Malo Bourgon: Será difícil para Europa competir na fronteira da IA

Na viagem de Trump à China foi manifestado o desejo de haver diálogo com os chineses sobre as salvaguardas para a IA.

O presidente executivo (CEO) do Machine Intelligence Research Institute (MIRI) considera que será muito difícil para a Europa ou para qual outro país que não os EUA ou a China competir na fronteira da IA.

"Acredito, de facto, que será muito difícil para a Europa - ou para qualquer outro país que não os EUA ou a China — competir realmente na fronteira, simplesmente devido ao elevado custo e aos desafios envolvidos, bem como à rapidez com que a tecnologia [de IA] evolui", diz Malo Bourgon, que falava à Lusa a partir de Berkeley, EUA.

Apesar de considerar que há espaço para que todas as diferentes potências mundiais comecem a dialogar sobre inteligência artificial (IA), obviamente que "os dois principais protagonistas no desenvolvimento desta tecnologia, atualmente, são os EUA e a China", refere o CEO do instituto de investigação sem fins lucrativos, com sede em Berkeley.

"O mundo está dividido de várias formas e há muitos problemas de confiança entre os EUA e a China, para dizer o mínimo, mas as coisas também podem mudar muito rapidamente", admite.

Aliás, com o lançamento do Mythos [Anthropic] "passámos de um cenário em que o governo norte-americano falava sobretudo em deixar a indústria da IA seguir o seu próprio curso — ao mesmo tempo que procurava, de certa forma, a supremacia na área — para uma situação em que, muito rapidamente" os EUA impuseram controlos de exportação ao modelo mais poderoso existente, chegando ao ponto de nem sequer permitir que os próprios americanos o utilizassem de forma eficaz, recorda.

Do lado da China, "é muito mais difícil chegar a um entendimento, mas estão a realizar várias ações de regulação interna, e as suas declarações públicas têm sido muito mais cautelosas quanto a questões como a AGI [General Artificial Intelligence ou inteligência artificial Geral] e a superinteligência, bem como o que isso poderá significar", prossegue.

No âmbito da viagem de Trump à China foi manifestado o desejo de haver diálogo com os chineses sobre as salvaguardas para a IA, portanto, "são todos sinais iniciais", mas "não são soluções para o problema".

Malo Bourgon salienta que nos últimos seis meses a conversa sobre IA mudou à medida que as capacidades da tecnologia despertaram para quão poderosos os modelos podem ser.

Por isso, não será fácil, "mas parece-me possível" que os governos comecem a debater o desenvolvimento da IA.

Malo Bourgon admite que é "muito difícil para muitos países e empresas competirem", dadas as exigências de talento e elevado investimento em infraestruturas necessárias para construir sistemas de IA de ponta.

Por isso, "acredito que — à exceção das principais empresas dos EUA (como a Google, a Anthropic e a OpenAI), que lideram o avanço tecnológico nesta área, e de algumas empresas chinesas que as seguem de perto — será extremamente difícil para a maioria dos outros atores do setor competir com estas empresas, a não ser que invistam montantes muito mais elevados e atraiam os melhores talentos a uma escala muito superior", salienta, o que retira a Europa da equação.

Malo Bourgon diz acreditar que "o papel mais poderoso" que a Europa pode desempenhar é o de "expressar, no panorama internacional, as suas preocupações quanto ao percurso desta tecnologia e ao rumo que está a tomar".

Sobre a IA, o responsável diz que se trata de "uma espécie de metatecnologia".

Ou seja, "não só se desenvolve mais rapidamente e tem o potencial de ser mais disruptiva do que qualquer tecnologia do passado, como é uma tecnologia que nos ajudará — à medida que se torna mais dotada de capacidade de agir por conta própria — a inventar tecnologias novas e ainda mais poderosas", aponta.

"Mesmo deixando de lado o risco que me preocupa — o da perda de controlo e extinção da humanidade — e mesmo desconsiderando os riscos de segurança nacional associados à dupla utilização de modelos com capacidades cada vez mais poderosas, são estes os objetivos destas empresas": construir sistemas de IA capazes de realizar, essencialmente, "aquele tipo de atividade cognitiva que nós realizamos", semelhante à dos seres humanos.

Em certo sentido, "trata-se de automatizar o processo de automação. E acredito que faz sentido pensar nas futuras versões desta tecnologia cada vez mais como uma outra espécie inteligente que estamos a introduzir no planeta, em vez de apenas ferramentas que os humanos utilizam no decorrer do seu trabalho ou das atividades que realizam", defende.

As empresas de IA "estão a falar sobre como acreditam que há 60% de hipóteses de, até ao final de 2028, automatizarem o próprio processo de investigação e desenvolvimento" da tecnologia, passando os sistemas de IA a construir os seus sucessores, "que serão mais poderosos e mais inteligentes, mais capazes de criar a próxima geração".

Por isso, "espero que esta seja a tecnologia mais poderosa e disruptiva que os humanos já desenvolveram em toda a sua história", conclui Malo Bourgon.