Margarida Cardoso, um retrato cinemático do colonialismo
Na indústria do cinema em Portugal há mais de 40 anos, a infância da realizadora marca os filmes que produz.
Margarida Cardoso é realizadora, foi uma das primeiras mulheres em Portugal a desempenhar este ofício e há quarenta anos que se dedica a retratar o mundo. Banzo, é a sua última obra e é o candidato de Portugal à categoria de Melhor Filme Internacional dos Óscares.
Tem memórias da ida para Moçambique?
Tenho memórias daquelas que nós nunca sabemos se nos pertencem ou se pertencem às histórias que ouvimos depois dos nossos pais.
A minha avó foi connosco, fomos uma pequena família. Curiosamente não tenho grande memória de relações... Sei que, pela primeira vez, no ano em que chegámos, a minha mãe teve um empregado que trabalhava lá em casa. Foi a única vez, ela não conseguia lidar com aquilo. Lembro-me dele no Natal. Tenho a impressão de estarmos com essa pessoa, mas em geral lembro-me muito pouco. Tenho uma sensação muito forte dos lugares.
Viveu em Moçambique entre os três e treze anos. Sente que este começo de vida moldou a sua identidade?
São sempre coisas que se pensa a posteriori. Refletem-se mais na maneira como eu depois senti que havia coisas que me atraíam para os meus trabalhos ou para tentar explorar.
Sou uma pessoa divertida - gosto de me divertir, gosto de rir, gosto de piadas, gosto disso tudo. Mas sou extremamente nostálgica e tenho sempre um peso qualquer cá atrás. Foi esse peso que eu tentei perceber de onde é que vinha.
Esses anos marcaram-me muito mais por uma tensão que havia e que eu sentia nos outros. Provavelmente, muito na minha mãe, que era uma pessoa que estava parte do tempo sozinha, porque o meu pai era piloto militar e estava no Norte.
É muito importante em tudo aquilo que eu faço e procuro. Por esse peso e silêncio.
Como foi voltar de Moçambique aos treze anos?
A volta foi mais impactante. Ainda hoje me lembro bastante bem, tendo voltado ainda no pico da adolescência e na altura em que também estás a procurar a tua identidade em todos os campos.
E não só, fiquei bastante tempo sem os meus pais, que ainda ficaram em Moçambique. Tive de ir para casa de famílias das quais não me lembrava muito bem. Isto é muito comum às pessoas que vieram de África nessa altura, depois fui para os Gerês, que acho hoje lindíssimo, mas na altura achei cinzento e triste. Sobretudo, estar muito desligada desse espaço físico. Ainda hoje gosto muito de calor e da luz.
Separada dos meus pais e com pessoas que não conhecia, senti nessa altura um grande vazio. Não se percebia o que é que ia acontecer. Isso também senti bastante.
À chegada vivem-se tempos de mudança.
O meu pai, como piloto militar, lançou alguns paraquedistas sobre RALIS. Quando chegou foi preso, por uma pessoa que depois apreciou muito o meu trabalho e até vinha às filmagens. O Otelo Saraiva de Carvalho, às vezes perguntava ao meu pai: "Devo-lhe dizer que foste preso por ele?" e o meu pai dizia "não, deixa estar." Todas essas coisas se reconciliam, mas nessa altura o meu pai acabava por ser uma pessoa mais de centro e foi preso, então acabámos por cair num buraco ainda maior.
Havia muitas divergências entre a família, agora somos todos amigos, mas lembro-me que não se podia falar de política. Recordo-me sobretudo de uma coisa que provavelmente todos os jovens passaram: os adultos estavam tão impregnados na situação política que as crianças ficavam esquecidas. Lembro-me de às vezes nem sequer voltar a casa, ficava em casa de amigos e ninguém dava pela minha falta. No verão de setenta e cinco, durante umas férias, desapareci em casa de uma senhora que tinha uma televisão para ver Gabriela, a telenovela, fiquei lá dois ou três dias e ninguém deu pela minha falta.
A Gabriela motivou a escolha para começar a estudar a imagem?
Acho que não, eu não sei de onde vem. O meu pai uma vez explicou-me que tínhamos vindo viver para Lisboa porque eu tinha insistido muito que queria ir para a Escola Artística António Arroio. Na altura pensava em Fotografia, não em imagem em movimento. Mas confesso-te que eu não me lembro nada de ter essa força, pelos vistos eu estava determinada.
Acho que vem do facto de eu ter sempre gostado muito de viajar e a fotografia, assim como o cinema depois se tornou, era uma maneira de ter uma vida que não me deixasse no escritório e que pudesse viajar por todo o mundo. Foi o que eu fiz depois.
Como se sentia muito o mundo à volta da Escola Artística António Arroio?
Entrei em 1979, portanto, já era pós PREC. Havia ainda uns ecos de algum ativismo entre nós. Lembro-me, agora com uma certa ironia, do “Nuclear não, obrigado”. Sobretudo havia um ambiente muito fora do comum em relação às outras escolas.
Fumávamos nas aulas, os professores também fumavam para cima de nós, mas era tudo muito aberto a nível de discussão, sempre muito político e empenhado. Lembro-me de irmos às manifestações sempre.
Faço justiça a esta senhora que eu não me lembro o nome. A professora de francês foi quem me levou para o caminho do cinema. Nós na António Arroio descíamos à Alameda e íamos ao cinema ver filmes de Agnès Varda. Tudo o que era em francês íamos ver e tenho a impressão que foi essa senhora que me deu esta paixão pelo cinema.
O que a leva até a começar a trabalhar no cinema quando termina os estudos?
Sempre tive uma grande vontade de ser independente, apesar de ter uma relação boa com os meus pais. Quando estava no 12.º ano, comecei a trabalhar num estúdio de fotografia. Queria era trabalhar, ter a minha casa e começar a andar.
Comecei a trabalhar num estúdio de fotografia. Correu muito bem, mas como estava muito tempo sozinha no estúdio respondi a um anúncio que procurava pessoas para câmaras 16 mm de cinema, que eu nunca tinha visto na vida, e fui contratada como assistente de câmara.
Isso fez com que eu entrasse num grupo de pessoas que faziam imagem no cinema. Foi uma surpresa, porque não vinha desse meio, mas fui logo adotada por ser muito jovem - tinha dezassete anos - e a partir daí não parei de trabalhar em cinema, primeiro como técnica e depois comecei a fazer os meus próprios filmes.
O cinema português começava a florescer no início dos anos oitenta?
O cinema português não florescia nada nessa altura. O que floresce nessa altura, em 1985, foi o boom das produções francesas, quer dizer, dos serviços que eram vendidos a pacote. Nós estávamos inseridos num pacote que incluía material e pessoas. Apesar de estar a dar esta noção que parece negativa, isso deu um grande avanço ao cinema português a nível da possibilidade de técnicos, de materiais, de criar uma espécie de um tecido com técnicos fantásticos.
As produções francesas, muitas eram séries péssimas, nomes como “Sandra, a Princesa Rebelde”, que afinal namora com o irmão. Sempre aproveitando os nossos cenários, o número de sol que temos por dia. Isso fez com que, ao trabalhar em tantas produções, ganhasse uma estaleca total em relação à técnica e à narrativa.
Depois foi um grande trabalho a adaptar-me para me ver livre de tudo o que são tiques e coisas que não servem para nada, mas acho que ajudou toda a gente e criou uma base onde cresceram muitas pessoas e muitos outros filmes com mais valor cinematográfico.
Esta fase inicial até chegarmos às produções próprias foram cerca de cinquenta filmes em que participou e em várias funções. Há alguma participação que a marcou em particular?
Tive muitos cargos no cinema, mas na realidade acabei por me fixar numa tarefa que se chama anotador ou “script supervisor”, em inglês. É uma pessoa que está muito perto do realizador e que não tem responsabilidades organizacionais, o que para mim é fantástico, porque podia estar só a ver como é que se faz.
Desses filmes, que todos eram bastante médios ou medíocres, houve alguns que não eram. Trabalhei também em filmes portugueses que não eram medíocres. Entre os filmes estrangeiros, a pessoa que mais me despertou curiosidade foi uma senhora que ainda faz filmes hoje que se chama Yolande Zauberman, uma francesa com uma energia incrível e com a qual eu trabalhei não só em Portugal, como depois em França, que me possibilitou estar com ela e ver a forma como trabalhava que era completamente o oposto de tudo o que eu tinha feito até essa altura.
Sentiu a diferença quando começou a fazer a realizar as suas produções?
Curiosamente fiz duas curtas-metragens, com o apoio do ICA, o Instituto do Cinema e do Audiovisual, que foram uma forma de criar um cartão de visita. Deu-me a possibilidade de conseguir financiar "A Costa dos Murmúrios", que foi a minha primeira longa-metragem de ficção. Esse salto correu bastante bem.
Foi ótimo poder começar a explorar. Depois das curtas-metragens, entrei mais pelo campo do documentário e aí comecei a explorar temáticas mais relacionadas com o meu passado, com a guerra colonial e entrei mais nesse caminho de uma certa introspeção, também geopolítica, se se pode dizer.
O que a levou a escolher o livro “A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge para fazer a adaptação ao cinema?
Conheci a Lídia Jorge, que era vizinha da nossa família quando estivemos na Beira no último ano. Era professora da minha irmã e vivia no andar por cima de nós, numa espécie de messe militar - uma espécie de hotel, onde estavam alojados os oficiais da Força Aérea. Quando li “A Costa dos Murmúrios”, fartei-me de chorar porque estava ali muitas coisas... Não me dizia a nível de geração porque eu não era uma jovem senhora, era uma criança, mas toda a descrição dos lugares, das ações, interações entre as pessoas foi mesmo uma revelação.
Então fui pedir à Lídia para adaptar. Não tinha feito nada, só tinha feito as duas curta-metragens e estava a acabar o meu documentário "Natal 71". A Lídia brinca sempre porque eu pedi um casaco emprestado para parecer mais séria. Um casaco que não estava nada alinhado, preto muito estranho. Tive a “lata” de me prepor a essa tarefa. A Lídia fez alguma investigação sobre mim em poucos dias, aceitou e comecei a fazer essa adaptação.
Esta temática, tanto do colonialismo quanto do pós-colonialismo, está presente em quase todas as produções. Há sempre uma procura por contar a história em várias perspetivas?
Vais sempre encontrando razões diferentes ao longo da tua vida. Quer dizer, a história não é uma coisa fixa, nem o passado é uma coisa fixa, porque é sempre uma interpretação do que é. Toda esta investigação vem porque o meu gosto é sempre juntar histórias pessoais com uma coisa maior. Claro que uma relação entre duas pessoas ou uma relação amorosa é uma coisa grande e superior, mas tento sempre que tudo esteja integrado - gosto disso numa espécie de situação histórica, política, num outro mundo. Todos os filmes são a tentar explorar a forma como a tua vida pessoal e os teus desejos são, no fundo, influenciados pelo mecanismo que te rodeia. Um mecanismo histórico ou um mecanismo do presente, raramente consigo fugir a isso, porque é isso que me interessa e é isso que eu tento fazer nos meus filmes.
Quando começa a fazer cinema, num meio dominado por homens, sentiu a diferença ou não foi sequer uma questão?
Senti que havia essa diferença, mas a consciência mais política e real dessas implicações. Quando fui convidada, enquanto realizadora, para ir a uma conferência a Berlim lembro-me de ter percebido que havia muito para fazer e que estávamos completamente adormecidos nesse aspeto de lutar ou de sequer chamar a atenção para o número de homens que havia em comparação com as mulheres no cinema.
Isso continuou até há cinco anos. Dou aulas num curso estrangeiro já há 14 anos e muitas vezes tínhamos convidadas e que, às vezes, ao verem que o colégio dos professores do curso, eram tudo homens brancos. Era assustador. Ainda havia pouca consciência de que isto não pode ser, não tem uma solução fácil.
Realmente era um meio absolutamente masculino, desde o que possas imaginar: das piadas no trabalho, todos os realizadores serem homens… Nós temos hoje em Portugal também um caso único, que é nós termos uma única crítica de cinema no país, o resto são homens. Essa parte dos críticos parece que ainda não ficou muito equilibrada.
Agora felizmente as coisas estão a mudar completamente nesse aspeto e haver essa consciência muito forte é muito bom.
É mais revolucionário fazer filmes agora do que era quando os começou a fazer no final dos anos 90?
Sinto que agora todo o peso é maior. De certa forma, infelizmente, o cinema, mesmo no campo dos autores ou mais artístico, se virmos os festivais está lá a "burguesice" dos temas. É como se tivessem adormecido todas as pessoas à volta.
Sei que não é a função do cinema estar a dar lições, nem apontar culpados. O cinema não necessariamente precisa de ser um cinema com uma, um tema de intervenção, mas eu acho que o cinema é extremamente burguês a nível de ideias. Os filmes não precisam de ser declaradamente ou de uma forma explícita sobre isso. Mas eu acho que devemos pensar. Pelo menos, a minha intenção é começar a atuar de uma forma um pouco mais revolucionária.
O cinema português está a florescer agora?
Acho que sim, perderam-se todos aqueles pesos que vinham da minha geração, de uma espécie de elite do cinema, normalmente homens brancos das famílias intelectuais portuguesas. Agora as coisas não são assim. As pessoas vêm de escolas, vêm de meios completamente diferentes, têm backgrounds diferentes e começam a ser muitos. São homens, são mulheres, são pessoas trans, são o que tu queiras apontar. Toda a gente tenta fazer filmes e tem algum espaço.
Deixámos para trás esta herança que sempre foi um empecilho para mim, essa tradição de intelectual. Acho que essas heranças já não existem dessa mesma forma e acho que pode haver boom no cinema português com estas novas gerações que vêm de outros lugares.
O que é que ainda há para mudar nas produções portuguesas?
Acho que é um caminho que cada um tem de encontrar dentro do campo da sensatez. Estamos a entrar num tempo onde tudo o que é sensato deixou de existir, onde às vezes é difícil distinguir o que é real e o que é irreal. Não é tão futurista como era há um ano. Na realidade, tu vês no Instagram, mas não sabes se o que estás a ver se é real ou não. Psicologicamente, há tantas coisas que estão a perturbar toda a nossa forma de existir. Claro que também isso se reflete.
Na questão dos apoios, acho que o cinema português podia ter mais, não gosto muito de me queixar nesse aspeto, mas a verdade é que comparado percentualmente com outros países o investimento no cinema é muito pouco. Poderia também rever-se um bocadinho mais a possibilidade de outro tipo de pessoas estarem nos júris, não há pessoas negras no júri do ICA.
Depois, nesta nova era, cada um de nós tem de fazer o seu papel, pertencendo a que gerações pertençam, tanto no espaço quanto no tempo onde estão. Temos de lutar muito para ser sensatos e não lutar contra as pessoas que não são os nossos inimigos, que estão do nosso lado, que é uma tendência. Como há ali uma brecha mais fácil, atacam. As pessoas tendem a juntar-se às vezes a lutas que estão mal direcionadas. Isso dá o espaço para que todos os verdadeiros inimigos estejam lá: já tomaram o campo e já vêm por aí afora.
Na altura em que eles chegarem perto de nós, já não vamos ter força para lutar.
Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.
