Macklemore afastado da digressão de Ed Sheeran após discurso de apoio à Palestina
Algumas salas de espetáculo ameaçaram cancelar os concertos de Sheeran nos Estados Unidos, caso o rapper permanecesse na digressão.
O rapper Macklemore foi afastado da digressão do britânico Ed Sheeran após ter feito discursos de apelo à libertação da Palestina, algo que o norte-americano tem feito com frequência nos concertos em nome próprio.
A polémica estalou no início deste mês depois de a cantora Pink ter criticado publicamente o discurso de Macklemore durante o concerto no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, nos Estados Unidos - um dos espetáculos inseridos na tour de Sheeran.
Macklemore, que estava a fazer a abertura dos espetáculos, está agora fora da digressão na sequência da decisão de vários estádios que recusam receber o artista depois das declarações proferidas.
De acordo com a "Rolling Stone", os estádios ou recintos notificaram a Messina Touring Group (promotora da digressão) de que não iriam permitir a realização de concertos que incluíssem Macklemore. Na mesma declaração, citada pela revista, caso a promotora não afastasse o rapper "a digressão seria cancelada, o que "impactaria centenas de milhares de fãs". Resultado: das 10 atuações do rapper previstas na tour, oito foram canceladas.
Em resposta ao sucedido, Macklemore emitiu ontem (14 de setembro) um comunicado, nas redes sociais, a explicar o que aconteceu. O rapper afirmou que foi o pró-israelita Robert Kraft (CEO do Kraft Group e dono da equipa de futebol americano New England Patriots) que terá organizado o boicote ao rapper entre os vários estádios devido às declarações proferidas.
Já Robert Kraft, citado pela norte-americana "NBC News", justificou que a tomada de decisão foi baseada nas declarações do rapper mas também “numa história mais ampla de retórica e de imagem” que acredita “terem sido profundamente ofensivas e dolorosas para a comunidade judaica”.
Kraf acrescentou: “esta decisão não é para diminuir o sofrimento dos palestinianos inocentes ou para negar a alguém o direito de defendê-los. A dor e perda que sofrem são reais. Mas essa defesa não deve acontecer à custa da comunidade judaica ou não deve obscurecer a responsabilidade do Hamas, uma organização terrorista designada pelos Estados Unidos e globalmente (incluindo Canadá, União Europeia, Reino Unido e Japão), cujas ações horríveis causaram um sofrimento imensurável tanto para palestinos quanto para israelitas.”
O comunicado de Macklemore e a posição de Ed Sheeran
Na conta oficial de Instagram, Macklemore esclarece: "não sei bem como começar isto. Então, vou escrever com o coração e partilhar a verdade. Ed Sheeran e a equipa que o acompanha tomaram a decisão de me remover da digressão 'The Loop'", começou por dizer o rapper.
"Mas antes de aprofundar o assunto, quero dizer algo que deveria ser óbvio. Acho que é o que mais importa. Eu não sou uma vítima. O Ed Sheeran não é uma vítima. A Pink não é uma vítima. Temos carreiras, dinheiro, oportunidades, segurança e público em qualquer parte do mundo. Quaisquer que sejam as consequências que possamos ter de enfrentar pelo que dizemos podemos sempre voltar para nossas famílias", acrescentou.
"As vítimas são o povo palestino. São os homens, as mulheres e as crianças que foram mortos, que estão a passar fome, que ficaram sem casa e que vivem situações de violência inimaginável. Só em Gaza mais de 20 mil crianças foram mortas. Há pessoas que estão a ser mortas hoje e que vão ser mortas amanhã. Quero que isto não seja esquecido", reforçou Macklemore, explicando depois o sucedido.
"O Ed disse-me que o Kraft lhe tinha dito que eu não podia atuar no estádio [o Gillette Stadium] do qual é dono”, esclareceu o músico, afirmando que a decisão teria sido seguida por outros proprietários de estádios que fazem parte do circuito da digressão.
O rapper reconheceu que Sheeran, a quem chamou de amigo, ficou numa posição difícil, sobretudo por questões financeiras e relacionadas com a carreira, e sublinhou que as posições de ambos não convergem.
“O típico posicionamento apolítico de Sheeran foi desafiado como nunca tinha sido antes. O Ed disse-me que as palavras ‘Liberdade para a Palestina’ e a imagem da bandeira da Palestina eram dolorosas para muitas pessoas com quem conversava. E eu respondi que se essas palavras eram mais ofensivas do que o facto de dezenas de milhares de crianças palestinianas estarem a serem mortas por Israel, então havia uma desconexão fundamental entre a posição dessas pessoas e a minha posição. Mas ele não conseguiu superar a postura pública e disse-me, 'eu não tomo partidos'", continuou o rapper que assegurou, porém, querer manter a amizade com Sheeran.
O que disse Macklemore em Nova Jérsia
Macklemore tem sido um dos artistas norte-americanos mais vocais em relação à atuação de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Num dos concertos que deu no estádio MetLife, o músico reforçou a mensagem de libertação da Palestina, mas também a de igualdade e justiça para todos os povos. "Quero dizer estas palavras bem alto para que as pessoas em Gaza saibam que não são esquecidas", disse no discurso. “A todos os meus irmãos e irmãs judeus, criticar Israel, criticar o apartheid e ser contra o genocídio não é, de forma alguma, uma crítica a vocês”, esclareceu Macklemore, fazendo ainda alusão à libertação do Líbano, de Cuba, do Congo, do Sudão e das pessoas nos Estados Unidos que sofrem com as ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
A reação de Pink
A cantora norte-americana fez estalar a polémica quando usou as redes sociais para reagir ao discurso do rapper. Pink deu a entender na publicação que os fãs judeus presentes no estádio mereciam um pedido de desculpa e deveriam ser reembolsados após as palavras de Macklemore.
Após ser alvo de várias críticas, Pink voltou a comentar o assunto na conta oficial de Instagram. “Não falo por Israel ou por qualquer governo. Disse aquilo em que acredito: o Hamas é uma organização terrorista. Os palestinianos merecem um futuro que honre a sua humanidade e as suas aspirações. A prioridade devia ser sempre a de proteger vidas inocentes. Nunca ninguém devia celebrar a morte de uma criança", escreveu a cantora.
