Maria Adelaide, um internamento psiquiátrico por traição

No século XX, o internamento de Maria Adelaide Coelho da Cunha mudou o paradigma português.

Maria Adelaide Coelho da Cunha é internada num hospital psiquiátrico em 1919, depois de ter traído o marido. A primeira vez que se cruza com Maria Adelaide foi com o filme de Monique Rutler – “fez milagres com o orçamento reduzidíssimo e com o que conseguiu apurar”. Quando Manuela Gonzaga entrevista a cineasta, estava na casa dos 30 e escrevia para a revista Marie Claire. Foram-lhe oferecidos os diários de Maria Adelaide e teve a sensação que “não tinha unhas para tocar esta guitarra”.  Anos mais tarde, a Máxima convida-a para fazer uma reportagem no Palácio de São Vicente. A empatia imediata com a dona, Clara Ferrão, leva a que Maria Adelaide se volte a pôr no caminho: vê a biblioteca e os arquivos que tinham descoberto. Esses são os papeis que levaram a autora Manuela Gonzaga a escrever o livro “Doida não e não!” em 2009. 

Como foi a juventude de Maria Adelaide no final do século XIX? 
Cresce no meio de uma elite. Não estamos a falar do que seria uma mulher comum no início do século passado, é lhe dado acesso à cultura - tudo aquilo que é literatura, que é teatro. Foi abençoada com uns pais maravilhosos. Raízes campesinas, por isso quando ela tem, mais tarde, a sua opção de vida, ela diz: "As minhas raízes estão campesinas também." Os pais eram um casal muito enamorado, cresceu a ver aqueles dois seres amarem-se e respeitarem-se. 
O pai fez uma coisa extraordinária com o padrinho de Maria Adelaide, o Conde de São Marçal, o Diário de Notícias. É a imprensa para todos, jornais para pessoas com muito pouco dinheiro. O Diário de Notícias faz parte de um movimento, que existia ao nível europeu, que é: vamos difundir as notícias, mas de uma forma que as pessoas possam pagá-las, porque a literacia tinha os seus custos. 
Maria Adelaide não cresceu logo no palácio, mas cresce com acesso à cultura e letrada, numa altura em que nós tínhamos um índice de analfabetismo imenso. Superior aos 90%, uma loucura. Tem professores. Sei porque vi cartas de professoras, no processo dela a referir a vivacidade, a inteligência, a graça que ela tinha e até um autoritarismo. Dá uma sensação que era uma criança com uma alma imensa, com uma vontade de saber imensa e ajudou muito o pai no jornal.
É o braço direito do pai no Diário de Notícias, depois casa com aquele senhor que pega no jornal e que o leva pra frente. José Alfredo da Cunha é o administrador, o Diário de Notícias tinha problemas económicos e não é casamento feliz. 

Ao nível da presença social era a perceção? 
Nós podemos ter várias vidas e nenhuma delas ser mentira. Ela dizia poesia e com muita beleza. Tinha uma voz extraordinária. Depois havia grupos, um de senhoras ou de famílias que tinham mais peças de teatro, outras eram mais poesia. Havia um fervilhar cultural muito grande nas elites portuguesas da República. Passámos da monarquia para república. 
Acontece uma coisa também, a Igreja Católica deixa de ter o poder que tinha sobre as consciências e as almas, nunca no processo dela se vai falar em pecado, fala-se em doença. Aquela nomenclatura foi apagada. É o predomínio da ciência, no fundo, vão ser tão carrascos como os anteriores. Mas ela tem de facto uma vida socialmente muito interessante. 
Agora, nós podemos muitas vezes ter vidas socialmente ou culturalmente muito interessantes e temos um vazio de coração. Maria Adelaide é uma apaixonada. Tem um marido que está semanas sem falar, sem dirigir a palavra. Mas também é fácil a pessoa pensar que aquele casal é feliz. Ele não lhe batia - era só o que faltava, ela também aí não chegaria a tanto. Mas de facto há muita forma de agressão. Tem um filho único mimadíssimo e aquele coração ocupa-se em, nas tarefas domésticas, fica à espera que o filho chegue das noitadas para lhe dar o chocolatinho quente. Havia um deserto emocional e amoroso muito grande na alma daquela mulher, que era de facto uma apaixonada. 

Acaba por encontrar esse conforto no Manuel?
Acabou por o encontrar, mas nem ela estava à procura nem Manuel. Foram apanhados na sua não prevenção. Maria Adelaide era estrita, era uma pessoa um bocado rigorosa com os cânones sociais. Aquele rapaz tinha um ano a menos que o filho dela. Nunca passaria pela cabeça apaixonar-se por ele. Manuel olha para Maria Adelaide como uma patroa, está no altar. 
Há uma defesa que é uma indefesa total. Não o vê como um serviçal, porque respeita-o muito. É uma pessoa muito mais nova, portanto está à vontade. É letrado. Vim a saber mais tarde, por um amigo, que estaria ligado à Carbonária - como não encontrei concretamente documentação, não digo no livro, porque é uma biografia. De facto, era um homem muito culto e muito interessado. Maria Adelaide dá acesso total à biblioteca da casa e pelas empregadas sabemos que era tratado de forma especial, diziam que ele tinha mesa à parte, bebia do bom vinho e comia a comida dos patrões. 

Quando Maria Adelaide foge de casa, como é recebida a notícia no Palácio de São Vicente? 
Pode haver um envolvimento criminoso inicialmente, mesmo que não o houvesse não deixava de ser grave. A pessoa pensa em tudo, Maria Adelaide só manda uma carta quinze dias depois. O Alfredo Cunha tem a noção de que não se portou bem, estão convencidos que se matou. 
O Manuel é despedido e ela escreve qualquer coisa: "Talvez o meu marido tenha visto qualquer coisa que não lhe agradou". Foram passar férias à Serra da Estrela, onde o Doutor Alfredo da Cunha tinha família e quando vem o Manuel, que é motorista, volta é despedido. Encontram-se dias depois na Baixa, quando tropeçam um no outro e aí já caíram os véus e as defesas todas, ficam a falar muito contentes um com o outro e ela faz um pedido, que é um marco. Já não é uma patroa a falar com o empregado, é uma mulher a falar com um homem: "Deixe a cadeira de chofer." Maria Adelaide está a ver que ele tem potencial para ser muito mais. De repente, há uma faísca, já é a mulher a falar com o homem e já se consciencializaram bem da importância que têm um para o outro e consumam esta atração. 
Os documentos da polícia falam disso, falam os quartinhos que alugavam. Há uma gripe, que ceifou milhares de vidas, e o Manuel cai à cama. A Maria Adelaide começa a ficar entristecida, se calhar até na altura em que ele é despedido, e tem de dar passeios. Aqueles passeios são o escape perfeito para ir ter com ele e tratar dele, ela salva-o da morte. Sai todas as tardes, numa rua em Santo Antão, uma daquelas ruinhas da Baixa, vai modestamente vestida (uma senhora daquelas não pode ir com joias e casacos de peles, um quartinho esconso do mundo). Era muito vistoso, demasiado. Aí começa de facto fisicamente o amor deles. Volta para casa de rastos. É evidente, ela não sabe se no dia seguinte o vai ver vivo.
Esta prova que passam os dois decide-os, ele não quer uma situação daquelas e ela também não, não acham que seja digno. A sociedade, depois mais tarde, vai acusar: "Mas porque é que ela não teve lá o romance com o um motorista, ninguém tinha nada a ver com o assunto e mantinha as aparências?" Mas é um amor grande demais para manter as aparências. 

Custa a Maria Adelaide deixar o conforto?
Está apaixonada, a pessoa até vai para uma ilha deserta... Sobretudo, aquilo não lhe dizia nada, porque de facto tinha todas as mordomias, mas está numa tristeza muito grande. Agora, não leva joias, porque o Manuel disse-lhe: "Vais viver do meu trabalho. Portanto, é das roupas e das coisas que eu te conseguir comprar." Agora há aqui um pormenor delicioso: leva roupas muito modestas, leva um saco, mas ele compra-lhe bilhete em primeira classe no comboio. Isso eu acho lindíssimo. A segunda classe e a terceira classe naquela altura eram muito duras. 
Vão para uma casinha muito modesta e com um aspeto fresco. Só que começa a haver muitos anúncios no Diário de Notícias a procurar por ela, porque estão convencidos que ela se matou e ela manda a tal carta a dizer: "Estou viva, mas em condições tais que é preferível que me considerem morta." Mas ela está feliz, não se importava nada de ter aberto mão, aquilo não a preenchia. Não estava à espera que acontecesse o que aconteceu: que a fossem buscar e obrigá-la a vir; a forma como era vista uma mulher que naquela altura não só tinha um caso, que fugia com este caso e que queria o divórcio, ainda mais com a diferença de idades. Ainda hoje a pessoa pode achar natural que um homem de cinquenta anos ande com uma, com uma miúda de vinte e poucos, mas se for ao contrário começa-se a torcer um bocadinho o nariz. 

Se fosse Alfredo e não Maria Adelaide a ter o caso o desfecho não envolveria o internamento?
Completamente. Não havia ali um diagnóstico possível. A psiquiatria era uma ciência muito jovem e abençoada ciência, porque até uma certa altura a loucura era vista como um mal de Deus. Os loucos eram tratados com muita crueldade. Ainda havia a jaula das loucas furiosas, a Maria Adelaide descreve isso muito bem nos seus diários e que é pungente ver como é que aqueles seres são tratados. Passou a encarar-se a loucura, não como um castigo de Deus, não como uma possessão demoníaca, mas como uma doença e a doença merece compaixão. 
No lado contrário, Alfredo da Cunha apanha um choque da vida. Há ali uma imposição patriarcal muito cruel. Mas era assim, quer dizer tinha uma grande liberdade apesar de tudo. Em termos sociais, não me espanta que as pessoas tenham “engolido” a versão do " enlouqueceu", porque se virmos as coisas de fora tem esta vida, diz os poemas do marido e agora foge com o motorista. 
O Tartufo da história, é aquele médico que estava interessado nela e que deve ter ficado furioso. Quem coordena esta missão de internar a Maria Adelaide num hospital de psiquiátrico no Porto é esse médico. Há aqui uma série de fatores que também temos que dar à devida equação. 

O caso de Maria Adelaide tem efeitos na sociedade portuguesa?
A primeira vez em que ela foge do hospital. O Manuel é preso sem culpa formada. Portanto, há ilegalidades atrás de ilegalidades, atrás de ilegalidades. Maria Adelaide não é um caso único. Havia mais pessoas internadas por desgostos de família, porque tinham feito alguns disparates. Então isto traz alguma luz. 
No Parlamento foi mudada a lei dos internamentos. Já não bastava a única assinatura do doutor Júlio de Matos, que com uma assinatura decretava a guilhotina social dos visados. Um deles era um médico que estava internado quando ao mesmo tempo que Maria Adelaide, acabou por fugir e depois não voltou a ser internado nem apanhado. Por fortunas de família ficavam ali. Deram um mau passo. As próprias enfermeiras dizem isso
Já não há conventos onde se metam as meninas, que chatice. Dava tanto jeito. Mas há um hospital de malucos. Olha, ficam ali. 

Aliás, o internamento de Maria Adelaide leva assinaturas de peso, de figuras como Júlio de Matos. 
Nós estamos a falar de nomes de peso, até de referências atuais, têm nomes nos hospitais: Júlio de Matos, Egas Moniz, Sobral Siza. São as mentes mais brilhantes da ciência. Agora, que papelão… Há ligações políticas também que temos de ver. São todos figuras de topo da maçonaria. Estas ligações, não é por ser a maçonaria. A Igreja Católica era a mesma coisa. As estruturas de poder piramidais têm esse poder aglutinador e depois de defesa entre pares. Não é da estrutura em si, é uma coisa de ser humano. Eles apoiaram-se e houve muito dinheiro que correu ali.

Ainda internada, como eram a relação entre os textos que Maria Adelaide começa a publicar nos jornais e as respostas de Alfredo da Cunha?
É um escândalo! É o primeiro Big Brother português. Esses jornais chegaram a ser mandados para o Canadá. Foi o advogado que a convenceu, porque ela, ela diz isso muito bem quando ela diz: "Eu quis falar baixinho, eu não quis escandalizar", porque o ex-marido pedia-lhe sempre isso. A certa altura o advogado diz-lhe: "Não é possível, ou grita alto ou ninguém a vai ouvir". Começa a escrever e mandar as crónicas para A Capital, que são extraordinárias. Conheci uma senhora que o pai dela era quem ia pôr as cartas da Maria Adelaide no correio. Maria Adelaide escrevia as cartas e depois dizia ao rapaz: "Olha amanhã acorda-me sem dó" e ele, que andava a estudar música, dizia: "Sem dó, ré, mi, fá, sol". 
Estas crónicas trouxeram ao de cima alguns medos atávicos que nós temos enquanto portugueses. Nós devíamos ir para o Divã enquanto povo. Em Portugal há muito medo de ser o primeiro a dançar, de ser o primeiro a dizer: "Eu gosto daquilo", seja uma peça de arte, seja um livro. Há um medo do compromisso. Tivemos a Inquisição, que foram trezentos anos de denúncias ocultas, perdições sem culpa formada e autos de fé. Isso marca-nos nós devemos fazer um exorcismo nacional.
A maneira como ela foi contada, o desassombro da Maria Adelaide, leva a que passe a ter do lado dela esmagador a opinião pública. Não se faz isto, não se mete num hospital de doidos uma pessoa de bom juízo. 
Há aqui lado de revolucionário na Maria Adelaide porque ela não se deixa cair, era muito fácil nesta situação toda passado algum tempo lá está a dar razão e dizer "Sim, senhor, isto foi um ato de loucura, levem-me de volta para o conforto do meu lar”, e ela não cede. 

A determinada altura é dada a chance de Maria Adelaide sair do país, mas recusa.
Nunca mais a iam ver, recusa. Em extremo, teve as pessoas certas a buzinarem ao ouvido: "não faça isso". 
Conseguiu o volte-face do Governador Civil do Porto a ir buscá-la, mais o advogado, de braço dado com o outro para ir a uma consulta porque podia pela lei. Há ali artifícios legais que eles souberam usar. 

Como é a vida de Maria Adelaide depois de conseguir sair?
Mesmo quando foge, está há vinte e tal anos interdita. Manuel teve quatro anos preso. Foi escandaloso. Acusado de cárcere privado e de uma série de coisas. 
O Manuel perdeu muito com isto. Podia ir para o Brasil, onde tinha uma série de primos, oficinas e garagens, ia ficar milionário. Aqueles que foram naquela altura e com a capacidade que tinha, não foi porque ela não podia ir. Ele não a deixou um segundo e foi fazer aquilo que ela tinha pedido para não fazer: Manuel voltou a ser taxista, voltou a ser motorista. 
Tiveram uma vida de família. Conheci ainda Maria Emília Pérez que tinha quinze anos quando a Maria Adelaide na casa dos pais dela fez as pazes com o filho. A espreitar tudo da janela da cave viu aquela senhora de cabelinho branco sair do táxi. Era uma pessoa discreta com uma grande contenção, com uma grande elegância de maneiras e de agir. 

Por que só se reencontra com o filho vinte anos depois do internamento?
É quando o marido morre porque o próprio filho, apesar de já ser homem feito, tem todo este peso e até uma certa manipulação. Primeiro há um miúdo muito mimado e que também é traído: a mãe troca-o e foge com um rapazola duma classe social altamente inferior. Depois o pai era um homem muito frio, muito distante, mas há esta coisa "eu vou me ligar ao meu pai, agora vou ter bocadinho de pai".
Como o pai tem uma ascendente muito grande sobre ele, espera que o pai morra e nessa altura pede aos seus grandes amigos do Porto para encontrar a Mãe. Maria Adelaide aceita com condições: tinham de tirar o peso de ser uma interdita. Afinal, podia ser presa, só que tinha sido tão escandaloso o que fizeram que já ninguém queria mexer naquilo. O documento do médico é lindíssimo em que diz “a sua mãe está tão lúcida como sempre foi”. 

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.