Marés Vivas de danças com Miguel Araújo

Como "um bom filho que à casa torna", o cantor nortenho deu um concerto bem coeso em uma hora.

Miguel Araújo só tinha uma hora para brilhar em palco, mas não podia ter feito melhor, com uma banda de mais dez músicos (incluindo um quarteto de metais) que está bastante funcional. Foi o primeiro grande momento desta edição de regresso do Marés Vivas. O músico ex-Azeitonas mostrou-se agradecido ao Marés Vivas por ser uma presença repetida no festival gaiense - "é já a quinta ou sexta vez que toco aqui, já não sei bem". 

O alinhamento foi generoso em temas que comovem o público, como 'O Pica do Sete' (ligado, evidentemente, a António Zambujo), ou "uma valsinha" como lhe chamou Araújo, que mereceu brevíssimas incursões em 'Misirlou' (o clássico de surf music de Dick Dale recuperado pelo filme "Pulp Fiction"). Seguiram-se 'Balada Astral' e 'Dona Laura', neste último a inspirar Miguel Araújo a uns números de dança à Little Richard enquanto tocava a guitarra elétrica. 

As letras que corriam nos ecrãs laterais a acompanhar as músicas, para facilitar a participação do público, tornaram-se especialmente úteis em 'Os Maridos das Outras', quando a numerosa banda se "desamplificou" e Miguel Araújo se tornou numa espécie de líder de claque, a coordenar um imenso coro de milhares de espectadores. A canção termina em grande apoteose, com Miguel Araújo a mostrar as suas virtudes de grande guitarrista. 

Havia ainda uma reta final para as emoções, com 'Anda Comigo Ver Os Aviões' tocado solitariamente por Miguel Araújo. 'Talvez Eu Dançasse' tornou-se numa imensa dança, primeiro no palco, com vários dos músicos a mostrarem os seus dotes, e depois a espalhar-se para o público, numa enorme alegria instigada por Miguel Araújo. 

Antes, houve dose de rock inglês folião. A música espevitada dos Maxïmo Park, a viver muito dos teclados de Jemma Freese, ainda espreita muito o álbum de estreia de 2005, "A Certain Trigger", tendo a banda tocado temas desse disco como 'Going Missing' ou 'Apply Some Pleasure'. O vocalista Paul Smith mantém aquele chapéu de mod, sabe ser alegre, mas não deixou de lado a política, lembrando que o seu "pais está numa confusão", o que terá inspirado, diz ele, o single sem álbum 'Great Art'. A energia do quinteto inglês contrastou com a passividade de grande parte do público, que preferiu estar sentado, para se resguardar para atuações posteriores.

A banda inglesa The K's abriu o palco principal, durante a tarde, com muita adrenalina rock, mesmo que tocando diante de um público muito disperso pelo recinto. Em pouco mais de meia-hora, mostraram muito boa disposição na comunicação com o público, mesmo que falando de uma forma muito velada. Tiveram tempo para uma versão de 'Girls Just Want To Have Fun', de Cyndi Lauper, e para uma breve abordagem ao clássico folk irlandês 'Dirty Old Town', antes de tocarem o seu tema um pouco mais reconhecido 'Sarajevo'.