Luís Varatojo, da Luta Livre: "respeitinho não tem nada a ver com respeito"
Novo álbum "Contrafação" sai nesta sexta-feira. Entrevista ao músico resistentemente ativista.
Contra os ventos e marés dominantes, “Contrafação” é um disco da Luta Livre de convicções, contra as facções neo-liberais e autocráticas, que ameaçam o equilíbrio social e democrático de um país que já teve, que chegue, o seu passado de cinzentismo salazarista e marcelista.
A voz da nossa consciência é Luís Varatojo, de passado musical desdobrado em projetos tão diversos como os Peste & Sida, A Naifa ou a dupla Fandango, mas de espírito interventivo cada vez mais firme como o aço. No terceiro álbum da Luta Livre, “Contrafação”, Luís Varatojo está musicalmente mais melódico e suave, mas a alma mantém-se inquieta perante um país que parece resignado ao triste fado de um retrocesso aos tempos do respeitinho.
A entrevista decorreu no estúdio caseiro de Luís Varatojo.
Falas do whiskey de Sacavém no disco. Mas imagino que queiras falar antes de outra contrafação. Qual é? Quais são? Quais são as fraudes deste tempo que tu falas?
Vivemos um tempo em que somos expostos a muitas fraudes e desinformação. É muito difícil perceber onde é que está a verdade, tudo aquilo que está à nossa volta, pode ou não ser verdadeiro. Eu deixo isso bocado em aberto, essa interpretação da contrafação, para quem quiser ouvir o disco e tentar perceber o que é quer dizer essa contrafação. Posso também dizer-te que como o disco fala mais de costumes e de comportamentos do que propriamente de casos concretos e de ideias muito políticas como o outro [o álbum “Defesa Pessoal”], com as dificuldades com a habitação, problemas do aumento dos preços e das questões do trabalho.
Só no tema ‘Estufas e Alojamento Local’, és mais explícito. Pareces mais genérico no restante disco.
Não acho que seja genérico. O que me impeliu a escrever as letras para este disco é o nosso comportamento, o comportamento dos portugueses, a forma como estamos a gerir o país, como estamos a gerir a nossa herança cultural, como estamos a vender...
Sinto muita crítica ao conformismo do nosso povo neste disco.
Sim, o conformismo é um hábito nosso, não é só de agora. Sempre fomos assim. Nós, durante a Segunda Guerra Mundial, fomos neutros, portanto nem optámos por um lado, nem por outro. É um bocado o português, acho que continuamos assim, continuamos a executar ou a perseguir aquela ideia do respeitinho, que é uma ideia que nos foi imposta pelo Salazar nos anos 30, 40, 50. E essa ideia do respeitinho não tem nada a ver com o respeito pelos outros, por toda a gente, é o que devíamos nós todos ter. Só que nós em Portugal temos incutida essa ideia do respeitinho, que é o respeitinho ao superior. Nós temos esse respeitinho ao superior, porque temos mais hipótese de subir um degrau na escala social. Eu apanho isso no dia-a-dia, todos nós apanhamos. Continua a ser muito o que é ser português. E depois há outras coisas como a questão da ideia da gratidão. Estão-nos sempre a dizer que temos de ser gratos, “vocês têm de ter gratidão”. Ou seja, tu estás mal, mas mesmo assim tens de estar agradecido. E isso também é uma coisa que o português tem muito. Tu não podes pôr nada em causa. Se tu pões o Cristiano Ronaldo em causa porque já não joga bem, “não, não, tens que mostrar gratidão, que ele é o maior jogador de todos os tempos”. E por aí fora. Obviamente que nós temos que ter gratidão, por exemplo, ao Carlos Paredes. Temos que ter gratidão à Amália. Só que este conceito é misturado de uma forma que nos faz ser esta espécie de ovelha obediente, que tem sempre gratidão a tudo e nunca critica nada. E é esse tipo de comportamentos que me impeliram a escrever estas letras, e não tanto sobre assuntos tão práticos como os preços estão a aumentar no supermercado ou o meu amigo foi despedido do trabalho. Vi-me inclinado mais para escrever mais sobre estes comportamentos. E quando falo, por exemplo, das estufas e do alojamento local, isso foi um refrão que me surgiu quando eu estava a viajar para o Algarve, pelo meio do Alentejo, e aquelas paisagens que eu conheço há décadas estão-se a transformar em plástico. São paisagens de plástico porque há montes de estufas e não é só esse problema visual, é também o problema da agricultura intensiva que está a dar cabo da nossa agricultura. No campo são estufas, na cidade é o alojamento local e no fundo estamos a ser transformados nisso. E, às vezes, não são os de fora que nos vêm transformar. Somos nós próprios que alinhamos nessa ideia de nos transformarmos num produto vendável. E aí chega a contrafação. É quando nós nos imitamos a nós próprios para que sejamos vendáveis, seja a nível da economia, da agricultura, dos serviços, etc, que não deixa dúvidas a ninguém, com a invasão do turismo. Nós vendermos as praias da costa alentejana a grandes grupos económicos, a grandes estrelas que têm dinheiro para as ocupar, mas também a nível cultural. Quando nós também tentamos dar os nossos produtos culturais, a nossa identidade cultural, como sejam as Romarias, os Santos Populares, a nossa música, os nossos elementos icónicos da tradição, quando os tentamos transformá-los num produto vendável, damos cabo deles. Foi aí que eu me lembrei do termo contrafação, que depois de ter o disco todo acabado, achei que fazia bastante sentido.
Quase que partindo a palavra contrafação ao meio, és contra que facções?
Essa palavra pode ser dividida em duas e depois cada um fará a sua interpretação. Mas... Até pode ter outras. Sabes que eu gosto de deixar as coisas em aberto, não gosto que as coisas tenham só uma leitura, acho que isso faz parte. Quero que descubram o que é que está ali e não tenho que dar a papinha toda feita porque isso só leva ao ponto em que estamos, que é... Ninguém analisa com profundidade, ninguém ouve com profundidade, ninguém lê um texto com mais de um parágrafo e depois estamos no ponto em que estamos, que as pessoas depois também não têm capacidade para decisões políticas, para votar em consciência. Eu sempre achei que os objetos artísticos devem deixar tudo à interpretação e, por isso, tento não dar tudo também e como lido bastante com ironia, tento dar sempre dois sentidos. Depois posso correr o risco de as pessoas não perceberem, mas eu corro esse risco de boa vontade porque é isso que me interessa.
Este disco é feito solitariamente, ao contrário dos outros. Foi uma opção determinada?
Não foi uma opção que tivesse tido desde o início, porque as coisas foram acontecendo. Estou a reparar que desde o primeiro disco do Luta Livre, estou com um processo de simplificação em curso. No primeiro disco, usei muita artilharia, com samples, várias baterias, baixos, guitarras, teclados, com vários convidados e solistas que vieram dar voz ao trabalho. No segundo disco, o “Defesa Pessoal”, eu peguei na guitarra elétrica, que é um instrumento que me é mais familiar, compus as canções todas e depois fiz o resto: as vocalizações e apenas convidei percussionistas e um acordeonista [João Gentil], instrumentos que eu achava que faziam falta no disco e apostei num coro. Fizemos vários arranjos para o coro, para as diversas canções, para uma boa parte delas. E neste disco, quando eu comecei a fazer, comecei a trabalhar com a guitarra acústica, foi daí que tudo partiu. E isso teve a ver com o facto de ter feito uns concertos a convite de um evento, que é o Festival Política. Como o palco não era grande e também não havia grandes orçamentos, então propuseram-me fazer um set mais acústico, com um line up mais pequeno. E eu andei uns meses a fazer arranjos para as músicas dos dois discos, em acústico, só com uma guitarra e mais uns sintetizadores, uns sons eletrónicos. E depois acabei por fazer uma série de concertos com esse formato, para além do Festival Política e gostei bastante do resultado. Daí ter tomado esse caminho. Aliás, havia algumas até que eu já tinha começado e que tinham um bocado o registo do disco anterior. Rapei tudo, limpei tudo e comecei a fazer as canções só com a guitarra acústica.
Essa simplicidade é o fio condutor de todo o disco “Contrafação”.
Sim, eu comecei a perceber que era esse o objetivo, simplificar ao máximo. Aquele conceito do menos é mais. Tem só a instrumentação necessária para não causar distração. Gostei muito do resultado do som acústico da guitarra com os sintetizadores, com os moogs, com os beats que fui fazendo aqui também com o outro sintetizador. E gostei muito de não ter, por exemplo, um baixo. Há canções que eu podia ter posto guitarra portuguesa, podia ter posto acordeão, justificava-se. Podia ter posto outras coisas, mas ainda pensei nisso. Mas quando comecei a ver o resultado, quando passei de meio do disco, já tinha uma série de canções e comecei a pensar que aquele seria o melhor formato. Gosto daquele resultado. E, depois, olho à volta e não ouço coisas iguais. Ou seja, aquela solução da guitarra com os sintetizadores pareceu-me fresca. E nos sintetizadores, há milhões de sons. O problema é escolher... O problema é relegar aqueles que não queremos, para ficarem só aqueles que interessam. Mas como gosto muito dessas possibilidades que se abrem quando trabalhas com sons sintetizados, tirei bastante gozo a trabalhar nisso e a desenvolver a minha forma de mexer nesses sons. E, no fundo, gostei do resultado dos sintetizadores com a guitarra acústica.
Neste disco, sentes-te mais um cantor? Nos outros discos, eras mais um falador.
Há mais melodias neste disco, sim. Também tem a ver com o facto de ter começado a fazer isto com a guitarra, porque quando tu pegas numa viola e começas a fazer uns acordes e a cantarolar por cima, inconscientemente ou espontaneamente, eu vou à procura de determinadas melodias que me parecem bem para aquelas palavras que tenho escritas. E depois foram aparecendo essas melodias, algumas até mais fadistas. Depois, tive que procurar o meu tom dentro do cante. Porque uma coisa é quando cantas nos Peste & Sida por cima de uma parede sonora de guitarras e abres a goela e quanto mais gritares, melhor. Com som um muito mais despido, como é que a voz se vai encaixar em cima disto? Em certos casos, tive que alterar às vezes as tonalidades das músicas porque a voz já estava muito para cima, esganiçada, eu já estava muito para baixo. Então, arranjei aqui um meio termo, eu barítono, e arranjei aqui um meio termo em que a tessitura me ficasse confortável.
