Ainda há mais de mil alunos sem vaga no ensino público

Reestruturação do Ministério da Educação reduziu a capacidade de organizar e redistribuir alunos, situação que pode piorar com o aumento das aposentações.

A FENPROF (Federação Nacional dos Professores) denuncia que ainda há cerca de setecentos alunos em Sintra e mais de quinhentos na cidade de Lisboa estavam sem aulas. José Feliciano Costa, secretário-geral da federação, destacou que "esta situação provavelmente acontece pontualmente em muitas escolas do país, com maior destaque nas áreas metropolitanas". A reunião esta segunda-feira entre os diretores das escolas da área de Lisboa e o Ministério da Educação sobre a situação das vagas escolares em Lisboa durou cerca de sete horas. O ministro da Educação, doutor Fernando Alexandre, confirmou que foi resolvida, permitindo que todos os alunos tivessem uma colocação a partir do dia seguinte.

A solução encontrada para o problema das vagas foi a inclusão de mais alunos nas turmas já existentes, em vez de criar novas turmas. José Feliciano Costa explicou que "não há necessidade de criar novas turmas", uma vez que as turmas existentes foram alargadas para acomodar os alunos que não tinham escola. Esta abordagem, embora prática, levanta questões sobre a logística e a capacidade dos docentes em lidar com turmas maiores.

O secretário-geral reconhece que "poderá ser um constrangimento", mas enfatizou que a prioridade deve ser garantir que os alunos não fiquem sem educação. Ele sublinhou que "os alunos não podem ficar em casa", referindo-se ao direito constitucional à educação. Este dilema é recorrente, pois todos os anos surgem situações em que alunos transferidos de outras escolas precisam ser integrados em turmas já formadas.

A falta de vagas é um problema que se repete anualmente, mas que este ano está particularmente acentuado. A migração de alunos do ensino privado para o público, motivada por razões econômicas ou pela confiança na qualidade da escola pública.

Mas não é um cenário limitado a Lisboa, o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, menciona, "esta é uma situação que provavelmente acontece pontualmente em muitas escolas do país", mas com maior impacto nas áreas metropolitanas.

Outro dos fatores que contribui para esta crise é a reestruturação do Ministério da Educação, que levou ao desmantelamento de várias estruturas responsáveis pela organização e redistribuição de alunos. Lima explica que as reuniões que anteriormente permitiam uma gestão eficaz da mobilidade dos alunos foram interrompidas, resultando em "centenas, que podem ser milhares de alunos sem aulas". Este desmantelamento teve repercussões diretas na capacidade de resposta da administração educativa, evidenciadas pelo caos nos exames.

A falta de professores é outro problema crítico. Filinto Lima sublinha que "a carreira docente é a carreira mais envelhecida da Europa", o que resulta numa elevada taxa de aposentação. Apenas em setembro, mais de quinhentos professores se aposentaram, e as previsões indicam que, nos próximos anos, cerca de quatro mil professores poderão deixar o sistema anualmente. Este cenário agrava a situação, uma vez que "não há ninguém que os substitua".

A solução temporária apresentada pelo Ministério, que envolve a alocação de professores de apoio, não resolve a questão fundamental da falta de professores qualificados. Além disso, a sobrecarga nas turmas já existentes, com turmas do primeiro ciclo a ultrapassarem os vinte e cinco alunos, levanta preocupações sobre a qualidade do ensino. O presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas alerta que "os problemas vão-se agravando por comparação com as mesmas datas do ano passado", o que indica que a crise das vagas nas escolas poderá persistir se não forem tomadas medidas efetivas para atrair e reter professores.