Marés Vivas: a festa que os Black Eyed Peas não queriam parar
Terminou mais uma edição do festival gaiense. The Script, Fernando Daniel e Xavier Rudd foram outros nomes deste terceiro dia.
Foi com excentricidade festiva que os Black Eyed Peas se apresentaram em palco, com muitos pulos, incentivos e uma repetida apropriação de clássicos de outros, como Misirlou (o instrumental surfbilly de Dick Dale usado para abrir o filme Pulp Fiction), ou The Time Of My Life (a canção universalmente reconhecível do filme Dirty Dancing).
Outros clássicos capturados para o universo dos Black Eyed Peas abriram terreno à nova cantora dos Black Eyed Peas, J Ray Soul, projetar a sua enorme voz, como nas derivações de Rhythm of The Night de Corona e La Isla Bonita de Madonna.
Os quatro MCs revezavam-se nos protagonismos, num modelo que dava espaço para cada um ter a sua plataforma mais individual, com o apoio de mais dois músicos, um guitarrista barbudo ao estilo de ZZ Top e um baterista.
O concerto seguia em regime de piloto automático, sem paragens. Taboo fazia a maior parte dos discursos, em castelhano. will.I.am escondia-se atrás de uns óculos grandalhões e põde mostrar-se em nome próprio, ao interpretar três das músicas da sua atividade a solo - This Is Love, That Power e Scream & Shout.
Em Girl Like Me, aparece no ecrã a imagem de Shakira mas com a voz ao vivo sempre impressionante de J Ray Soul. Don’t You Worry possui a mensagem que se usava no início do confinamento. E o título de Don’t Stop The Party resume bem o que se passava em palco, naquele non-stop festivo.
A rampa final é mesmo para o cocktail emocional No tema Where Is the Love, uma fã portuense, Sofia, é chamada a palco para cumprir na perfeição a interpretação, com à vontade, boa voz e conhecimento do tema. Sofia tornou-se uma estrela por cinco minutos naquele brilharete. Faltava ainda um tema, adivinhem qual. I Got Feeling foi prolongado até à exaustão, muito depois da sua apoteose, quando tinha estourado uma chuva de papelinhos e uma invasão controlada de fãs se tinha dado no palco.
Os irlandeses The Script, em formato ao vivo de quinteto, foram iguais a si próprios, com o seu pop-rock muito clássico, desenhado a regra e esquadro.
Apresentaram um alinhamento muito equitativo entre os álbuns da banda e criaram margem para terem direito a um encore. A senha foi saírem do palco e deixarem o público a cantar For The First Time. No encore, tocaram as mais esperadas, como Breakeven, em que surge uma imagem de um coração quebrado e em chamas, e a derradeira Hall of Fame, para a qual pediram uma constelação de telemóveis luminosos no ar aos fãs.
A banda irlandesa foi incansável na simpatia. Mostraram o seu deslumbramento com o recinto do Parque da Madalena. Disseram sentirem-se em casa sempre que atuam em Portugal, e defenderam que este é o melhor público que tiveram na digressão continental que terminou neste domingo, no Marés Vivas.
Vários fogachos de artifício animaram o concerto de mais de uma hora de Fernando Daniel, além das suas canções mais populares, como Tal Como Sou ou Prometo (dedicado à sua filha). Fernando Daniel recordou o concerto no palco secundário do Marés Vivas em 2018 e mostrou orgulho por pisar agora “o palco dos grandes”.
Fernando Daniel tenta a exaltação de emoções em Casa, antes de cantar de pé nos teclados Melodia da Saudade, com o aviso: “agora vamos chorar um bocadinho”.
Sol e Xavier Rudd ligam-se e por isso faz sentido ter-lhe calhado a hora mais soalheira no Palco MEO. Trouxe toda a sua nação de instrumentos: uma gama de didgeridoos, a guitarra lap steel, a guitarra acústica clássica, o banjo, o teclado e a bateria com uma bandeira. Esteve tudo por sua conta, como o homem que faz tudo sozinho.
A ser bronzeado fortemente pelo sol, o musculado Xavier Rudd cantou as suas músicas de consciência ambiental, com a sua Austrália como destino geográfico das suas mensagens.
Mas Xavier Rudd não esteve sempre sozinho. Surge em palco um aborígene devidamente sarapintado com as suas pinturas faciais e corporais, a usar dois boomerangs como percussão enquanto vocaliza e faz as suas danças de pernas rápidas. Xavier Rudd, sentado atrás nas funções de baterista e de soprador de didgeridoo, emprestou-lhe o centro do palco por três minutos. O amigo aborígene regressou mais tarde, já de camisa havaiana, para mostrar o seu dote de rapper, sempre com as mãos nos boomerangs. E ainda hasteou a tal bandeira rubro-negra quando Rudd cantava à bateria o tema Flag.
Como músico de intervenção, Xavier Rudd convoca o fantasma de Bob Marley para cantar um dos trechos da canção de resistência “Get Up Stand Up” num dos seus temas. A carga espiritual das suas canções fica mais a nu nas baladas, quando Xavier Rudd cerra os olhos e visa a transcendência, como ficou bem evidenciado no positivista Magic e em Spirit Bird
Xavier Rudd fechou a hora da atuação com o muito ovacionado Follow The Sun, quando o sol começou a dar tréguas ao músico e se começou a esconder atrás das árvores que protegem a grande arena.
