Mari Froes sobre álbum de estreia: "é sobre fins, recomeços, viagens, aprendizagens e muitas vivências pessoais"
"Esquina do Sol" é o nome do disco. A artista brasileira atua este sábado na Bliss, em Vilamoura, no Algarve.
A brasileira Mari Froes, de 23 anos, editou "Esquina do Sol" (álbum de estreia) a 31 de julho.
O álbum é apresentado como um "corpo de trabalho profundamente pessoal e atmosférico que reflete a jornada da artista através do amor, saudade, liberdade e autodescoberta." Mari Froes "explora temas como a vida na estrada, paixões intensas, desgostos, renascimento, espiritualidade e a busca de pertença. Cada canção revela uma camada diferente da sua identidade, moldada por anos de viagens, atuações e navegação pelas complexidades emocionais tanto do crescimento pessoal como da ligação humana. Escrito a partir da perspetiva de alguém em constante movimento, 'Esquina do Sol' reflete a beleza e a solidão que advêm de viver entre lugares. O álbum nasceu de longos períodos longe de casa, de encontros e despedidas, de cidades que deixam a sua marca e momentos que permanecem muito depois de terem partido. Ao longo do disco, Mari capta a sensação de estar suspensa entre o movimento e a quietude, entre a independência e a intimidade, entre o desejo de continuar a vaguear e o desejo de ser verdadeiramente vista", continua a nota. "O título do álbum está intimamente ligado ao simbolismo do Sol no Tarot, uma carta associada à clareza, iluminação, calor, alegria e caminhos abertos. De muitas formas, 'Esquina do Sol' surgiu da busca interminável de Mari pela luz: uma jornada de expansão, autodescoberta e transformação que, em última análise, a levou de volta a si mesma. O resultado é um disco que abraça tanto a vulnerabilidade como a força, celebrando a beleza da incerteza enquanto encontra esperança no desconhecido.
O disco "mistura, de forma fluida, influências brasileiras contemporâneas com texturas indie-pop, criando um som que se sente ao mesmo tempo intemporal e moderno. Arranjos acústicos quentes, ritmos orgânicos e melodias banhadas pelo sol servem de pano de fundo para histórias profundamente pessoais, mas universalmente relacionáveis. Há uma sensação de movimento ao longo do álbum - estradas abertas, costas intermináveis, noites ao luar e novos começos - deixando ainda espaço para momentos de reflexão silenciosa e intimidade emocional", continua a descrição de "Esquina do Sol".
O álbum chama-se "Esquina do Sol". Qual é a razão deste título?
"Esquina do Sol" é um nome que, para mim, tem muito a ver com o tema de todo o disco. É sobre fins, recomeços, viagens, aprendizagens e muitas vivências pessoais. Eu gosto muito de "Esquina do Sol". Significa que podemos estar a andar pelas ruas ou pelas vielas, a ver as coisas, a perceber o mundo, e, a dada altura, podemos virar numa esquina que nos dá alguma luz. Uma iluminação como a do Sol. Quando escolhi o título, estava a pensar nisso. Estava a pensar na correria que é a vida, com tantos fins e tantos recomeços. E estava a pensar em todas as experiências novas que estou a viver. É sobre essa virada de luz.
Por falar em lugares por onde andaste, na canção 'Dezenove Verões' conseguimos perceber a importância das viagens no teu disco. Gostas de observar e de absorver os lugares por onde passas?
Sim, sim. Eu realmente gosto muito de prestar atenção a cada lugar por onde passo. Gosto de experienciar os lugares e de perceber que referências é que posso usar nas minhas canções. Eu escrevo muito como um desabafo. A 'Dezenove Verões, por exemplo', foi exatamente isso. Essa música surgiu quando percebi o quão longe estava de casa. Foi quando fiz uma digressão fora do Brasil pela primeira vez. Escrevi essa canção em 2023, quando estava em Berlim [na Alemanha]. Foi num momento em que olhei para a janela e pensei: "caramba, estou muito longe de casa. Estou a viver um momento completamente novo na minha vida." E isso inspirou-me para escrever essa canção.
Numa entrevista que deste à publicação portuguesa "Ritmos e Batidas" disseste que o álbum "tem pitadas de tudo". Creio que essa mistura exemplifica a tua vontade de explorar a música com toda a liberdade…
Sim. Gosto muito de ouvir géneros musicais diferentes. É muito importante para mim ter essa liberdade e poder experimentar ritmos diferentes, coisas diferentes. Eu senti liberdade total neste primeiro disco. Como é o disco que me apresenta ao mundo quero que mostre justamente isso: essa amplitude de coisas que eu gosto e com as quais me identifico.
A canção 'Dona do Mar' é um exemplo disso mesmo, não é?
Sim, sim.
E como é que crias as texturas musicais na tua cabeça? Presumo que a primeira fase de composição sejas tu com um instrumento. Algo muito simples, muito despido. Quando estás nessa fase embrionários já estás a pensar na atmosfera que a canção pode vir a ter?
Geralmente começo logo a perceber qual o caminho que a música vai seguir. Acho que dá para ter uma ideia principalmente pela batida. Mas o ponto para entender quais os elementos que vão entrar e a forma como a música é transformada para algo único, digamos assim, acontece na parte da produção, quando converso com os produtores para entender qual será o caminho mais interessante. Dou ideias mas também gosto muito de escutar as ideias dos outros. E é assim que vai nascendo, ao ser produzido. O processo mais a fundo de criação acontece no estúdio.
Há pouco falámos de viagens. Tenho curiosidade em saber como é que estás a ser acolhida nos vários pontos do mundo por onde estás a passar com a digressão. Li também numa entrevista que ficaste muito surpreendida quando viste que o público alemão ficou completamente rendido. Isso tem acontecido?
Tem acontecido bastante. A forma como sou acolhida em tantos lugares diferentes tem sido completamente surreal. Na digressão atual já dei quarenta shows. Faltam apenas três. E estou a dar concertos em palcos maiores e também em muitos festivais como é o caso do Montreux Jazz Festival ou do Gent Jazz Festival. Estou a passar por festivais famosos, reconhecidos. Tem sido uma honra enorme poder levar a música brasileira a lugares onde ainda tem pouca representação. Fico muito feliz.
Apesar de toda a azáfama que estás a viver, além das tuas vivências e desabafos, este disco também fala de crescimento. Gostas de abrandar para refletir sobre ti, sobre o teu crescimento, sobre a tua arte?
Sim. Eu naturalmente sou uma pessoa muito reflexiva. Cada momentinho que tenho para estar sozinha penso em tudo. É quando vou assimilando as coisas. Acho que escrever e compor ajuda-me precisamente a fazer isso. Quando escrevo, vou assimilando as minhas próprias vivências. Ajuda-me bastante.
Eu gostei muito da canção 'Loba Solitária'. Em que medida é que esta canção te descreve?
Essa canção descreve-me bastante sobretudo no sentido em que sou uma pessoa muito independente. Sempre fui assim. Para mim é uma canção que é um grito de força e de coragem para todas as mulheres. É uma música que fala sobre a sensação de: "eu consigo, eu posso fazer o que quiser, tenho-me a mim mesma. Não preciso de ninguém, de nada. Vamos lá." É sobre isso.
Editaste 'Rio Lua' como single. Qual é a história desta canção e qual foi a razão que levou a escolhê-la para ser um single?
A 'Rio Lua' é uma música que compus no Rio de Janeiro. O nome é autoexplicativo. É bem literal. Compus o tema quando fui para as sessões de estúdio no Rio de Janeiro. Quando cheguei ao estúdio, logo no primeiro dia, olhei para o céu e vi a Lua gigantesca e amarela em cima da cidade. Era uma vista surreal, absurda. A Lua gigante no Rio de Janeiro. Assim que vi aquela vista pensei: "preciso de escrever uma música sobre isto. É demasiado bonito para não escrever sobre isto. E aquilo ficou na minha cabeça. Foi então que acabei por imaginar uma história de amor no Rio de Janeiro. É um convite. Como se estivesse a convidar uma pessoa para estar ali comigo a viver um romance. E foi nessa brincadeira que surgiu a 'Rio Lua'.
Como é que te sentes quando te descrevem como uma das novas promessas da Música Popular Brasileira (MPB) com o cuidado de lhe dar um toque de modernidade. Como é que te sentes com esta descrição?
Eu acho que a MPB é muito ampla.
Sim.
Então, eu consigo entender quando falam numa promessa da nova geração da MPB mas, por outro lado, acho que a MPB é tão gigantesca e abriga tantos géneros, que dizer isso não é dizer muita coisa. A MPB tem tudo, é tudo. E o que é o velho? O que é o novo?
Sim.
E o velho vai virar o novo? E o novo vai virar o velho? É muito confuso para mim. Mas entendo. Tem de classificar de alguma forma.
Há uma curiosidade muito gira que encontrei sobre ti. É verdade que colaboraste com o baterista Matt Sorum que já tocou como os Guns N' Roses, por exemplo?
Sim, sim. Eu estive no estúdio dele em Palm Springs [nos Estados Unidos]. Foi no começo do ano passado. Gravei umas músicas lá no estúdio, com ele e tudo mais. Isso rolou. Foi muito legal.
Gostas de rock?
Adoro.
Como não tens fronteiras musicais, podemos esperar tudo de ti no futuro, certo? Há um grande horizonte para palmilhar musicalmente…
Com certeza. E eu gosto exatamente de misturar várias coisas e, às vezes, coisas que não são óbvias de serem misturadas. Para mim é divertidíssimo.
Vais andar pela América do Norte. Como é que te sentes com a digressão que te espera?
Sinto-me muito feliz. Vai ser a minha primeira vez nos Estados Unidos e no Canadá. Estou muito animada com esta digressão. Acho que vai ser muito legal, muito lindo. E estou animada para conhecer ainda mais os Estados Unidos. Ainda não conheço assim tão bem. Fui a Palm Springs para gravar algumas músicas e também a Los Angeles. Mas agora vou realmente conhecer o país mais a fundo.
Tens tanto potencial para colaborar com tanta gente. Com quem gostarias de colaborar um dia?
É uma pergunta é difícil mesmo. É difícil mesmo. Há muita gente. Mas neste momento gostaria de trabalhar com os Milky Chance. São uma banda indie [alemã].
Dizes que ouviste discos que mudaram a tua vida. Que álbuns foram esses e de que forma mudaram a tua vida?
Foram tantos. Mas, por exemplo, quando tinha 13 anos, viciei-me completamente no disco "Ultraviolence", da Lana Del Rey. É um disco que mudou bastante a minha vida. Fiquei completamente viciada. Aliás, foi a primeira vez que fiquei viciada daquela forma num disco. E acabou por me influenciar bastante para o caminho do pop indie, assim meio alternativo. Esse foi um dos discos que mudou minha vida. Também amo bastante o "Construção", do Chico Buarque, e "Os Afro-Sambas" do Baden Powell. É fantástico, incrível. Enfim, são muitos os discos, de muitos géneros, que mudaram minha vida. São discos que mudaram o meu jeito de ouvir música e me influenciaram até hoje.
O que é que mais amas na música?
Eu diria que é a capacidade que a música tem de nos fazer sentir. A música é frequência, não é? E realmente a música tem esse potencial gigante. A arte tem isso, no geral, mas acho que a música talvez tenha ainda mais capacidade de nos fazer sentir tanta coisa. Tem a capacidade de despertar tantos sentimentos, de criar tantas memórias. A música molda as nossas memórias e as nossas vidas. Por outro lado, como, por vezes, a música é tão normalizada, até nos esquecemos do poder que tem. Acho que é isso o que mais amo na música.
Sobretudo se for honesto, não é? Se for uma arte honesta entre o artista e a sua arte.
É isso.
E no teu percurso vais conseguir manter essa honestidade, não vais?
Com certeza. É o meu lema.
Vais atuar este sábado no Algarve. O que é que estás a preparar para o concerto?
Bom, vai ser um show em Vilamoura. É o último show da turnê. Vai ser na praia e vai ser muito especial. Vai ser o show que finaliza a jornada de três meses pela Europa. É um show muito legal, com banda completa. Vou tocar músicas do álbum novo, mas também músicas mais clássicas. Vai ser um show muito divertido. Tem sido muito legal fazer esses shows aqui pela Europa e vai ser incrível terminar a turnê em Portugal.
