Mais que uma onda, as marés bem vivas dos Xutos
Concerto de 75 minutos foi glorioso como sempre, no festival gaiense.
Os Xutos voltaram a ser Xutos, no MEO Marés Vivas. É o mesmo que dizer, foram triunfais e adorados, no recinto do antigo Parque de Campismo da Madalena, já repleto de gente.
Um X em neón no palco decora o atual palco dos Xutos & Pontapés, desta digressão “Salve-se Quem Puder”. ‘Para ti Maria’ abre o alinhamento de um concerto diante de um público ainda mumificado e ainda a refazer-se do jantar comido à pressa. À quarta música, o caráter mítico dos Xutos começa a sobrepor-se, com o ‘Esquadrão da Morte’.
“Há certas coisas que custam a desaparecer”, um lamento que Tim aproveita para fazer, sobre um tema acerca das rusgas policiais e limpezas de pobres das ruas na América Latina, numa das suas melhores letras de sempre. O tema tem um carácter mais universal e pode passar a ser também sobre o que está a passar nos Estados Unidos e na repressão aos palestinianos no Médio Oriente.
Na música ‘Dá um Mergulho’, Tim não consegue esconder o sorriso por trás dos óculos escuros redondos, que nos impedem de ver o seu olhar. Depois de uns saltos com a multidão, Tim arrisca o anti-clímax com a música ‘O Falcão’, “mais uma música sobre entreajuda”, com os contornos acústicos que lembram ‘Nothing Else Matters’ dos Metallica, mas cuja complexidade vai muito além.
Em ‘Chuva Dissolvente’, só o trabalho de milhares de trilhos de guitarra de João Cabeleira, sempre com o seu chapéu de cowboy, devia inspirar um manual técnico muito volumoso. Depois, o solo de bateria de Kalú, a atrair um jogo de luzes, prenuncia ‘Remar Remar’, a canção enorme de superação, uma música rock emblemática com uma densidade melancólica que só poderia ser composta por um português. João Cabeleira desliza com os dedos pelas cordas da guitarra elétrica com o talento com que Pelé dominava a bola. Kalu grita “hey” e “hey”. O baixo vigoroso de Tim segura a canção mais um pouco, num repouso, até a canção ser reavivada por outro solo de guitarra de Cabeleira.
Só a partir do tema ‘Circo de Feras', o público desperta e acalora o tema, emoldurado por um apontamento de Gui no saxofone a rematar a canção. Tim apresenta ‘Não Sou o Único’ como a música que Zé Pedro nos deixou. E então, Tim não é de facto o único a olhar para o céu e para o bro eterno Zé Pedro, parece que todos os olham. E aí os Xutos e os xutoólicos olham todos para o céu e se reerguem como grande manos. Mas a grande irmandade continua nos temas seguintes. ‘À Minha Maneira’ é tão arrebatador, que até a roda gigante em frente ao palco acelerou na circulação. Foi um acaso… ou um caso de espiritualidade. ‘Ai Se Ele Cai’ provoca mais sorrisos na multidão, antes de ‘A Minha Casinha’, e aí é toda uma claque de 40 mil pessoas pelos Xutos, a entoarem a famosa versão de um clássico português de um outro tempo.
Ainda haveria encore, o ‘Homem do Leme’, na sua encarnação acústica, de quem “já nada teme”. Os Xutos foram “mais que uma onda, mais que uma maré”, foram várias marés, bem vivas, os tais “mares convulsos” antes cantados em ‘Remar Remar’
Antes, em palco, esteve Marcus King, com a sua Marcus King Band - mais quatro músicos. Trouxe a América consigo, na indumentária de cowboy e no blues de raízes americanas e na soul envolvente. O norte-americano de 29 anos veio com o pacote completo: é magnífico cantor e guitarrista e tem consigo uma banda que é um Chevrolet dos instrumentos. Tem outro solista na guitarra slide e um organista que é precioso nas harmonias e por vezes ganha até um protagonismo melódico. A música de Marcus King parece saída de um bom vinil dos anos 70 ou dos anos 60.
Muito público abordou este concerto de King como um intervalo e desmobilizou para jantar ou para descansar sentado. Curiosamente, parecia haver mais público para a banda anterior, os Hybrid Theory.
