Manolo Bello recorda Joaquim Letria: “A minha gratidão será eterna”
O produtor televisivo destaca o papel decisivo de Joaquim Letria na sua carreira, a capacidade de improvisação, o respeito pelos entrevistados e a defesa intransigente da liberdade de expressão. “Sofro como se fosse uma pessoa de família que tivesse morrido”.
A morte de Joaquim Letria, aos 82 anos, representa uma perda profunda para o jornalismo e para todos aqueles que tiveram o privilégio de trabalhar com ele. Manolo Bello, que encontrou no histórico jornalista uma das figuras mais marcantes da sua carreira profissional, recorda-o com emoção, gratidão e a convicção de que o seu legado merece ser preservado pelas novas gerações.
“É pena, pena, pena. Uma pena tremenda”, afirmou o produtor televisivo Manolo Bello, visivelmente abalado com a notícia da morte do jornalista, que tinha conhecido através do trabalho na comunicação social. A ligação entre os dois foi muito além da relação profissional porque "Joaquim Letria foi o homem que lhe abriu as portas da televisão e com quem aprendeu, ao longo de anos, uma parte essencial da profissão".
“Foi o Joaquim Letria que me deu a primeira oportunidade para trabalhar num meio de comunicação”, recordou. Uma oportunidade que nunca esqueceu e pela qual garante sentir uma dívida de gratidão para toda a vida.
“Foi a pessoa com quem mais aprendi, a pessoa com quem mais prazer me deu trabalhar”, sublinhou, evocando os muitos momentos partilhados em televisão e a aprendizagem constante que representava cada jornada ao lado do jornalista.
Uma escola de jornalismo em direto
Manolo Bello trabalhou com Joaquim Letria em diferentes projetos televisivos, desde o Tal e Qual até ao Conversa Fiada, passando pelos formatos de entretenimento que ajudaram a aproximar a informação do público.
Desses anos, guarda sobretudo a capacidade de improvisação, o domínio técnico e o talento para a escrita e a comunicação. Joaquim Letria, recorda, "era um profissional para quem nenhuma situação parecia impossível de resolver".
“Cada hora que trabalhava havia sempre qualquer coisa que ia aprender com ele, se estivesse atento”, afirmou, resumindo a influência que o jornalista exerceu sobre a sua formação.
Essa capacidade de reagir ao imprevisto ficou-lhe particularmente gravada na memória. Manolo Bello recordou um episódio protagonizado por António Mega Ferreira num programa em direto anterior ao Tal e Qual. Convidado a apresentar notícias sem imagens, Mega Ferreira terá ficado subitamente bloqueado durante a emissão.
Foi então que Joaquim Letria interveio, pegou nos papéis e assumiu a condução do momento, improvisando uma solução que impediu que o incidente comprometesse o programa.
“Qualquer adversidade ele resolvia, e bem, com graça e com o sentido de humor dele”, contou Manolo Belo, para quem essa segurança diante das câmaras era uma das características que distinguiam o jornalista.
Também nos programas em que recebia telefonemas dos espectadores, Letria demonstrava uma capacidade invulgar para transformar qualquer participação numa oportunidade de comunicação. Independentemente do tema ou de quem estivesse do outro lado da linha, conseguia manter o interesse e dar vida à emissão.
Da BBC à televisão portuguesa
A admiração de Manolo Bello por Joaquim Letria começou ainda antes de trabalharem juntos. O jornalista já era uma referência, nomeadamente pelo percurso na BBC, onde trabalhou na emissão portuguesa, durante o período em que viveu em Inglaterra.
Foi através do irmão de Joaquim Letria, José Jorge, que Manolo Belo teve oportunidade de o conhecer pessoalmente. Nessa altura, já ouvira falar do seu trabalho e da reputação que construíra.
Mais tarde, Letria esteve ligado à fundação do semanário O Jornal, uma publicação de grande relevância no período posterior ao 25 de Abril de 1974, e do semanário Tal e Qual, que esteve na origem do programa televisivo com o mesmo nome.
Para Manolo Bello, recordar esta trajetória é também sublinhar a importância de uma carreira que atravessou diferentes etapas da história política, social e mediática portuguesa.
O Tal e Qual destacou-se pela forma como conjugava informação e entretenimento, acolhendo diferentes personalidades e temas num formato em que, segundo o antigo colaborador, havia espaço para todos.
“Era tudo. Toda a gente cabia naquele programa”, recordou, salientando a diversidade dos convidados e a capacidade de Letria para conduzir entrevistas com figuras de diferentes quadrantes.
O respeito pelo entrevistado e a liberdade de expressão
Entre as qualidades que mais admirava em Joaquim Letria, Manolo Bello destaca o respeito por quem se sentava à sua frente. Do político mais influente à pessoa mais humilde, todos encontravam no jornalista a mesma disponibilidade para ouvir e a capacidade de extrair o melhor de cada conversa.
“Ele entrevistava e bem”, afirmou, acrescentando que Letria sabia respeitar os seus interlocutores e encontrar em cada um algo que merecia ser explorado.
Mas, acima de tudo, Manolo Bello recorda um profissional que nunca abdicou da liberdade de expressão, mesmo quando isso implicava enfrentar resistências.
Um dos episódios que mais o marcou envolveu José Afonso, que, depois de vários anos sem aceitar convites para participar em programas televisivos, concordou em regressar ao pequeno ecrã por se tratar de uma emissão apresentada por Joaquim Letria.
Perante dúvidas sobre aquilo que o músico poderia cantar ou dizer, Letria foi perentório na defesa da sua liberdade: “O Zé Afonso, no meu programa, vai cantar o que ele quiser e dizer o que ele quiser.”
Manolo Bello recorda ter acompanhado de perto esse momento, que considera um exemplo particularmente significativo da postura do jornalista.
“Eu vivi isto”, insistiu, explicando que a defesa da liberdade de expressão não era apenas um princípio abstrato para Letria, mas uma prática concreta, assumida diante das câmaras.
O antigo colaborador recordou ainda as entrevistas a grandes líderes políticos, incluindo Álvaro Cunhal, e debates que mobilizavam a atenção do país. Eram programas que, na sua memória, tinham uma dimensão coletiva rara, capazes de concentrar os portugueses diante da televisão como se estivessem a acompanhar um grande acontecimento desportivo.
“O país parava para ver programas deste tipo dirigidos e apresentados por Joaquim”, afirmou.
“As novas gerações não sabem quem foi Joaquim Letria”
Apesar da dimensão da carreira e da influência que exerceu sobre o jornalismo e a televisão em Portugal, Manolo Bello lamenta que a memória de Joaquim Letria esteja a perder-se entre os mais novos.
“Esta nova geração não se lembra de Joaquim Letria, da importância que teve”, declarou, manifestando preocupação com o desconhecimento de uma figura que considera fundamental para compreender a evolução dos meios de comunicação portugueses.
O problema, considera, não se limita ao público em geral. Também entre os jovens jornalistas haverá quem desconheça o percurso de Letria e a importância do seu contributo profissional.
Para Manolo Bello, essa ausência de memória é lamentável. A carreira do jornalista, a sua competência, a forma como conduzia entrevistas e a defesa da liberdade de expressão deveriam continuar a ser referências para quem escolhe a profissão.
“É uma pena que as pessoas hoje não saibam quem é Joaquim Letria”, afirmou, defendendo que a sua história deveria ser transmitida às novas gerações, inclusivamente nas escolas.
Mais do que recordar um rosto conhecido da televisão, trata-se, na sua perspetiva, de preservar um exemplo de profissionalismo, independência e capacidade de comunicar com diferentes públicos.
Uma perda sentida como a de alguém da família
A notícia da morte apanhou Manolo Bello de surpresa. Quando foi chamado a pronunciar-se publicamente, tinha sabido do falecimento havia cerca de meia hora e ainda tentava assimilar o impacto da perda.
Reconheceu que gostaria de ter tido mais tempo para preparar as palavras, mas a emoção falou mais alto.
“Sofro como se fosse uma pessoa de família que tivesse morrido”, confessou, explicando que a dor resulta de tudo aquilo que Joaquim Letria representou na sua vida, a oportunidade profissional, os ensinamentos, a experiência partilhada e o prazer de trabalhar ao seu lado.
A gratidão, garantiu, permanecerá para sempre.
A homenagem de Manolo Belo é, assim, também um testemunho pessoal sobre a influência que um grande profissional pode exercer na vida de quem começa uma carreira. Joaquim Letria não lhe deu apenas uma oportunidade: ensinou-lhe, dia após dia, a trabalhar em televisão, a enfrentar os imprevistos, a respeitar os entrevistados e a compreender a responsabilidade de comunicar.
“Todos aprendemos com ele”, resumiu.
