Margarida: "o meu álbum tem emoções felizes, outras tristes e outras que ainda estou descobrir"

"Desconhece-me" é o nome do álbum de estreia da cantora e compositora de apenas 18 anos.

Margarida edita hoje (5 de junho) o álbum de estreia. "Desconhece-me" é o nome do disco da cantora e compositora – registo que está disponível nas várias plataformas digitais. 

Com apenas 18 anos, Margarida reúne as canções que escreveu nos últimos anos e que marcam o início do seu promissor caminho discográfico. 

A jovem artista, que cresceu em Vila Real, já “soma momentos que confirmam a força do seu arranque: esgotou o Grande Auditório do Teatro de Vila Real em nome próprio, foi artista convidada para a primeira parte dos concertos de Mari Froes no Porto, em Braga e em Lousada e participou em concertos de Miguel Araújo, Nena e Carolina de Deus”, conta o comunicado de imprensa. 

“Depois de vários avanços já conhecidos do público, entre os quais ‘Repreendida’, ‘Ninguém de Confiança’ e o mais recente ‘Só a Mim’, Margarida apresenta agora o universo completo do seu álbum de estreia. Um disco construído entre a adolescência e a descoberta, onde as canções surgem como reflexo de um processo contínuo de crescimento, dúvida, transformação e procura de identidade”, acrescenta a nota.  

“Desconhece-me” nasce sem a intenção inicial de ser um álbum fechado. As músicas foram sendo escritas em momentos diferentes, acompanhando mudanças, perguntas e emoções que acabaram por encontrar um ponto comum. O disco funciona como um registo em movimento, onde o autoconhecimento se faz devagar, entre certezas e incertezas, e onde aquilo que é íntimo se transforma facilmente em identificação para quem ouve", lê-se na nota. 
 

Entrevista completa a MARGARIDA


Quero começar pelo nome que deste ao disco. Porquê o título "Desconhece-Me"? 

Não demorei muito a pensar no título. Escrevo canções mas também escrevo poemas que não resultam propriamente em canções. Mas tenho um poema que se chama precisamente ‘Desconhece-me’. E esse poema fala sobre de como, às vezes, é mais fácil sabermos o que não queremos ser do que o que queremos ser. Acho que, muitas vezes, as pessoas têm demasiada pressa para saberem quem são, para se conhecerem. Mas acho que essa pressa leva apenas a que achem que sabem mas, na verdade, não sabem. Como as canções que compõem este álbum fazem parte do meu processo de crescimento, de construção e de autoconhecimento, queria que as pessoas o "usassem" para se conhecerem a si próprias. É certo que a maior parte das canções são sobre mim, mas, aos poucos, fui percebendo que havia pessoas que se identificavam com aquilo que escrevi. Fui percebendo que, afinal, não era só sobre mim. O título é para que as pessoas me desconheçam e metam o foco em conhecerem-se. 

Tens apenas dezoito anos. Como é que tens a maturidade que muita gente de quarenta ou cinquenta não tem? 

Honestamente, não sei. Acho que a maturidade, que dizem que tenho, vem de conversas [que oiço]. Como não escrevo só sobre mim, acabo por conhecer outras realidades. Tenho o hábito de absorver as conversas que oiço, o que vejo. E isso dá-me realidades de pessoas mais velhas, mais novas. É por isso que consigo abranger mais realidades e vivências nas minhas canções.

E é por isso que dizes que este disco também versa sobre as histórias dos outros? 

Sim. Eu comecei por escrever sobre os meus amigos. Eles contavam-me histórias e, no dia seguinte, eu já tinha uma canção. A partir desse momento, comecei a perceber que seria giro conhecer outras realidades, escrever sobre os outros e não individualizar tanto. Também é assim que conseguimos que os outros se identifiquem com aquilo que escrevemos. 

E tu fazes isso nas canções e também na poesia? 

Sim. Há canções que surgem da poesia. E há outras que saem de coisas que anoto. Gosto de escrever só por escrever. Gosto de escrever canções e poesia sobre os outros. E, muitas vezes, é da poesia que surgem as canções. 

Andas com um caderninho nos transportes públicos a escutar e a anotar as conversas à tua volta? 

Sim, por exemplo. Tenho alguns poemas sobre autocarros. E sobre outras coisas banais da vida. Quando não tenho nada para fazer começo a escrever no telemóvel ou então num caderno. 

Qual é a tua opinião sobre as compositoras da tua geração que estão a aparecer agora em força?

Acho muito bom que surjam cada vez mais compositoras, cantores e compositores mais novos. É muito importante que os mais novos possam mostrar o talento que têm e que possam dizer o que querem dizer. E isso nem sempre acontece. E quantas mais pessoas falarem sobre o que querem dizer, mais temas vão surgir. Temas, inclusivamente, que são realmente importantes e não são muito debatidos. Só quando se fala nesses assuntos é que se percebe a importância que têm. Acho mesmo muito importante. É bom para o mundo e para o país. 

O que é que te inquieta? Que temas é que deveriam ser falados ou transpostos para a arte?

Honestamente, acho que já existem muitos temas que estão a ser falados. Mas, por outro lado, há outros que estão a ser postos de parte, o que acaba por ser natural. O que faço é tentar não falar sempre das mesmas coisas. Tento acrescentar algum tipo de novidade. Vou buscar aqueles temas que as pessoas acham que não interessam, que ninguém fala e que, por isso mesmo, as pessoas acham que não existem. Só quando esses assuntos são falados é que percebem, “isto também me acontece”. (…) Mas acho que está a evoluir e é bonito ver isso a acontecer. Estou a tentar contribuir para isso. 

As tuas canções acabam por ser um reflexo da tua própria geração, não é? Sentes isso?

Às vezes, sim. As minhas canções, principalmente as deste álbum, fazem parte da fase da minha adolescência. E acho isso muito bom porque sei que não atingem apenas os adolescentes, mas também pessoas mais velhas que passaram por essa fase. Há muita gente que me diz que, embora já não se sinta agora assim, sentiu no passado. É bom não chegar a apenas um público.

A turbulência da adolescência é igual em todas as gerações. Os desafios é que talvez sejam diferentes…


Acho que a adolescência é muito vasta. Toda a gente vive a adolescência de determinada forma. É uma fase que é marcada por muitas incertezas, mas, por outro lado, há pessoas que têm muitas certezas. É muito diferente e inconstante. E abre portas a muitas canções e ao debate.  

Já que estamos a falar em fases, na descrição do álbum podemos ler que “são canções escritas em momentos diferentes, mas com um ponto em comum”. Que ponto comum é este? 

Acho que o ponto em comum é um pouco o que entrego de mim. Porque todas as canções têm um bocadinho de mim. Mesmo que eu escreva sobre outras pessoas, há sempre algo meu que coloco na canção. E acho que é isso que une os temas porque, além de fazerem parte da mesma fase, têm sempre um pouco de mim. É o que vai unindo os temas. Se ouvirmos as canções por ordem (ou mesmo que não seja por ordem), parece um processo contínuo, um caminho. Foi isto que tentei fazer, mas de forma inconsciente. É giro porque acabou por ser [um processo] muito natural. 

Também dizes que é um álbum quase em aberto. Explica-me essa ideia… 

Porque, na verdade, não escrevi as canções a pensar que ia fazer um álbum. Só que, entretanto, cheguei a uma fase em que percebi que estava a criar algo consistente e muito coerente. Pensei que, se calhar, seria giro juntar todas as canções e formar um álbum. Mas quando falo em “aberto” é no sentido de saber que as pessoas se reveem nas canções. Não é um disco sobre mim. Não é fechado, não é uma coisa singular. É sobre várias pessoas. Cada um poderá tirar a ideia que quiser de cada canção. Pode associar e adaptar a canção à sua experiência. É por isso que falo num álbum aberto e não fechado.   

O David Bowie dizia que não gostava muito de explicar as canções precisamente para que as pessoas pudessem fazer a sua leitura. Começaste a escrever quando eras muito nova. Tenho muita curiosidade em saber qual é que foi a primeira canção que escreveste. Era sobre que temática?

A primeira canção que escrevi foi para uma amiga minha que fazia anos. Foi a prenda que lhe dei. Queria experimentar a composição e compus a canção em inglês. A primeira canção que escrevi em português chamava-se 'Mas Tu Não'. Escrevi essa canção durante a quarentena, numa altura em que estava sem nada para fazer. E na altura percebi que preferia compor em português. Já tinha o desejo de escrever há muito tempo. E então comecei a experimentar. Cantava e tocava todos os dias mas nunca tinha escrito canções. Escrevia muitas histórias, inclusivamente fui premiada por ter escrito uma aventura literária. Adorava escrever na escola mas nunca tinha feito canções ou musicado um poema. A 'Mas Tu Não' falava sobre o início da fase da adolescência. Acho que tinha doze, treze anos. Foi uma fase em que me sentia um pouco diferente das outras pessoas. Sentia que via as coisas de uma forma diferente. É por isso que o refrão da canção é qualquer coisa como, "acontece isto, mas eu não sou assim". E depois tem o gancho, "mas tu não".  

Quero muito saber quais é que são as tuas influências musicais porque a música que ouvimos na adolescência acaba por nos moldar bastante… 

Claro. Desde pequena que ouço muita música por influência da minha família sobretudo do meu avô que era professor de música. O meu avô ensinou a minha mãe a tocar guitarra e a minha mãe e o meu avô ensinaram-me a mim. Tenho influências de muitas bandas antigas como por exemplo dos anos noventa. Também adoro os Beatles. E depois, sozinha, fui tentando conhecer artistas com os quais me relacionava mais, com os que tinham feito um caminho que gostaria de seguir ou que tivessem uma escrita que gostasse ou que fosse mais parecida com a minha. (…) Na agência onde estou encontrei artistas de quem já gostava muito. Por exemplo, a Bárbara Tinoco ou a Carolina de Deus. É muito giro. Além de serem artistas que cantam em português, gosto muito da forma como transmitem a emoção e o que sentem através das letras. (…) Em relação aos artistas internacionais, durante a adolescência gostava muito da Billie Eilish ou da Gracie Abrams. E adoro a Olivia Rodrigo. 

Sei que tiveste oportunidade de colaborar com a Carolina de Deus, certo? 

Sim, já tive. Já participei em alguns concertos dela e ela participou num concerto meu. E foi muito bom. Há um ano não imaginaria que fosse possível. A Carolina é uma pessoa maravilhosa. Foi incrível mesmo. 

E deu-te conselhos? 

Sim, muitos. Como eu estava a começar, ela dizia-me: "se precisares de alguma coisa, podes contar comigo. Diz-me o que é que precisas, sei que isto é novo para ti”. Foi uma grande ajuda.  

Lembras-te de algum conselho que te tenha marcado?  


Sim. Disse-me para nunca deixar de ser eu porque a base de tudo é sermos fiéis a nós próprios. Eu já tinha consciência de como isso é importante. É importante não nos desviarmos de quem somos para não nos arrependermos do que fizemos. Foi o que a Carolina me disse. Fiquei muito feliz porque tinha isso muito enraizado em mim. Ela reforçou a ideia. 

Ao mesmo tempo que estás no teu processo de e a apurar a tua identidade que já está muito presente neste álbum… 

Claro, esse processo é contínuo e vai estar sempre a acontecer. Mas há valores que mantemos. São valores que nascem connosco e nunca mudam. Mesmo que haja uma transformação no processo esses valores são para manter. 

Mas voltando à ideia de ser um processo que se faz devagar. Achei isso muito interessante porque, a meu ver, é revelador da tua maturidade. Como é que manténs essa lucidez numa sociedade tão acelerada, tão imediata, sendo que a tua geração já nasceu nesta velocidade? 

Acho que é querer sair um pouco de tudo, ser um pouco diferente e não ter medo de arriscar. Porque acabo por estar a arriscar. É arriscar com calma, mas continua a ser arriscar. É também ter uma paz que me permite refletir sobre certas coisas sobre as quais outras pessoas da minha idade não pensam tanto. Não é fácil. Às vezes, temos de abdicar de certas coisas. Mas, por outro lado, não é difícil para mim porque nasceu comigo. Sinto que é algo meu, já o fazia naturalmente. Apenas fui descobrindo como fazê-lo da melhor forma. Fui descobrindo o caminho. 

Há pouco falámos da Carolina de Deus. Mas também partilhaste o palco com o Miguel Araújo. Como foi essa experiência?

Isso aconteceu há pouco tempo. Foi incrível. Mais uma vez, aconteceu algo que não imaginava que pudesse acontecer. Nós cantámos uma música dele e depois cantámos o meu novo single, 'Só a Mim'. Foi uma experiência inacreditável. O Miguel disse-me que se identificava muito com a canção. E muita gente comentou no meu Instagram que esse tema merecia um dueto com o Miguel Araújo. Talvez tenha sido porque a escrita é muito parecida. 

Qual é a história dessa canção?

A 'Só a Mim' tem uma história muito gira. Eu sempre fui uma pessoa um pouco distraída, desastrada, mas nada assim de exagerado. E no ano passado, no final de um concerto que dei em Vila Real, dei um pontapé numa garrafa de água e a água verteu. Dei o pontapé porque estava um pouco nervosa e ansiosa, tendo em conta que estava muita gente a assistir ao concerto. E era o meu primeiro concerto em nome próprio. Mas quando aquilo aconteceu comecei a pensar no que devia fazer. Lembro-me que na altura não sabia o que devia dizer. Então, acabei por dizer: "isto, só a mim". Quando depois vi os vídeos do concerto é que percebi que é uma expressão dita por muita gente. Achei que muita gente ia relacionar-se com isso. (…)



É um paradoxo interessante, não é? Dizemos ‘Só a Mim’, mas acontece a toda a gente… 

Claro, claro. Mas havia realmente coisas que eu achava que só me aconteciam a mim. Claro, depois percebi que não era bem assim.  

E como fazer o videoclipe para esta música?


Foi incrível! Eu tenho duas paixões muito grandes na minha vida, a música e a dança. Sempre vivi nessa dualidade. Estive sete anos no ballet, depois mudei para jazz e depois para o hip-hop. Queria mesmo conseguir encontrar uma oportunidade para jogar com as minhas duas paixões. E acho que esta foi uma oportunidade ótima. Percebi que a canção era muito ritmada e que dava mesmo para dançar. E eu estava precisamente a tentar descobrir esse caminho. Fiquei mesmo muito feliz por poder fazê-lo e propus às minhas amigas da dança se queriam dançar comigo. Escolhi as pessoas que dançam comigo desde sempre e fiz a coreografia com o meu irmão. E isso tornou a experiência ainda mais bonita. 

Vais levar a dança para os teus concertos?

Estou a tentar. Gostava muito de dançar nos concertos. É algo que gostaria de adicionar, porque agora vou começar a ter concertos com banda. Dançar e mexer-me mais um bocadinho é algo que idealizo há bastante tempo.

Em relação às restantes canções do álbum, sei que pode ser ingrato escolher, mas há alguma que queiras destacar? Um, duas, três… 

Posso falar de algumas, que são mais divertidas e que canto em alguns concertos. Também são as canções que as pessoas comentam no final dos concertos. Há uma que tem a vibe da Só a Mim. Chama-se ‘Será Que Eu Sei de Mim’ e é sobre o fenómeno do diz que disse. Ou seja, quando, por vezes, as pessoas sabem mais sobre ti do que tu própria. O tema fala sobre isso. Há outra canção, chamada ‘O Que Não Me Foste’, que é baseada na história de uma amiga minha. É sobre uma carta que essa minha amiga escreveu ao pai que esteve ausente da vida dela. Quando li a carta pensei na quantidade de pessoas que passam por isso. O tema chama-se 'O Que Não Me Foste' porque é sobre aquilo que o pai não foi para ela e que ela queria que ele fosse. É sobre a falta de alguém tão importante na nossa vida. E esta é a realidade de muitas pessoas. O tema fala sobre as situações familiares em que os pais têm de fazer de mães e as mães têm de fazer de pais. Tenho outra canção, a ‘Sonhos Trocados’, que escrevi para uma outra amiga que na altura estava a passar por uma doença oncológica. É sempre um assunto muito sensível. E isto aconteceu-lhe durante a adolescência, uma idade que é de tudo e mais alguma coisa. Foi um choque. E, mais uma vez, utilizei a música como aliada para mostrar à minha amiga que estava ao lado dela. O tema chama-se 'Sonhos Trocados' porque durante essa fase a minha amiga tinha os sonhos trocados. Acho que, a partir dessa canção, ela percebeu que eu estava com ela na luta. Foi muito bom ver, mais uma vez, que a música ajudou. 

É um álbum com uma espécie de mosaico de emoções, não é? 

Sim, sim. 

Passa por muitas emoções, com várias texturas… 

Sim, com emoções muito felizes e outras muito tristes. E, honestamente, há emoções que ainda estou a descobrir. Mas é mesmo um carrossel. 

Como é que te imaginas daqui a dez anos? Consegues imaginar? 

Eu penso nisso, como toda a gente pensa. Mas é uma pergunta muito difícil, porque não sei como vou ser. Sei, porém, o que eu gostaria de ser ou sei que detalhes gostaria que estivessem no meu percurso. Como disse há pouco não quero deixar de lado a genuinidade. Gosto mesmo que as minhas canções sejam confortáveis para mim. 
Gosto de ser eu a escrevê-las porque sou eu quem vai movimentando o que quero, para onde quero. Quero manter o que sou. Quero relacionar-me e identificar-me com o que escrevo sem nunca me arrepender disso. Daqui a dez anos, quero estar feliz a fazer o que quiser. Acredito que seja a fazer canções porque sou muito feliz a fazê-lo.  Mas quero ter sempre muito de mim nas canções. Não quero perder isso porque é o que mais gosto. 

Como é que te sentes a editar este álbum? 

Sinto muita coisa. Há não muito tempo estava a lançar as minhas primeiras canções e a ficar muito feliz por saber que as pessoas iam poder ouvi-las. E agora já estou a juntar quinze canções para fazer um álbum. É muito bom. E é algo muito sensível para mim porque entrego mesmo muito de mim. E saber que estou a partilhar este pedacinho de quem sou com as pessoas é muito especial. Honestamente, ainda não caí em mim. (…) Todo o processo de gravar as canções, sobretudo com o apoio que tenho, está a ser muito bonito. Está a conduzir-me para um sítio que nunca esperei conhecer. Pelo menos, não neste momento. É muito bom. Foi sempre o que quis fazer. É mesmo giro ter conseguido construir um álbum à minha maneira. É muito bonito e estou muito feliz. Estou muito ansiosa e com vontade de saber o que é que as pessoas acham. Quero saber se gostaram, se não gostaram. Se se identificam ou não. É esse o meu objetivo.