Maidy Lacerda vira os contos de fadas do avesso porque acredita que "os vilões podem mudar"
Depois do sucesso da saga Princesa Desastrada, a autora brasileira Maidy Lacerda resolveu dar voz a Scorpio, o antagonista que conquistou os fãs precisamente por não caber no molde tradicional do vilão.
Foram os leitores que insistiram, que pediram, que queriam saber o que se passava na cabeça do rival da Princesa Desastrada. E Maidy Lacerda ouviu-os. O "Caderno de maldades do Scorpio" chega este mês a Portugal.
“Os fãs amam muito o Scorpio por causa do Diário da Princesa Amora”, conta Maidy Lacerda. “Muitas pessoas pediam-me: ‘Escreve o diário do Scorpio, conta como ele vê a princesa Amora. Será que ele gosta dela? Ou ele finge ali que não?’” A ideia nasceu desse apelo insistente do público, mas rapidamente ganhou autonomia. O que poderia ter sido apenas uma repetição da história sob outro ponto de vista transformou-se num livro completamente novo. “Não é apenas um copia e cola da primeira história”, sublinha. “Tem muitas coisas que a Amora não viu o Scorpio fazendo. Ele tem a família dele, os sonhos dele.”
O maior desafio foi precisamente evitar a repetição. “Foi muito difícil, principalmente com essa ideia de evitar que seja a mesma história novamente.” A autora teve o cuidado de criar uma aventura inédita, expandindo o universo narrativo sem cair na redundância. E a resposta dos leitores confirmou que o risco valeu a pena. “Depois que leram o Diário do Scorpio, mandavam mensagem a dizer: ‘O livro é completamente uma história nova. Mesmo lendo o primeiro, eu não imaginava o que ia acontecer.’”
No centro do livro está uma questão mais profunda do que parece à primeira vista. Scorpio é filho de uma vilã que quer destruir o reino, mas ele começa a questionar esse destino. “Ele percebe que não quer isso. Ele não acha isso certo.” Para Maidy, esta é uma metáfora clara dos dilemas vividos na adolescência. “Na vida real não temos crianças com mães vilãs que querem destruir reinos, mas elas vivem outros dilemas: quem eu sou? O que eu quero fazer? Quero seguir a mesma profissão dos meus pais?” O livro acaba por funcionar como espelho emocional para leitores em transição, ajudando-os a compreender que identidade também é escolha.
A própria autora acredita na possibilidade de mudança. “Eu acredito muito que os vilões podem mudar”, afirma. Na sua construção narrativa, a maldade não é essência imutável, mas consequência de histórias e circunstâncias. “O vilão foi transformado nisso, mas ele também tem a escolha de não seguir pelo lado mau. A melhor escolha é fazer o certo.” Scorpio encarna exatamente essa tomada de consciência ao longo da narrativa.
Apesar da densidade do conflito, o humor é uma marca forte do livro. “É um dos que eu mais me divirto para escrever”, admite. Parte dessa leveza vem de Floriante Viajante, o melhor amigo excêntrico de Scorpio, e dos seus gnomos de nomes improváveis como Valdemiro II ou Gariberto IV. “Ele sempre comenta alguma coisa inesperada”, explica, reconhecendo que essa dimensão cómica equilibra a tensão emocional da história.
Hoje, o processo criativo já é diferente. Se no início não imaginava que o universo teria um desdobramento paralelo, agora escreve já a pensar nas duas perspetivas. “Quando escrevo Princesa Desastrada, eu já escrevo na minha cabeça o Escorpiu também.” A intenção é clara: criar um paralelismo contínuo entre os volumes da princesa e os do seu antigo rival.
Em visita a Portugal para apresentar o livro, Maidy descobriu algo que a surpreendeu pela semelhança. “Os leitores portugueses falam a mesma coisa que os brasileiros. Amam os mesmos personagens, as mesmas cenas.” Entre sessões de autógrafos e encontros com fãs, percebeu que a emoção atravessa o Atlântico sem perder intensidade. “É muito gostoso perceber que a história rompe essa barreira de países.”
Há ainda um fator decisivo para o ritmo cinematográfico das suas obras: a formação em cinema, com especialização em roteiro e animação. “Eu estudei muito o uso da cor na construção de narrativas. A capa tem essas cores para despertar emoções.” Esse conhecimento técnico reflete-se também na escrita. “Eu sei como descrever cenas de ação, como construir as frases para o leitor ficar com o coração acelerado, como se estivesse assistindo a um filme.” Para a autora, essa base foi determinante para o sucesso da saga.
No universo criado por Maidy Lacerda, os contos de fadas deixam de ser histórias de bons e maus absolutos para se tornarem narrativas sobre escolhas e crescimento. Scorpio já não é apenas o rival da princesa. É um jovem à procura de si mesmo e talvez seja essa humanidade que explica por que razão tantos leitores torcem por ele.
