Mafalda Veiga atua em Lisboa e no Porto: "quero que as pessoas saiam dos concertos de alma cheia"

A cantora e compositora atua a 17 de janeiro no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e a 24 de janeiro na Casa da Música, no Porto. 

Mafalda Veiga vai atuar em Lisboa e no Porto para apresentar o espetáculo "O Inverno Não Dura Tanto Quanto Parece" ao lado do Ensemble Ibérico que é composto por Luís Zagalo (piano, teclas e arranjos), David González (violino), Fernando Arce (bandolim e violoncelo) e Hugo Monteiro (contrabaixo).

A cantora e compositora atua a 17 de janeiro no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e a 24 de janeiro na Casa da Música, no Porto. 

O espetáculo "O Inverno Não Dura Tanto Quanto Parece" é "uma viagem envolvente pela sua 'geografia particular' [nome do EP editado em 2024]: das canções mais emblemáticas (como 'Planície', 'Restolho' ou 'Cada Lugar Teu'), a temas mais recentes ('Óscar' ou 'De Fio a Pavio'), passando ainda pela estreia ao vivo de canções inéditas do seu próximo disco de originais", refere o comunicado de imprensa. 

"Um concerto de tons ibéricos, intenso e caloroso, onde cada canção encontra a sua dimensão mais pura, e que reflete a maturidade e, ao mesmo tempo, a contemporaneidade do trabalho da artista, nesse 'lugar seu' entre a memória e o futuro", lê-se ainda na nota.
 

Entrevista a Mafalda Veiga

Como é que começaste a idealizar este espetáculo? E porque é que lhe deste o nome de "O Inverno Não Dura Tanto Quanto Parece"?

Houve um primeiro convite para fazer um concerto com o Ensemble Ibérico, sendo que já aconteceu há já algum tempo. Foi assim que os conheci. Houve um primeiro encontro, ensaiámos algumas canções. E depois, gosto muito de cordas. Gosto muito do conceito de mini orquestra. Do conceito de orquestra mini desk. E nunca tinha tocado apenas com esse tipo de formação. Ou seja, já tinha incluído nos espetáculos mas com uma banda a acompanhar. Então, a ideia surgiu após conhecer o Luís Zagalo e o Ensemble Ibérico. E também porque atualmente estou a trabalhar - com o João Só - em temas novos. São temas que, embora tenham um pouco desta vertente clássica, estão mais virados para a música pop. Um desses temas chama-se precisamente "O Inverno Não Dura Tanto Quanto Parece". A ideia andou à volta deste desejo porque odeio o inverno. (risos) E depois foi juntar uma equipa, da qual gosto muito, para começarmos a mostrar o trabalho que estamos a fazer.

Ainda sentes nervosinho quando mostras uma canção nova ao público?

Sinto sempre. Mas acho que é bom ter sempre uma certa insegurança. Quando estamos muito seguros em relação a alguma coisa é mais difícil ouvirmos o que os outros têm para nos dizer. E há feedbacks que são importantes, mesmo que não estejamos de acordo. É bom ouvir. É bom perceber para tentar fazer melhor.

Ainda em relação à frase que ligas aos espetáculos, escreves: "o Inverno não dura tanto quanto parece e há um certo encanto neste abraço que aquece. A vida não esconde o que sempre procura, uma chama mais pura"…

Há verdade na música. Quando se é compositor, escritor ou artista, há uma verdade em nós. Há algo que procuramos sempre. É isto que está nesse refrão. Pode ser entendido de forma literal, mas também pode ser lido de uma forma absolutamente metafórica. Nesse sentido - sobretudo nas alturas mais duras - é sempre bom ter alguém ao nosso lado. É sempre bom receber o tal abraço que aquece. No fundo, andamos sempre à procura dessa verdade em nós. Não queremos que essa chama se apague. Seja a paixão pela música, pela vida, pelos nossos amigos ou pelas coisas que nos inspiram para escrever. A canção fala um pouco sobre isso.

E em relação ao espaço, à cenografia, às próprias salas onde vais atuar…

Não é só a banda ou os músicos que constroem um espetáculo. Um espetáculo é construído com as equipas que trabalham o cenário, o som. É com estas equipas que definimos o que queremos fazer. Estou a trabalhar no cenário com a Cátia, a minha técnica de iluminação que é da FX Roadlights. É a técnica de iluminação que trabalha comigo há muitos anos. Já fizemos muitos cenários juntas. Fizemos cenários muito giros e também já experimentámos milhares de coisas. A proposta dela para estes concertos vai resultar em algo muito bonito.


Mas é surpresa, certo?

É surpresa, claro.

Como foi escolher o alinhamento, sendo que, segundo sei, vais andar entre clássicos e inéditos?

Sei que há canções que têm de fazer parte do alinhamento. Seria defraudar as pessoas, se não cantasse determinadas canções. Eu ponho-me no lugar do público. Sei bem o que é ir a concertos em que os artistas, não sei bem porquê, deixam de fora canções que eu adoraria ouvir. Eu gosto de cantar essas canções, posso é não conseguir cantar todas. Há, por exemplo, temas que o Luís Zagalo sugeriu que voltasse a cantar. Além de ser o diretor musical do Ensemble Ibérico, o Luís conhece muito bem o meu trabalho. E por isso sugeriu canções que funcionam muito bem com a formação do ensemble. Foi bom pegar em canções mais antigas e voltar a tocá-las desta maneira, com cordas. Dá a profundidade e a intimidade que um pequeno ensemble consegue encontrar. E depois, dos novos trabalhos que fiz, escolhemos as que funcionam melhor com esta formação. Também vou estrear ao vivo dois ou três inéditos do próximo disco que estou a fazer com o João Só.


Houve algum arranjo que te tivesse surpreendido particularmente, sobretudo nas canções com mais idade?

É sempre surpreendente. E foi principalmente surpreendente neste caso. Por norma, quando incluo músicos de música clássica, com violoncelo ou naipes de sopros tenho sempre uma banda em palco a acompanhar. (…) Todos os arranjos me surpreenderam, porque a lógica é completamente outra. Acho que as canções ganharam uma dimensão diferente. As palavras ficaram mais à frente, a fazer outros sentidos. As canções estão a soar completamente à sua essência, mas os espaços e as sonoridades destes sons mais orgânicos e clássicos permitem que as palavras ganhem dimensões diferentes, permitem que nos coloquem noutro sítio. E isso aconteceu com algumas canções.

É a beleza da música…

É a beleza da música.

Tens trabalhado com o João Só e por isso quero saber qual é a tua opinião sobre a nova geração de cantores e compositores portugueses. Acompanhas o sangue criativo novo destes artistas? 

Acompanho. Absolutamente. E gosto muito do trabalho que estão a fazer. Gosto muito das colaborações que tenho feito com este pessoal mais novo. Há gente nova a escrever muito bem. Nós temos uma escola incrível. É bom não esquecer essa escola. Às vezes, olhamos para a música atual e achamos que é a “última Coca-Cola do deserto”, mas, quer dizer, temos um Sérgio Godinho, um Jorge Palma, um Fausto ou um José Mário Branco. Temos uma escola extraordinária. Acho que, a partir dessa escola, há gente a fazer música muito interessante e há pessoas a desconstruir o que é escrever em português. Não é assim tão fácil escrever em português. É uma língua mais fechada e tem truques. É bom saber esses truques. É uma língua com uma musicalidade muito própria. E há uma relação com as palavras que, na minha opinião, temos vindo a desconstruir. Sempre houve alguma cerimónia com a língua portuguesa. Falo do cuidado com o tipo de palavras que usamos para cantar. Nos dias de hoje, isso está a desmontar-se de uma forma muito interessante.

E como é trabalhar com o João Só? Ele tem trabalhado com muitos artistas, não sei como é que arranja tempo para todos…

O João organiza-se muito bem. É muito rápido, muito intuitivo e muito inspirado. E, além disso, é uma pessoa que tem muitas referências. Sabe muito sobre música. É fácil descobrir caminhos com ele. Se eu lhe der uma referência, ele conhece. E, por sorte, temos muitas referências semelhantes. Tem sido muito bom trabalhar com o João. Tem sido mesmo muito bom. E estamos agora a trabalhar no próximo disco. Portanto, as canções que vou estrear ao vivo vão estar um pouco despidas porque ainda estou a trabalhá-las com o João para o novo álbum.

E o que podemos saber sobre o novo disco?

Eu trabalho as canções como se cada uma fosse um pequeno universo. Como se cada canção fosse um capítulo de uma série. Depois chamamos os músicos que fazem sentido para cada um dos temas. Ele já tem nas mãos uma série de canções que escrevi. E dessas canções vamos escolhendo uma a uma para depois trabalhá-las. Já temos algumas prontas, mas há outras que estão apenas alinhavadas. Sabemos quais os músicos que vamos chamar, que sonoridade vão ter mas ainda estamos com a mão na massa.

Tudo a seu tempo…

Tudo a seu tempo. Ainda não sei o que vai acabar por resultar. Agora posso dizer que estou muito contente porque o EP "Geografia Particular" - que fiz com o João Só e com o Agir - vai sair numa edição em vinil. É uma edição muito especial que vai estar disponível nos concertos. A capa é da Isabel Pinto. Está muito bonita. Tem as canções do EP e uma canção extra que gravei, entretanto.

Já que falas no "Geografia Particular", como é que correu essa experiência?

Gostei muito. Não só gostei da experiência musical, como achei graça ter editado o primeiro EP apenas no digital e ter construído uma landing page no meu site [mafaldaveiga.pt.]. Não estão apenas lá as músicas, estão também os vídeos para os quais convidei vários realizadores, alguns deles só ligados ao cinema. Nunca tinham feito videoclipes, como é o caso do David Bonneville ou do Tomás Baltazar. O André Tentúgal também fez. E eu própria.


Foi muito interessante poder mostrar tudo isso. Estão lá textos sobre as canções, vídeos, impressões minhas sobre os temas ou os making ofs das canções. Mas depois ficou a faltar o formato físico, daí ter feito esta edição. Acho que vamos sempre precisar do que é orgânico. Por isso, é que agora de repente anda toda a gente a comprar walkmans. As pessoas precisam do que é orgânico, precisam de pegar nas coisas. Esta edição em vinil está a deixar-me super feliz. Não só porque é algo que fica. E eu queria muito que este disco se tornasse em algo que eu pudesse pegar e mostrar. Acho que vamos estar sempre ligados ao que é orgânico, ao que contacta com a pele.

Para terminar, quero que me resumas que vai acontecer nestes dois concertos…

Como qualquer artista que constrói um espetáculo, aquilo que espero que conseguir fazer com que aquela noite seja inesquecível para quem vai. Quero que seja uma noite boa para guardar. Quero que as pessoas saiam dos concertos de alma cheia e que se lembrem do concerto durante muito tempo. O espetáculo está a ser construído com esse amor e essa dedicação para que seja uma noite especial. Aliás, duas noites especiais.