Mansoureh Kamari: "Não é só tirar o lenço e sentir a liberdade"

A autora iraniana revela como se encontra a liberdade de expressão e se passa as vivências para as páginas de uma banda desenhada.

A opressão e a misoginia são traçados no livro "As linhas que traçam o meu corpo" de Mansoureh Kamari, um dos destaques da edição do Amadora BD deste ano. 

Nas páginas, a autora iraniana contrasta um passado a preto e branco com um presente que encontra cor. Uma história que demorou duas décadas para ser contada.

Quando é que começou a usar o desenho como uma forma de expressão?

Isso é muito difícil de responder. Desenhar sempre foi uma forma de me expressar. Penso que o comecei a fazer quando era muito pequena e nunca mais consegui parar. Creio que era uma necessidade, quase como uma espécie de doença: não se consegue parar.

Desenhava em todos os trabalhos de casa e em todo o lado. Onde quer que houvesse uma página em branco precisava de desenhar. Os desenhos não eram particularmente bons, mas era algo que talvez já tenha nascido comigo.

Não acho que seja uma necessidade para toda a gente. Por vezes surge mais tarde na vida de um artista, como algo que se aprende. Mas, para mim, foi algo muito natural.

Quando decidiu olhar para trás para construir a história?

Senti a necessidade de contar a minha história há muito tempo. Para ser sincera, antes de mais, queria simplesmente começar a contar histórias. Adorava cinema, animação e livros. Mas tinha um medo enorme de começar alguma coisa, uma grande insegurança que me fazia pensar que não era capaz. Achava mesmo que não conseguia. Depois pensei que talvez pudesse começar por algo ligado ao meu passado, falar sobre o que me aconteceu e enfrentar as minhas inseguranças.

Foi assim que tudo começou. Sei que parece loucura. No início foi aterrador, mas, ao mesmo tempo, encontrei uma forma de permitir à minha mente regressar ao passado. Cada capítulo era como o início de um novo desafio para mim. Isso foi interessante. À medida que ia criando as páginas sentia-me cada vez mais confiante.

Como é que alguém se expressa depois de tantos anos de opressão?

Durante muito tempo não se expressa.

Saí do Irão em 2006 e comecei a escrever a história em 2022. Passou muito tempo até sentir que precisava de enfrentar tudo isto. No início, tenta-se esquecer, porque é demasiado difícil.

Quando se chega a um lugar mais livre, confrontamo-nos com o medo constante de sermos alvo de pena ou julgamento. Queremos integrar-nos, seguir em frente e recomeçar a vida. Mas penso que, com o passar do tempo, sentimos necessidade de voltar atrás e enfrentar o que vivemos.

Acredito que quem passou por experiências traumáticas acaba por ter de o fazer, em algum momento. Não é fácil. Em 2007 eu não estava, de todo, preparada para isso. Nem sequer queria falar sobre o assunto. Mais tarde foi diferente. Também ganhei mais segurança com os anos. É um processo muito longo.

A que sabe a liberdade de expressão depois de anos de opressão?

É um exercício, a liberdade não surge da forma como muitas pessoas imaginam. Quando se sai de um regime opressivo não é só tirar o lenço e sentir-se livre.

A opressão instala-se profundamente na mente. Fica gravada em cada parte do corpo e leva tempo a desaparecer. Acho que, sempre que exercemos a nossa liberdade e tiramos partido dela, vamos ganhando mais confiança e sentindo-nos mais confortáveis. Mas isso também leva muito tempo.

O que podemos esperar do seu próximo trabalho?

Com este livro comecei a regressar ao meu passado e penso que foi uma forma de abrir a porta às minhas origens, de voltar a falar sobre o Irão e sobre as mulheres iranianas.

Quero continuar a falar sobre estes temas.

Para sensibilizar as pessoas?

Pode ser interpretado dessa forma. Sem dúvida que aproveito o privilégio de viver em liberdade e de poder falar sobre estas questões.

Mas, para ser sincera, é muito doloroso passar por tudo isto. A necessidade que sinto é a de me expressar e, de certa forma, libertar-me da dor que carrego dentro de mim.

Todos os dias vejo o que está a acontecer no Irão e sinto uma enorme empatia por quem continua lá. Há uma parte de mim que ainda está naquele país. É difícil explicar. Não encontro outra forma de expressar aquilo que sinto em relação a tudo isto.