Mar vermelho no Atlântico Norte: "Tubarão" estreou-se há 50 anos

Expedição cinéfila em alto mar comandada por Steven Spielberg mudou a sétima arte.

A 20 de junho de 1975, há exatamente meio século, estreou nas salas de cinema americanas o filme “Tubarão”, de Steven Spielberg. A longa-metragem tanto revolucionou o cinema pela inovação de abordagem do medo no mar, como se tornou um êxito comercial estrondoso que só chegou a Portugal em 1977.

Maior que o grande tubarão branco do filme, só o medo humano, um monstro dentro de cada um de nós que também não se vê, mas se sente, e é daí que vem a grandeza desta película. Há mar e mar, há ir e não voltar para a jovem loira Chrissie. Nas cenas iniciais, passamos muito rapidamente do encanto auroral para o terror solitário e desamparado na boca laminosa de um predador gigante. Deixando para trás no areal um jovem nela interessado mas demasiado embriagado, a jovem loira despe-se e atira-se para o mar sozinha, no pináculo do deslumbramento com o mar de um azul diferente e ainda mais belo, subtilmente iluminado pelo sol ascendente que ainda espreita timidamente atrás das nuvens. As braçadas de costas de Chrissie são suaves e quase melodiosas, boiando o corpo e esticando a perna até desaparecer pacificamente sob a superfície do mar. O grito dela a chamar o rapaz para o mar tem um tom alarmista que prenuncia um medo desconhecido, o tal vulto silencioso, cuja vista torna-se a nossa, sobretudo quando a vemos a nadar como se fosse uma sereia sob a luz de um luar resistente, metros abaixo, donde está a besta marítima. O problema é que o tubarão está tão deslumbrado quanto nós quando vemos a silhueta do corpo de Chrissie a nadar e abocanha a carne feminina apetitosa pela calada da madrugada. O cinema redesenha os mapas, surge em 1975 um novo mar vermelho no Atlântico Norte, em New England, não é o Mar Vermelho que orla a Península Arábica e a costa nordeste africana como se fosse um rio largajão. O vulto dos mares não é assim tão silencioso, carrega com ele a música pesada de John Williams, tão pesada quanto as três toneladas do predador.  

Steven Spielberg só tinha 27 anos mas já tinha visão e ação de grande cineasta. Outras cenas magistrais compõem este filme, mas vamos só lembrar mais algumas, como quando o mar manchou novamente de vermelho, em pleno dia, com a praia apinhada de gente. O comandante policial Martin Brody, já ciente que o perigo monumental andava por perto da costa, parecia um nadador-salvador tenso numa praia cheia de agueiros. Mas não, aquele mar era liso como o chão, seria bandeira verde na certa se fosse em Portugal. O agueiro era uma metáfora identificada no grande tubarão branco que, no meio do nada, podia sugar tudo. O polícia Brody, incomodado por queixumes de conterrâneos, tentava observar os banhistas, que sem o saberem, eram presas para o monstro. Segue-se uma série de ilusões sensoriais que confirmam a paranoia em que estava Brody: um grito de uma mulher no meio do mar que é afinal uma brincadeira com o namorado, um grupo de meninos que se atira para a água com uma bola de jogar, e um miúdo a espernear num insuflável se confunde ao longe com o contorno de um tubarão mais pequeno. De repente, o pauzinho do cão fica a boiar no mar sem o focinho do bicho para preocupação do dono, uns veraneantes deixam de contemplar o cenário azul e levantam-se do areal alarmados. E depois, aquilo... aquele jorro, uma explosão líquida de sangue no corpo de um miúdo inocente. O pânico instala-se na praia, os pais correm para os seus filhos e agarram-nos, exceto uma mãe que procura o seu Alex e já não tem como o abraçar. De Alex só chega à berma um rasto da sua morte: o seu insuflável, que era já só um tapete manchado de sangue. 

Há outra cena ainda mais aterradora, mas sem as dentadas do grande tubarão, na noite de embriaguez das três personagens principais - o polícia Martin Brody, o oceanógrafo Matt Hooper e o baleeiro Quint - quando estavam sozinhos em alto mar no pequeno barco, antes do duelo desigual com o peixe monstruoso. É uma daquelas histórias de embalar que tiram o sono a qualquer miúdo ou graúdo. Se a música de John Williams funciona como se fosse o som do grande tubarão branco, o olhar sombrio de Quint concentra todo o terror dos mares. No meio da algazarra ébria daqueles três homens, Quint muda de repente o tom para algo bastante mais assustador, assim que o desafiam divertidamente a explicar uma marca de tatuagem no seu braço. Há uma dessincronização de disposições. Como Quint sabe sempre mais sobre os mares do que os outros dois, enquanto eles ainda se riem, Quint põe um ar sério e explica que tatuagem foi aquela que removeu: o do USS Indianapolis, o grande navio militar que entregou o urânio para a bomba atómica de Hiroshima. Quint ia nesse navio, quando foi bombardeado fatalmente por um submarino japonês em pleno Oceano Pacífico. O navio “afundou em 12 minutos” e deixou à mercê do alto mar mais de mil militares, incluindo Quint. O monólogo do baleeiro prossegue num tom assustador, que deixa temerosos Hooper e Brody. Aqueles dois juntam-se a todos os espectadores do filme, a ouvir com pavor Quint a contar uma história de carnificina, em que os soldados náufragos são cercados por um arrepio de tubarões-tigre, “talvez uns mil” nas contas de Quint, que vão devorando os soldados que tentam sobreviver à superfície da água. “Por vezes, o tubarão vai embora, mas outras vezes não. Às vezes, esse tubarão olha diretamente para ti. Em cheio nos teus olhos. Uma coisa que o tubarão tem são aqueles olhos sem vida. Olhos pretos, como os olhos de uma boneca. Quando ele se lança a ti, parece que não vive, até te morder e aí aqueles olhos pretos reviram para brancos e então tu ouves aquele guincho agudo terrível”. Em 1100 náufragos, apenas 316 se salvaram, um deles Quint, graças a uma tardia missão militar de socorro aéreo. “Os tubarões levaram os restantes”. Com os seus olhos bem claros, felinos como um tigre, Quint sorri ao mesmo tempo… um sorriso de humor negro que parece abarcar a malícia e os perigos deste mundo humano e selvagem que ele bem conhece. É com esse ar felino que completa a história: “de qualquer maneira, conseguimos entregar a bomba”, a bomba atómica de Hiroshima, noutra dimensão de terror. O mais assustador é que esta história de Quint aconteceu mesmo: o USS Indianapolis que entregou a bomba atómica e que foi afundado, em que só 316 soldados sobreviveram ao ataque voraz daquele cardume de tubarões. Quando Quint recorda que a missão daquele navio era tão secreta que não houve sinais de alarme para os salvar naqueles dias todos em desamparo em pleno alto mar, essa imensa vulnerabilidade adensou de medo a vulnerabilidade daqueles três num barco isolado à noite, com aquele perigo de três toneladas ali por perto, sabe-se lá onde.   

O tubarão tem o seu nome no título e a sua imagem no cartaz principal, mas o filme é mais sobre humanos. E não há nada mais de humano que a cena familiar entre o chefe policial Brody e o seu filho pequeno, sentados à mesa da sala de jantar, diante do olhar da mãe, de pé. O pequeno começa a imitar os movimentos do pai, procurando uma interação. Brody tem o ar que um homem preocupado normalmente tem, de olhar taciturno de cotovelo apoiado na mesa e com a mão cerrada encostada à face. O filho imita-o ao seu lado. O pai pega no copo de whiskey com gelo, bebe-o e pousa-o sonoramente. O filho imita-o com o copo de sumo, sempre com um pouco mais de ênfase. O pai tapa a cara com as palmas da mão, o filho imita-o. De um lado a preocupação pesada de um adulto, do outro a ternura de uma criança. Quando o pai baixa as mãos e entrelaça-as, o seu olhar cruza-se finalmente com o do seu filho. Apesar da desproporção de volumetria física entre o pai e o filho bochechudo, é o chefe policial que atinge o cúmulo da vulnerabilidade quando pede um beijo ao petiz e este, cheio de personalidade, lhe pergunta: “porquê?”. E é aí que Brody tem que responder: “porque preciso”.   

As personagens do filme estão muito bem traçadas e têm vida autónoma, num enredo denso onde se sente também o conflito comercial liderado pelo cacique local, que fazia tudo para desvalorizar o monstro sanguinário, para evitar uma sangria das receitas do comércio local da estância balnear. ele não queria um esvaziamento de gente das praias, em nome da prosperidade. Fez o que os políticos costumam fazer, empurrando o problemas com pequenas ilusões, para manter tudo na mesma. 

Steven Spielberg tem a mestria herdada de Alfred Hitchcock, jogando com o medo do que não se vê mas se sente. Nisso, é um filme de suspense. Mas Spielberg consegue também o terror, ao mostrar o tubarão nos seus ataques devoradores no filme. O tubarão do filme tinha um comprimento de mais de 7 metros, por vontade de Steven Spielberg, superando o tamanho dos maiores tubarões predadores, que têm pouco mais de seis metros.

A filmagem foi uma autêntica epopeia marítima. Não havia linha férrea de travelling, a equipa de filmagem ondulava em pequenas embarcações, filmando a bordo, em convés insuficientes para tanto material. Foram 7 meses de rodagem em vez das sete semanas planeadas, sem a tecnologia de hoje que poupa o homem a atos heróicos. Houve falhanços totais de cenas ao ponto de serem anuladas para fora do guião. As gravações começaram sem elenco, sem guião e ainda sem o bicho monstruoso pronto. As demoras das filmagens inspiraram o ator Roy Scheider (que interpreta o polícia Martin Brody) a recorrer a uma expressão cinéfila de english nerd num documentário making of do “Tubarão”: “It’s not the time it takes and it’s not the takes that take the time, it’s the time between the takes that takes the time it takes”. “Jaws” foi a primeira expedição cinéfila em alto mar, com um impacto numa série de filmes sucedâneos (como as sequelas de “Jaws”) e encorajador para filmes de alto mar que se tornaram também referenciais, como o filme alemão de 1981 “Das Boot”, de Wolfgang Petersen, sobre uma das grandes batalhas submarinas da II Guerra Mundial, segundo o ponto de vista alemão. 

“Tubarão” foi um sucesso estrondoso de bilheteira no Verão de 1975, na estação menos comercial de todas e a menos provável para os Blockbusters. As filas longas nas ruas nos Estados Unidos mostram o desvio do tráfego humano das estâncias balneares para os cinemas das cidades. O sucesso do livro “Jaws”, escrito por Peter Benchley, que co-assina o guião, entra numa escala das dezenas de milhões de livros vendidos, graças ao filme de Steven Spielberg.

O sucesso comercial do “Tubarão” teve um impacto na forma como se passou a encarar o mar. Depois daquelas cenas aterradoras, nunca mais se encarou as praias e o mar com o mesmo relaxamento, sobretudo na segunda metade dos anos 70. Mudou a perspetiva da humanidade ao mar, mudou também a carreira de Steven Spielberg, que, alavancado pelo fenómeno comercial do “Tubarão”, largou os anos dos filmes de baixos orçamentos. Viriam os tempos das produções homéricas para o visionário realizador.

A estreia em Portugal do “Tubarão” só ocorreu 21 meses depois, uma eternidade. Quando “Jaws” entrou no circuito comercial a 20 de junho de 1975, Portugal vivia os dias do PREC e do Verão Quente. Mas quando a longa-metragem de Spielberg se estreou por cá em março de 1977, o primeiro-ministro de Portugal já não era o comunista Vasco Gonçalves mas sim o socialista Mário Soares e a já se vivia a normalidade democrática. Em março de 1977, os portugueses ainda não viam telenovelas brasileiras e ainda não se comercializava a Coca-Cola. Mas era uma questão de meses. Os primeiros episódios de “Gabriela” são exibidos em maio desse ano e um novo hábito doméstico se instaura no país. O famoso refrigerante da iconografia norte-americana passa a ser vendido em julho. Em 1977, ainda havia os grandes cinemas, especialmente em Lisboa, como o Monumental (com espaço para mais de duas mil pessoas), o Condes, o Cinema Europa (em Campo de Ourique), o Tivoli, o São Jorge, o Império, o Roma, ou o Alvalade. 

Lá fora, 1977 foi o boom do punk e do disco-sound. Por cá, em dezembro de 1977, estreava-se outro fenómeno cinemátográfico, num desses grandes cinemas, o Monumental, falo de “Star Wars” (“Guerra das Estrelas”), a obra fundadora da epopeia espacial de George Lucas.