Luis Varatojo em Luta Livre: "seria incapaz de tocar sempre o mesmo tipo de música"
Álbum de estreia do projeto, "Técnicas de Combate", é publicado hoje. Entrevista a Luís Varatojo.
Luta Livre é o projeto de intervenção que Luís Varatojo (ex-membro dos Peste & Sida, Despe & Siga ou A Naifa) estreou há um ano. Depois de ter lançado de forma avulsa temas ilustrados por vídeos ao longo dos últimos 12 meses, a Luta Livre lança nesta sexta-feira o álbum de estreia, "Técnicas de Combate".
Nesta modalidade de Luta Livre, Varatojo faz da rua a sua arena e esgana-se com as palavras na prática de vários tipos de combate, incluindo o combate rock. Apesar de ser um projeto mais politizado, Luís Varatojo não se vê como um comentador político, mas antes como um músico que expõe e deixa tudo em aberto.
Luís Varatojo faz da eletrónica o tapete principal para a multiplicidade dos seus golpes, aprofundando um campo com que estava familiarizado com a Linha da Frente e, mais recentemente, com os Fandango (a dupla que tinha formado com o acordeonista Gabriel Gomes).
Varatojo não está sozinho a carregar faixas e a empunhar cartazes, em "Técnicas de Combate". Os vocalistas e vizinhos Kika Santos (que cantou nos Loopless e se projetou nos Blackout) e João Pedro Almendra (o homem do centro do palco na época áurea dos Peste & Sida) juntam-se à Luta Livre, tal como os saxofones de Ricardo Toscano e de Edgar Caramelo e ainda dois coros diferentes, entre outros participantes.
Com muita vontade de pegar no megafone, Luis Varatojo faz-nos novo retrato à Luta Livre, agora que o álbum de estreia, "Técnica de Combate", já está cá fora.
Tens sido um músico e um esteta. Na Luta Livre, sentiste-te também um diretor artístico e um comentador político, de uma forma que nunca tinhas sentido?
A Luta Livre é o meu primeiro trabalho completamente a solo, apesar de ter colaborações. As composições são minhas, as letras também e praticamente todos os instrumentos são tocados por mim. Aí há grandes diferenças com os outros projetos, onde tinha sempre feito parcerias. Quando os convidados entram nas canções, têm o seu espaço mas já está tudo delineado. E obviamente que as decisões acabam por passar todas por mim. Não chamaria uma direção artística mas antes um controlo artístico do resultado de um trabalho exclusivamente a solo.
Talvez este seja o meu trabalho mais político que já fiz. Se bem não considero só político chamar as coisas pelos nomes, que é o que estou a fazer agora. A política pode ser feita de outra forma. Quando estamos a fazer uma coisa que vai contra o que está em voga, de uma certa forma estamos a fazer política. Quando conseguimos despertar as pessoas para determinados assuntos, que podem não ser política pura, isso acaba por ser também política. Os temas tratados pela Luta Livre são politicamente incorretos, sobre assuntos incómodos que estão aí mas que não se falam. Falo de política, sim, mas não como um comentador. Acho que estou a tentar mais expor as coisas do que propriamente a exercer um comentário sobre elas.
Tu disparas para vários sons e várias temáticas. A Luta Livre pode ser vista como um projeto multi-estilístico e multi-temático?
A Luta Livre é mesmo isso. Se fores ao dicionário, luta livre é freestyle, onde vale quase tudo. Já fiz várias coisas na minha vida em termos de música. Olho para trás e gosto de tudo o que fiz. Poderia ter feito de outra maneira, mas gosto de tudo o que fiz. Se me apetecer fazer uma música em que a sonoridade é mais punk-rock, eu faço, e há uma no disco ['Pedigree']. Se me apetecer fazer um fado, eu faço um fado, ou algo à volta do fado. Não quero ter nenhuns limites. Interessa-me sair da minha área de conforto. Acho que isso é interessante para quem ouve, nunca vão saber o que vão ouvir a seguir. Isso é o que faz mover isto tudo. Seria incapaz de estar a aperfeiçoar o mesmo tipo de música a vida inteira. Iria morrer mais cedo, de certeza.
O João Pedro Almendra [ex-vocalista dos Peste & Sida] dá a voz ao tema 'Pedigree'. Gostaste de voltar a tê-lo ao teu lado?
Sim, gosto muito do João Pedro, é um dos melhores performers nacionais. No palco, é mesmo uma fera. Sempre mantive o contacto com ele, vivemos em Alvalade. Esta colaboração tem a ver com o facto de nos vermos de vez em quando. Encontrávamo-nos no (clube notívago) Popular, que agora está fechado. De vez em quando, falávamos. Comecei a fazer algumas coisas com ele. Entre essas coisas, havia o 'Pedigree' que me pareceu que se enquadrava bem com todos os outros temas. E então decidimos acabar esse tema e pô-lo em condições de integrar o disco. Tenho mais algumas coisas com ele que vamos usar nos espetáculos que vamos fazer, onde ele participa também. Gosto muito da forma pura e espontânea como ele aborda as coisas. Tinha-o desafiado a sair da sua zona de conforto e da sua forma de cantar com aquela entoação e aquelas melodias muito agarradas ao punk e ao rock português. Disse-lhe: "era fixe contares aqui uma história e usares um registo mais falado e pores isso numa música". Muita gente não sabe mas ele é um excelente contador de histórias que domina a audiência. A história que é contada nessa música é a história dele. Ficámos a pensar qual deveria ser a história e ele sugeriu uma volta pelo bairro, com o cão como personagem principal, como um indivíduo que vai observando o que vê em frente. É um retrato do bairro. Ele mora neste bairro desde que nasceu há cinquenta e tal anos. O bairro mudou muito e a letra é um bocado esse reflexo. Acaba por ser uma história muito personalizada. Só ele é que poderia contar essa história, e de uma forma diferente do que a que tem feito.
Ser interventivo hoje implica ser ambientalista?
Sem dúvida. Se quisermos puxar para cima da mesa assuntos políticos e sociais, temos que puxar as questões do clima. Temos todos que fazer alguma coisa, quer sejamos interventivos ou não. Isto é uma coisa que vai tocar a todos. É um problema que vai tocar seriamente os nossos descendentes, pelo menos. Aliás, fiz questão de participar nalgumas manifestações pela malta mais nova. Finalmente, temos uma geração nova preocupada com um assunto em comum, o que não vinha acontecendo na última década, em que se notava algum afastamento numa participação física como grupo para poder influenciar opiniões. Com a questão do clima, isso aconteceu. Como tenho uma filha de 22 anos, fiquei orgulhoso. Fiz questão de ir a várias manifestações. Foi numa delas que fiz várias gravações, com palavras de ordem em cartazes que deram origem ao nome dessa música: 'O Problema É o Sistema'. A letra é toda feita com palavras e frases tiradas dos cartazes, tirando a apresentação do problema, em que falo da questão mais técnica. A parte da reação ao problema, "resolve o problema, boicota o sistema / lutar, criar, poder popular”" são frases que estavam escritas nos cartazes. A frase do Zeca [Afonso, do tema 'Venham Mais Cinco'], "não me obriguem vir para a rua gritar", estava escrita num cartaz. O que fiz foi juntar essa voz que se fazia sentir nessa manifestação. Este é um assunto a que ninguém pode fugir.
Tens saudades quando o sushi era no Japão?
Não, porque gosto muito de sushi. Sou um grande consumidor de sushi e de outras comidas. Ainda há bocado fui buscar uma pizza. Eu não tenho saudades desse tempo. Essa canção é um retrato de Lisboa no início dos anos 90. Tem um pé em 1992 e outro pé na atualidade. Acaba por ser uma descrição dessas duas épocas por comparação e deixo a interpretação para quem ouve. Dantes, não havia a Web Summit, mas já há havia uma elite que negociava com tupperwares e se reunia no Coliseu. Às vezes, passávamos por lá e estavam milhares de pessoas para as reuniões de tupperware. Não sei o que é melhor, se ver o David Bowie no Estádio de Alvalade, se ver 80 bandas no NOS Alive. Não sei. Ponho isso em perspetiva e exponho as situações. E deixo a interpretação em aberto. Não é de todo uma música revivalista, nem o seu contrário, deixa tudo em aberto.
Creio que já temos pelo menos seis vídeos. Estamos na iminência de um vídeo-álbum?
Isso era o ideal. Mas o que temos? DVDs? Eu detesto DVDs, nunca funcionam bem. Não sei como se podia fazer um vídeo-álbum mas faria todo o sentido. Os trabalhos de vídeo acabam por ser leituras das pessoas que os fazem, de temas que vou escrevendo, e acabam por ser trabalhos de autor. São muito importantes para reforçar aquilo que é dito nas músicas. A minha ideia era criar um canal de YouTube onde ia largando os vídeos neste formato, em que a imagem acaba por reforçar o conteúdo, as palavras e a estética. Tem a ver com o facto de estarmos confinados e de eu ter conseguido acabar uma série de músicas, a tempo de fazer o disco. O projeto inicial era ser mesmo um canal de comunicação. Mas esse projeto vai passar para os concertos. Vou usar todas essas imagens ao vivo, que vão ser manipuladas em palco tal como a música. Os concertos serão feitos com base nessas imagens. Não tenho o álbum audiovisual, mas vou ter o concerto.
Imaginas um espetáculo da Luta Livre como uma espécie de caravana a descer pela Avenida de Liberdade, em Lisboa?
Sim, se houvesse dinheiro para isso, era o que fazia. Punha isto em cima de uma camioneta e punha a música na rua. Mas isso custa dinheiro e não é muito viável fazê-lo. Uma coisa é fazer vídeos de animação e pô-los no YouTube, outra coisa é pôr isto em cima de uma camioneta e andar pela rua. Mas esse seria o meio ideal para fazer isto, mais até que no meio de um teatro. A música vai até onde há condições. Neste caso, aproxima-se mais dos palcos dos teatros e de alguns festivais onde haja condições para apresentar com essa vertente visual. Essa ideia do camião fica em aberto para alguém que quiser patrocinar. Eu iria para o Rossio sem qualquer problema.
Os temas da Luta Livre são acima de tudo falados. Admites vir a ter futuramente temas mais cantados na Luta Livre?
As coisas vão surgindo. Construí muito os textos a partir de notícias. As notícias são textos mais factuais, não é propriamente uma linguagem poética para se fazer canções. Se bem que fui limando e organizando, substituindo algumas palavras, para que esses textos encaixassem na música. Isto não é bem spoken word, não é um texto de improviso sobre a música. Não tem aquelas barreiras e aquela hermética do rap em que tem que se rimar sempre. É um misto entre as duas coisas. Estes textos só poderiam ser musicados desta forma. Mais melodias em cima destes textos só iriam distrair da mensagem e nalguns iriam torná-los um pouco ridículos. Não calha bem muitas notas elaboradas para estes textos. Encontrei este caminho que me soou bem e em que gostei de ouvir a minha voz neste contexto. E isso acaba por ser o mais importante para transmitir uma mensagem limpa. No futuro, logo se vê.
Olhando para Portugal, a Luta Livre vai fazer muita falta nos próximos tempos?
Vai fazer mais falta que nunca, pelo que estamos a ver. A primeira música e vídeo que lancei foi 'Política', que tem a ver com o principal problema que estamos a viver: a falta de interesse pela política e pela participação, o que nos leva à abstenção, à não-intervenção na escolha e no processo político. Isso vem do que temos vivido nas últimas décadas, com muita gente a trabalhar numa alienação coletiva, em que pouco interessa falar destes assuntos. Interessa mais um entretenimento puro. Senti-me empurrado a escrever estas coisas, de há dois anos para cá. Agora a situação está ainda mais grave e preocupante e todas as vozes são necessárias para esclarecer e para pôr as pessoas a pensar em assuntos que importam a todos. Há um tema que se chama 'Terra', em que fala das pessoas na América Latina ou em África, em locais com pouca visibilidade mediática, que dão a vida para defender a sua terra, o clima, o ambiente, e que são atacados diariamente pelas grandes corporações que vão distribuir minérios, matérias-primas, etc. Esse é um assunto que não nos chega. Quando me confrontei com dezenas de notícias que pesquisei, achei que devia falar sobre isto porque é um assunto que nos toca a todos. É uma injustiça que estejam a defender aquilo que é de todos e o assunto seja totalmente escamoteado.
