinhos, a conversar sobre masculinidade. Toquei uma das canções do álbum e conversámos um pouco. A meio da conversa, fiquei emocionado com o relato de um dos meninos que devia ter à volta de 14 anos. Contou-me que quando a irmã mais nova, de 11 anos, chora, os pais dizem-lhe que pode chorar, acolhem o choro e ficam com ela até ficar mais tranquila. Mas quando é o menino a chorar, os pais dizem-lhe, "pronto, já passou. Não precisas de chorar". E fazem isto de uma forma muito subtil. Não o dizem de uma forma violenta, do género: "para de chorar porque os homens não choram". A questão é que essa frase mais violenta nem precisa de existir. Os pais demonstraram, de uma forma indireta, que o choro dele é menos bem-vindo do que o choro da irmã. Achei fantástico que, aos 14 anos, aquele adolescente já tenha consciência disso. Fiquei a pensar na quantidade de vezes que aquilo teve de acontecer para que o rapaz percebesse conscientemente que, aos olhos dos pais e dos adultos em geral, o choro da irmã é diferente do choro dele. E isso vai travando os rapazes. Nas conversas que tive com essas turmas percebi que tantos os rapazes como as raparigas têm consciência que expressam emoções de formas diferentes. E a opinião é unânime. Os rapazes retêm e escondem as emoções. Um dos meninos até usou a palavra "controlam". Os rapazes têm de controlar mais as emoções porque se as mostrarem, vão ser gozados. Vão ficar mais vulneráveis aos olhos dos outros. E nessas sessões ficou claro que as reações das meninas são muito mais intensas do que as reações dos rapazes.
Isso pode mesmo traçar o caminho de um homem e de todas as relações que vier a ter ao longo da vida. Quando ouvi a primeira canção, a que dá o título ao disco, achei logo muito impactante. A primeira imagem que tive foi a de um grupo de homens, curiosamente mais velhos, a ouvir a canção com a garganta apertada, a querer precisamente chorar…
Acho que as gerações mais velhas talvez sintam com mais intensidade essa repressão emocional, mas também acho que [essa repressão] está a voltar. Há uma geração intermédia que, em alguns momentos, desconstruiu um pouco essa masculinidade mais dura, mas sinto que está de volta. Senti muito isso quando conversei com aquele adolescente. Está a recrudescer a ideia tosca de que um homem só tem valor a partir do que é capaz de prover ou de como se impõe material e fisicamente. É o homem que trabalha para ganhar dinheiro, que briga ou que precisa de ter algum tipo de desempenho físico - seja num desporto ou de uma forma violenta. Parece que esse “ideal” de homem está a voltar. Talvez seja um refúgio de segurança na construção de identidade dos rapazes dos dias de hoje. E isso é muito triste. É uma falta de liberdade muito triste, daí o “Homem Triste”. Sinto que nos tira capacidade no nosso repertório de satisfação, de realização e de felicidade na vida.
Tens uma canção no disco que fala precisamente no ato de cuidar, a 'Primeiro Mar'...
Exatamente. É uma canção que, aparentemente, fala sobre maternidade e sobre a concentração do cuidado nos ombros das mulheres. Não só das mães, mas também das avós, das irmãs e por aí. É sobre a figura feminina como uma figura materna e como a primeira cuidadora. Mas, na verdade, a canção surgiu com base na experiência de ser filho, até porque, na verdade, nunca passarei pela experiência de ser mãe. É sobre o corte de laços do filho com a mãe. Hoje percebo que a fase desse corte tem muito a ver com a construção da identidade masculina. E a mãe representa o feminino no geral. É um momento na infância em que sentimos que precisamos de nos afastar de tudo o que é feminino, porque a sociedade ensina-nos que não é adequado. Diz-nos que as coisas femininas não são para nós. E para construir a nossa identidade masculina afastamo-nos do feminino e da grande representação do feminino na nossa vida, que é a nossa mãe. É um processo muito doloroso. Demorei muitos anos até conseguir perceber em que momento passei por esse processo e o quanto custou. Acho que custa a todos. A canção fala um pouco sobre isso. Fala sobre a dor de nos afastarmos das nossas mães, sem, necessariamente, querermos fazê-lo. Se dependesse de nós, não nos afastaríamos, mas o mundo e a vida arrastam-nos [nessa direção]. E digo isto sem dizer se é algo positivo ou negativo. São fases da vida.
O quão custa reprimir as lágrimas? Qual é preço dessa repressão emocional?
É um preço altíssimo. E é um preço que, além de ser pago por quem reprime as emoções, também é pago por quem está à volta. Quando nos “divorciamos” do exercício da expressão dos sentimentos perdemos o entendimento de como funcionamos. Vamos perdendo o contacto com o nosso interior e a habilidade de falarmos sobre o que sentimos. Quando conseguimos falar sobre algo, conseguimos entender melhor. Só conseguimos entender aquilo que, de alguma forma, transformamos em linguagem. Se não trabalharmos os nossos sentimentos através da linguagem, ficamos mais ignorantes a respeito desses mesmos sentimentos. E vai acumulando. Tudo isto acumula, se não nos colocarmos num lugar de vulnerabilidade e conversarmos sobre o choro, as frustrações, a vergonha, os traumas, a tristeza ou as deceções. Se não abrirmos o coração a alguém da nossa vida – amigos ou familiares – essas coisas acumulam até ao ponto de transbordarem. E depois podem transbordar na forma de depressão ou até de forma violenta contra quem nos está mais próximo. A uma esposa, a uma namorada, a uma irmã ou até a alguém desconhecido. Vejo isto a acontecer com muitos homens. Os homens são, de longe, os maiores autores de violência e os que mais sofrem todos os tipos de violência. É uma epidemia de violência da qual os homens são os maiores perpetradores e as maiores vítimas, quantitativamente. São os que mais morrem, os que mais se suicidam. Acho que um dos ingredientes para esse resultado estatístico é a inabilidade de governarmos as nossas emoções e de expressá-las quando aparecem.
Muitas das decisões que gerem o mundo são tomadas por homens. Achas que, de alguma forma, essa má gestão de emoções pode resultar num mundo pior?
Tenho certeza disso. E não é uma coisa de hoje, é algo que atravessa séculos. É uma lógica muito associada ao masculino. Falo da lógica da imposição da força, da colonização do outro, da disputa de território, da competição prevalecer em relação à cooperação ou de olhar para o outro como um inimigo ou adversário e não como um colaborador ou possível parceiro. Tudo isto está associado historicamente à postura e ao comportamento masculino. O ideal de virilidade encaixa como uma luva no comportamento colonial tanto no passado como no presente. É a ideia de que se eu tiver poder – económico e bélico – para conquistar uma terra e um povo, tenho o direito de fazê-lo. É uma lógica que se aplica a comportamentos tipicamente masculinos como o assédio, a violação ou a violência. A nossa sociedade, a nossa economia, a lógica na organização da comunidade local e global foram sendo construídos com esta lógica de valores. Não é por acaso que a esmagadora maioria dos grandes líderes e das posições de maior poder no mundo são ocupadas por homens. Não é surpresa que estejamos no ponto onde estamos. Acho que é uma grande imaturidade, enquanto espécie, não olharmos para o mundo e para o nosso planeta como um espaço comum, como uma casa comum. Talvez pudéssemos tirar maior partido "da nossa casa" com soluções mais diplomáticas, com mais diálogo, com recurso à linguagem, com palavras. Falo em transformar os sentimentos e todas as urgências em palavras e não em ataques.
Estatisticamente, sabemos qual é a realidade mas também sabemos que há muitos homens que não conseguem, pura e simplesmente, assumir que são vítimas de violência doméstica. Sentes que, com este álbum, podes estar a ajudar algumas dessas vítimas a ganhar coragem?
Espero que sim. Torço muito para que sim ou então para que, pelo menos, este assunto seja objeto de reflexão. É importante que as pessoas coloquem essa questão e pensem sobre o porquê dessa vergonha tremenda que os homens têm em pedir ajuda. Para muitos, o ato de pedir ajuda é uma demonstração de fraqueza, de fragilidade. Um homem nem gosta nem de pedir informação na rua quando está perdido. (risos) Além de ser perigoso a longo prazo, ao não pedir ajuda perdemos a oportunidade de nos conectarmos com outras pessoas ou de encontrar coisas que não estávamos à espera. Os meninos aprendem a ter esse tipo de vigilância desde muito cedo. É uma vigilância que vem de fora mas transforma-se numa vigilância interna. Sentimos uma série de interdições. O que um homem pode ou não fazer. É como se houvesse um polícia nas nossas cabeças que nos impede de fazer certas coisas. Entre essas coisas, está o ato de pedir ajuda, chorar, admitir falhas, o fracasso ou até desistir de algo por medo.
Admitir as fragilidades, o erro, a aparente fraqueza é um sinal maior de força…
Pois é.
Há pouco falaste na questão de um homem nem pedir informações na rua, isso leva-me ao mapa que fizeste para acompanhar o álbum. É o mapa do “Homem Triste”…
Foi por isso que fiz o mapa.
Consegues explicar-me, resumidamente, o que colocaste no mapa?
É muito difícil. Não é fácil descrever porque é um mapa onde coloquei espaços concretos. Quis materializar a paisagem emocional masculina. E a ideia do mapa veio justamente porque acho que os homens gostam de mapas. Tenho essa impressão. É aquela ideia do navegador que vai desbravar territórios. Ou então o mapa de um viajante que quando está num lugar diferente prefere olhar para o mapa em vez de pedir orientações pelo caminho. E também é um mapa lúdico. Acaba por ser divertido.
Sim!
Olhar para um mapa estimula a imaginação. O que fiz foi pegar em comportamentos e emoções muito associadas ao universo masculino e transformá-los em lugares no mapa. Há o deserto da insegurança, o Canyon dos bravos e há uma série de rios que vão desembocar no mar. Criei o mar do eu e o mar do outro. Fui tentando construir pequenas narrativas na minha cabeça. É um mapa que não tem ninguém. Está inabitado mas mostra sinais de que aqueles caminhos foram feitos por pessoas. E depois há por lá algumas provocações. É um mapa cómico. Tem o Monte Falo, por exemplo, que é uma montanha muito alta mas tem a base toda carcomida, ao ponto de estar prestes a cair.
E também representa um pouco, creio eu, a leveza que quiseste colocar neste disco. É uma temática emocionalmente carregada, tem o seu peso, mas percebi que, de alguma forma, quiseste dar-lhe toques mais leves. E isso leva-me à parte musical. Convidaste o Moreno Veloso para a produção. Não sei como foi a vossa partilha criativa, como é que aconteceu, mas sei que quiseram cruzar vários universos musicais com o intuito também conferir alguma leveza às canções, não é?
Sim, porque o conceito do álbum já tem um peso muito grande. São assuntos que nos levam para lugares bem sombrios. Não quis ir pelo caminho mais fácil, que seria o de apontar o dedo e falar sobre o mal que a masculinidade hegemónica e o estereótipo masculino geram no mundo. Este disco não é, nem de longe, uma peça acusatória. Poderia ser, porque há muita coisa que deve ser exposta, denunciada e problematizada. Mas eu quis ir por um outro caminho. E, por isso, fez todo o sentido trabalhar com o Moreno, que é um homem muito sensível, delicado e sereno. O caminho que seguimos foi para apontar alternativas. Não quis simplesmente falar de um problema, mas sim tentar vislumbrar alguma solução. Acho que não oferecemos uma solução concreta, mas apontamos caminhos. A criação do mapa também é baseada na ideia de tentar encontrar caminhos e rotas de fuga das armadilhas que a masculinidade coloca na vida dos homens.
Caminho que começa também por falarmos sobre o assunto…
Sim. A primeira música, 'O Homem Triste', entra com um pouco mais de vigor. Apesar de ser uma música irónica, a canção abre o álbum como se fosse uma carta de intenções. Como se disséssemos: "estamos a entrar neste território e este território é duro". Mas logo a seguir vem o 'Primeiro Mar'. É onde a viagem começa a ser mais generosa. Quis fazer um disco assim. Quis trabalhar, poeticamente, com um pensamento mais acolhedor, mais generoso e não entrar na lógica de combate.
E foi muito fácil trabalhar com o Moreno. É uma pessoa muito tranquila e muito aberta. Cheguei ao pé dele com as músicas escritas e depois fomos ouvindo as canções em estúdio de uma forma muito natural. Não nos sentámos para pensar em arranjos nem nada disso. Sabíamos apenas quais os músicos com os quais queríamos trabalhar. Reunimo-nos depois disso em estúdio. Eu tocava os temas, eles ouviam, davam algumas sugestões e tiravam dúvidas. E depois tocávamos ao mesmo tempo. Foi um processo muito orgânico. Quase todo o álbum foi gravado assim. Pelo menos, a base das músicas foi gravada assim, como se estivéssemos a tocar ao vivo. As ideias foram surgindo espontaneamente. E isso, para mim, foi um grande exercício em matéria de perda de controlo sobre o processo criativo. Tendo a ser muito controlador nas minhas coisas. O facto de ter largado as músicas nas mãos dos músicos, para serem eles a criar espontaneamente as linhas, as melodias ou as ideias musicais foi um exercício interessante para me abrir ao outro. Abri-me ao que o outro tem para me oferecer, sem impor. Foi uma troca.
Também achei interessante teres colocado o som da orquestra Arnema [com arranjos assinados por Marcelo Caldi e direção de Sílvio Cortez] no álbum...
Há três canções do álbum que têm um arranjo de orquestra. Achei que os três temas pediam este arranjo. Foi uma necessidade estética, mas, para mim, também foi a realização de um sonho. Sempre quis gravar canções com orquestra. Acho muito bonito. E achei que o álbum merecia. Afinal de contas, é um álbum que fala muito de emoções. O som de orquestra está muito associado a um certo sentimentalismo. A linguagem orquestral que usámos no disco, principalmente no tema 'Arqueologia de Armário' que é um bolero, leva-nos para um universo mais cinematográfico. Acho que o som de orquestra serve como um atalho para despertar sensações ou lembranças.
E talvez desperte a reflexão, certo? No final vais buscar a palavra "cura". O tema que fecha o disco chama-se 'Quando a Cura Começa'. Quando é que a cura começa?
A própria canção responde a isso. A cura começa quando damos um nome à dor ou à doença ou à enfermidade. É preciso dar nomes a essas coisas. Confesso que ainda não encontrei todos os nomes que queria encontrar. O meu caminho de reflexão e de investigação sobre a masculinidade está longe de terminar. Este álbum foi uma espécie de mergulho, mas ainda não enxergo bem todas as coisas. Ainda faltam nomes. Mas não tenho dúvidas que não chegamos a uma cura sem falarmos sobre aquilo que nos aflige. Encontrar a cura através da linguagem é a lógica da psicanálise. O primeiro passo deve ser o de identificação dos problemas e depois a reflexão sobre esses problemas. É preciso perceber a origem dos problemas e como se manifestam. Há músicas neste disco que só depois de as ter escrito é que as entendi. Se não tivesse tentado explorar esses sentimentos, não teria chegado a determinados entendimentos. O álbum termina com a canção 'Quando a Cura Começa' porque não é um álbum acusatório. É um álbum que quer encontrar soluções. É mais positivo do que negativo. E quando o álbum está a terminar é quando começa. O final do álbum é o início da jornada.
E como é que vais levar o homem triste para o palco?
Estou a preparar o espetáculo com a banda que já me acompanha há muitos anos, mas também vai ser um concerto com muita conversa. Vou tocar o álbum todo, claro, mas também alguns temas de álbuns anteriores. Desenhei um determinado alinhamento para os concertos para poder contar muitas histórias. É algo que costumo fazer, mas nestes concertos em particular é algo difícil de explicar. As pessoas têm de assistir ao concerto para entender. É como se não tivesse em cima do palco. Sinto que o palco é um lugar de proteção. É uma espécie de máscara que mascara as nossas fragilidades. O que tentei fazer foi “demolir” essa imagem. (…) Vamos ver como resulta, mas tentei esbater o máximo a fronteira [entre o palco e o público]. Vamos estar no palco de uma forma mais desprotegida. Vai ser um trapézio sem rede. Vamos esbater a fronteira entre quando começa o espetáculo e quando termina. (…)
