Márcia: "estou sempre no lado do otimismo"

Entrevista à cantautora lisboeta, a propósito do novo álbum "Picos e Vales".

Márcia lançou há poucas semanas o seu quinto álbum, "Picos e Vales", ou a sua superação pessoal a um período complicado, marcado pela pandemia, por problemas de saúde e pela morte do seu pai.  
 
Nessa escalada destemida, Márcia assumiu a produção - como diz metaforicamente, quis ser ela a vestir as canções -, alterou métodos instrumentais e serpenteou-se ainda mais nos seus cantos e recantos de feminilidade. 
 
Desarmante e inteligentíssima, Márcia é uma conversadora nata que dilui automaticamente o formato de perguntas e respostas de uma entrevista. Quando afirma que "isto só vale a pena com os outros", sabemos que está a ser sincera. Dona de um dos percursos autorais mais consistentes deste século na música portuguesa, é para os outros e com os outros que o seu talento e alegria se avivam ainda mais. 
 
"Picos e Vales" é um disco com mais dor, mais pessimista? 
Achaste pessimista? 
 
Estou a pensar por exemplo no tema 'O Melhor Que Me Espera'. 
Não o acho nada pessimista. Eu acho que trabalho sempre do lado do otimismo. O mundo divide-se entre pessoas pessimistas e otimistas. E eu estou enraizada no lado do otimismo. Sinto que não há muita hipótese. O disco "Picos e Vales" é uma alegoria para os altos e baixos, que é uma metáfora do caminho da vida que nós fazemos. Quando passas a parte baixa, ou és otimista, ou não consegues passar. Eu acho que tens que ter um certo otimismo. Tens que te agarrar muito a tudo o que há de bom e que ainda está ao teu dispor. Todo esse caminho é meio-espiritual.  
 
És uma pessoa mais de picos do que de vales? 
Eu sou uma pessoa de picos e vales e a minha vida também.  


 
Mas a lei da gravidade empurra-nos mais para os vales do que para os picos. 
É um equilíbrio em que não controlas nada daquilo que acontece, a não ser aquilo que consegues controlar, como o jantar, e mesmo assim acontece algum acidente. Tu vives com aquilo que acontece, que não controlas. Como é que te posicionas perante aquilo que acontece? A posição, tu escolhes.  
 
No disco, usas as frases "vai ficar tudo bem" e "vai passar tudo amanhã". Há mais sentidos que o linear? Há algum cepticismo quando cantas estas frases? 
Não há ceticismo nenhum. Há mesmo um grande trabalho interno da minha parte para lutar contra o ceticismo e o niilismo na minha vida. A geração dos pais dos nossos pais vinha de uma boémia que trouxe algum interesse pelas filosofias, sobretudo as existencialistas, niilistas e céticas. Ainda há pouco tempo, o meu irmão mais velho tinha-me dito que era bastante niilista e cético. Jogo exactamente na outra equipa, no pólo oposto. É uma decisão que se toma. Sem prazer, não me parece que haja grande esperança e otimismo.  
 
Para ti, a canção serve para levantar o espírito? 
Não sei se diria que a canção serve para isso. A frase "vai ficar tudo bem" é uma dúvida, porque a música chama-se 'O Que Eu Ainda Não Sei'. Isso talvez esteja relacionado com os meus filhos, que atravessaram dois anos de pandemia em infância. À parte disso, eu tive um problema de saúde e houve várias perdas. Os miúdos ultrapassam isso como? Vai ficar tudo bem? Na nossa vida, não está sempre tudo bem. A nossa vida é saber lidar com tudo: com a tristeza, com a alegria, com todos os amigos em festa ou então para nos ajudar a levantar. É um grande equilíbrio. "Vai passar tudo amanhã" é uma frase diferente. Assim que voltar a ouvir o coração, sei que vai passar. A música ajuda-me a entender. Os poemas ajudam-me a entender. Essa é uma função privilegiada da arte: ajudar no entendimento do mundo, das emoções e do que acontece. Nesse sentido, ajuda a processar a dor. Se não processar a sua dor, vai infligi-la noutra pessoa. Se não entenderes aquilo que sentes, vais acabar por magoar alguém. Isso para mim está na origem de todos os males do mundo, desde os mais pequenos aos maiores. A função da arte é criar beleza e processar a dor, que no limite faz muita falta, para evitar guerras e afins.     


 
No tema 'Vai Passar Tudo Amanhã', cantas "O que é o amor, ainda não sei / E quem sabe se um dia saberei". Achas que à medida que crescemos, as dúvidas aumentam e as respostas escasseiam mais? 
És capaz de ter razão. Sinto talvez isso. Dantes, as coisas eram mais fáceis e simples. Agora há sempre muitas explicações e ramificações. Mas nessa questão de 'Vai Passar Tudo Amanhã', essa música é um desabafo total. "O que é o amor, ainda não sei". Mas o que é de facto o amor? É precisar? É precisar da presença? É estar? É viver? Acho que nada é preto no branco. À medida que vamos crescendo, vamos percebendo isso. As coisas são todas cheias de entrelinhas e quanto mais evitares o equívoco, melhor. 
 
As letras estão muito femininas, não estão? Por exemplo, parece-me que o 'Já Passou da Hora' só poderia ser escrito por uma mulher. 
É um disco muito feminino. Lembro-me que o "Vai e Vem" era assumidamente feminino: a capa era eu com um vestido cor-de-rosa. Mas neste, eu não tinha noção. "Espera lá, este é ainda mais feminino. Olha, não tinha reparado". É um disco muito feminino, mas também há ali uma parte que não acontece nos outros discos que acontece em 'Melhor Pelo Teu Tempo', que é uma canção muito mais existencial do ponto de vista espiritual. É uma canção muito mais espiritual, até na forma diferente de cantar. É um poema em que digo "não sou homem, nem mulher". Nesse tema eu tenho a certeza que não sou homem, nem mulher. 
 
És só humana. 
Sou só humana. É só uma questão de ser. Está lá a minha essência mas não tem género. Tem só uma profundidade espiritual. Mas o resto é capaz de ser muito feminino.   


 
Gostas dessa elasticidade de tanto cantar com um grande apoio instrumental, como sozinha? 
Gosto sobretudo de partilhar as canções com os meus músicos e de dar concertos, como fizemos em março. Estarmos todos em palco. Ou quando estou em estúdio, virem ter comigo. Sinto que sou muito melhor ao vivo do que em disco. O que eu gosto mesmo é de partilha, não sei se isso ficou ainda intensificado com a pandemia, que me fez dar tanto valor aos outros. Isto só vale a pena com os outros, a fazer sei lá o quê. Tem a ver com o estarmos acompanhadas, só estarmos. Também gosto de partilhar com o público quando estou sozinha. Na verdade, nunca estou sozinha. Com eles [os músicos], é mais divertido, porque dançamos. Agora, eu sozinha com a guitarra e com as programações, não vou estar para ali a dançar. Não é o mesmo tipo de energia [de ter uma banda], é mais uma conversa a dois, com o público, o que é muito saboroso. Essa palavra "elasticidade" está muito bem empregue, mas eu diria antes liberdade, porque foi uma libertação para mim não ter de fazer só o que estava habituada. É uma libertação para mim aprender e eu esforcei-me para aprender a mexer em vários programas. Este disco é totalmente produzido por mim. Fora do grupo de músicos, poucas pessoas perceberão o que é produzir um disco e a melhor maneira que tenho para explicar isso é: com que roupa vais vestir as tuas canções. Se sairmos para uma festa, ela vai produzir-se, arranjar-se. Ela é que escolhe se mete uma saia com frou frou, se mete umas calças, se mete uma peça cintada. E nós é que tomamos essas decisões quando temos canções. Neste disco, resolvi decidir sozinha, o que não implica que tenha feito sozinha. Decidi chamar os músicos que eu queria, mas depois quem arriscava a decisão - porque é preciso coragem e porque sabes que vais falhar e nada é perfeito - era eu. Mas para isso, tive que mergulhar em softwares muito chatos de edição de música e perceber como é que aquilo funcionava, como é que fazia os beats que eu imaginava, ou o baixo, ou os synths. Foram muitos meses de aprendizagem.  


 
Foi uma libertação de formato. 
Foi uma libertação de formato. No "Quarto Crescente", eu fazia canções com base no baixo e no synth, ou com base no teclado, e depois é que se punham outros instrumentos. Aconteceu no Quarto Crescente sobretudo. Mas é um crescendo até aqui. Estas canções [do álbum “Picos e Vales”] - à exceção do 'Meu Amor Bem Sabes', do 'Lembra' e 'Esse Mundo Teu' - quase não levaram guitarra para a sua génese.   
 
Sente-se um prazer enorme teu em estar em palco e em estar com outros. 
Acho que isso faz uma grande diferença. Lembro-me de uma frase do João Paulo Feliciano [músico que tocou nos Tina & The Top Ten, nos No Noise Reduction e no Real Combo Lisbonense, artista plástico, entre muitas outras atividades] que foi um dos produtores com quem trabalhei: "fazemos o melhor em disco e depois fazemos o melhor ao vivo. Não te podes castrar por não conseguir fazer aquilo em disco, porque depois não consegues fazer ao vivo. Depois vais ganhando traquejo e vais conseguindo fazer ao vivo aquilo que imaginas em disco”.