Maria Cândida Rocha e Silva, a primeira mulher na bolsa portuguesa

A fundadora e presidente do Banco Carregosa tem mais de cinquenta anos de carreira no setor económico.

Maria Cândida Rocha e Silva é fundadora e presidente do Banco Carregosa. Começou a trabalhar no setor económico na década de 70, tem mais de cinquenta anos de carreira. Foi a primeira corretora oficial da Bolsa Portuguesa. Apesar do banco só surgir já nos anos 2000, a história é muito mais antiga.

Tem memórias da sua infância ligadas à Casa Carregosa?

Tenho. Tenho muitas, desde pequenina o meu pai nunca trabalhou noutro sítio que não fosse a Casa Carregosa. Isto acentua-se um bocadinho pelo facto de eu, até aos meus dez anos, não viver no Porto. Todos nós nascemos em Vila do Conde, de onde eram os meus pais e avós. Vila do Conde, na altura, era mesmo uma vila com muito pouco movimento, toda a gente se conhecia, coisa que não acontecia no Porto. Portanto, quando eu vinha ao Porto, tinha que ir fatalmente à Casa Carregosa, onde meu pai trabalhava.

A Casa Carregosa estava inserida numa realidade que era diferente da minha e, portanto, tudo isto era um bocadinho de encantar, ser diferente, de chocar no bom sentido. 

Apesar desta influência, acaba por ir estudar Filologia. 

Sim, porque nunca pensei que algum dia viesse a ter qualquer coisa com a Casa Carregosa. Já estava muito bem organizado. O meu pai e os seus sócios tinham o seu staff, toda a gente trabalhava muito bem, tudo muito organizado. Portanto, nunca me passou pela cabeça que eu, de alguma maneira, viesse a colaborar.

Felizmente, nunca fui daquelas pessoas que estavam quase a terminar o liceu e: "Pra que que eu tenho vocação?" Não, eu nunca tive isso. Eu sempre soube que queria línguas, que queria filologia, no sentido da etimologia. Interessava-me pela origem das coisas, das palavras sobretudo. Eu gostava muito de ter sido tradutora simultânea nas grandes organizações, tipo ONU. Gostava disso. Nada que tivesse a ver com números.

A vida dá muitas voltas e ao fim de muitos anos, o pai achou que eu seria a pessoa indicada para ir para beira dele. O meu pai reformou-se com oitenta anos, deixou de ir ao escritório e fiquei eu. Lembro-me do pai uma vez me dizer, como quem faz um grande elogio: "Eu queria muito ter um filho homem. Não tive. E, portanto, tu fizeste bem o papel." E isto é o elogio que eu guardo do meu pai de mais precioso.

Antes desta chegada ainda foi para África, para Angola. Como é que foi esta mudança?

Foi uma atitude que tomamos a nível de casal e que foi muito bem tomada. Eu tinha uma irmã que vivia em Luanda e ela tinha muitas saudades, achava que se eu fosse para lá talvez essas saudades fossem um bocadinho mitigadas. Foi muito bom. Foram à volta de cinco anos maravilhosos! Eu guardo uma saudade. Tenho muita pena. A independência, aquele período conturbado, de qualquer maneira iria impedir que eu lá continuasse. Mas tenho muita pena, o tempo que eu lá vivi, tanto em Luanda como na Lunda, na Companhia dos Diamantes, foram tempos fantásticos, que agora recordo com muita saudade, como períodos de grande enriquecimento. Tenho uma filha nascida em Luanda e uma filha nascida na Lunda. As minhas filhas, claro, são o meu maior tesouro, como imagina. Além disso, trazem essa lembrança que foi muito boa.

A vida em África naquela altura tinha tudo de bom. O Porto nos anos sessenta era muito preconceituoso, percebe? Se tinha uma amiga, os pais perguntavam: "E quem é a amiga? E de quem é filha? E como é que se conheceram?" Em Luanda, as pessoas eram todas expatriadas, porque houve naquela altura uma grande imigração para África, sobretudo para Luanda, para o que na altura eram as colónias. Era uma imigração, com gente muito diferenciada e nós arranjávamos afinidades, no campo profissional ou noutro qualquer. Desde que houvesse qualquer coisa que tivesse a ver comigo gostava de ser amiga e íamos formando a nossa roda de amigos. Vivia-se muito fora de casa por causa do clima, penso eu, tínhamos praia todo ano. Era o sonho de qualquer jovem.

Como foram estes anos que passa fora e em que dá aulas?

Dava aulas de português e francês, sobretudo francês. Eu sempre gostei muito e tinha gente na família que casou com franceses, portanto, tinha muitas hipóteses de treinar. Acho que sempre falei muito bem francês, além do liceu procurei ser aluna da Alliance e saber mais e mais. Gostava muito. Ainda hoje, nesta idade, não treinando pois ninguém fala francês. É uma língua tão bonita que foi posta de lado. A língua internacional é o inglês. Quando, por qualquer razão, encontro em qualquer lado uma pessoa francesa com quem eu possa falar um bocadinho, gosto. Gosto muito. Sempre gostei e encontrei essa possibilidade. Era um instituto de secretariado. Olhe, a minha filha, que nasceu nessa altura, tem agora sessenta anos. Portanto, há sessenta anos. Foi muito interessante. 

Quando volta a Portugal, tem o choque de deixar para trás a liberdade que me descreveu

Muito grande. A decisão de ficar porque eu vinha de férias para voltar. Achava que a minha vida ia ser toda em África e achava que era uma vida muito interessante. Mas o meu pai falou que precisava de alguém, portanto, gostava que eu ficasse. Eu tinha uma verdadeira adoração pelo meu pai e, portanto, fazer qualquer coisa para que eu não me achava totalmente preparada e dotada, mas porque o meu pai queria eu iria fazer tudo para poder merecer essa benção, essa vantagem. Se o meu pai me queria, eu iria fazer tudo. Claro que deixei todos os meus outros sonhos para servir esse. 

O que fazia a Casa Carregosa à altura?

Vendia e comprava títulos. Hoje é muito normal, mas na altura não era porque em Portugal não havia muito a cultura de investir, por exemplo, em obrigações do Tesouro - nem sei ao certo se havia. Sei que Salazar havia consolidado dívida quando foi para o governo. Havia consolidados os centenários e outros assim, mas não era sedutor como alternativa de poupança.

Os títulos estrangeiros forneciam isso e, portanto, era o que nós fazíamos, o nosso negócio era precisamente a compra e venda de títulos. Eram altamente fungíveis: a pessoa precisava dinheiro, ia lá e realizava. Penso era interessante. 

Como foi a entrada no mundo financeiro? Apesar de ter crescido muito ligada à Casa Carregosa, não era a sua área nem de trabalho nem de estudos. 

Quando fui para corretora da bolsa, já tinha cerca de dez anos de prática de títulos e era uma das condições que eles pediam para o concurso. Dra uma licenciatura adequada, a minha não seria muito, e/ou prática de títulos, e eu isso tinha. Que ninguém tinha, porque na altura ninguém dava muito valor à bolsa. Portugal não é um país que seja tradicionalmente de bolsa, não é como os Estados Unidos.

A Casa Carregosa essencialmente tratava de títulos, portanto, era ali que eu tinha aprendido, era daquilo que eu achava que sabia alguma coisa. Escolheram-me. Na altura, o ministro das Finanças era o doutor Miguel Cadilha e foi ele que assinou a aprovação.

As coisas tinham mudado muito. Na altura, o código era muito antigo. Ainda dizia ser corretor era uma profissão viril e de denominação régia. Ora, há quanto tempo não tínhamos rei, não é? Portanto, as coisas estavam mesmo muito diferentes. E porque não uma mulher? 

Em 1980 fui nomeada como corretora. Soube que tinha sido escolhida, engraçado, no dia 4 de dezembro. Eu sofri tanto com a morte de Sá Carneiro. Tinha tantas esperanças, achava que aquele senhor era um político diferente e ainda hoje acho que Portugal teria sido diferente se ele não tivesse sido vítima de um atentado. De maneira que acho que foi o dia que me marcou porque foram duas coisas muito importantes para mim. 

O que é que a leva a entrar nesse concurso para a Bolsa Portuguesa? 

Olhe, a principal motivação era arranjar uma alternativa para poder continuar com a Casa Carregosa, porque o negócio dos títulos estrangeiros estava vedado - passou para os bancos - e, portanto, eu fiz da Casa Carregosa o meu escritório, foi uma alternativa muito dentro do campo financeiro. Eu sou muito crente, acho que foi qualquer coisa que as forças divinas me puseram no colo, porque não havia nada mais a propósito.

Repare que na altura, quando começamos, éramos três corretores. Os outros dois eram dois economistas perfeitamente desconhecidos e eu era conhecidíssima. Chamavam-me a menina do banco, porque realmente já estava ali há anos na Casa Carregosa e, portanto, ia continuar com um negócio semelhante, agora com títulos nacionais.

É a primeira mulher corretora oficial da Bolsa Portuguesa. Ainda se lembra do começo em janeiro de 1981?

Ainda me lembro bem, até porque a Mariana também se lembraria, foi o primeiro dia da sua nova profissão, não é? Além do mais, estava a falar na Mariana, mas a Mariana tem muitas colegas jornalistas. Umas seguiram este caminho, outras seguiram aquele. Mas corretores de bolsa não havia. Portanto, além de ser a minha nova vida, era uma vida que não tinha sido assim muito experimentada. Não teria muito feedback de todo aquilo, percebe? Foi qualquer coisa de muito emocionante para mim. 

Sentiu diferença por ser mulher a primeira mulher a ter esse cargo? 

Não, para mim foi muito favorável. Foi muito favorável porque os outros eram homens, plural, e mulher era só uma. Portanto, o meu nome já era precedido de artigo definido. Era a corretora, não havia mais nenhuma. Nunca estudei marketing, mas era uma forma de individualizar, de identificar.

Para mim foi sempre muito bom e eu fui sempre muito bem acolhida pelos meus colegas, pelo mercado, pelo público.

Em qualquer área, arrisco dizer, está muito marcada a primeira vez que uma mulher assumiu determinado cargo. Inicialmente pode haver uma certa resistência, até como houve o contrário. Por exemplo, a educação era uma profissão conhecida por ser desempenhada sobretudo por senhoras, assim como enfermagem. 

Porquê? Porque trabalhavam algumas horas, não trabalhavam como os homens. Faziam aquele pezinho e voltavam para tratar da casa e dos filhos. Portanto, enfermeira, professora e telefonista eram as três profissões que se adaptavam ainda a poder manter o ser dona de casa, o ser mãe, tudo isso dava muito jeito, não é? Ainda hoje tenho muitas amigas que são economistas e que ficaram no ensino. Porquê? Porque eu têm férias, porque àquela hora vêm para casa, portanto é cómodo. 

Eu fui muito bem acolhida e tenho consciência de que fui muito mais bem acolhida do que os meus colegas homens por ser mulher. Além de que havia um bocadinho de curiosidade, tive muitas vantagens nisso. 

Como é que foi estar na liderança durante várias fases da Casa Carregosa?

Acho que a pessoa se adapta porque tem que se adaptar. Mas foi engraçado.

Quando fui nomeada corretora a lei dizia que não podia fazer sociedades com ninguém. Só podia ser uma sociedade em comandita simples, que era uma coisa um bocadinho estranha. Porque os meus sócios seriam solidários comigo nos prejuízos que eu pudesse ter, responderiam com tudo o que era deles. Ninguém estaria para isso, não é? Portanto, não havia hipóteses.

Passados uns anos, os corretores, sobretudo os novos que apareciam no mercado, tinham antes de começar funções que ter alguém que fizesse sociedade com eles. O que até ali era proibido, agora era obrigatório. Pronto. Nessa altura já tinha alguém.O Banco Santander, que conhecia e tinha relações com o meu pai, com a Casa Carregosa. Até porque o Banco Santander também provinha de uma casa tal como a Carregosa e, portanto, escolheu-me a mim porque vinha de um sítio que lhes era conhecido. Então fizemos a BCI Valores. Correu tudo muito bem, mesmo a parte de negociações que foi feita com o Santander Negócios em Madrid.

Correu muito bem, foi uma experiência boa e simpática, tiveram sempre muita consideração por mim, fizemos uma sociedade, instalamo-nos numa casa que nós fizemos. Engraçado, mesmo em frente à Casa Carregosa, havia uma ourivesaria que era muito tradicional no Porto e que era de uma família boa, tradicional, rica e que tinha uma casa lindíssima. Só que estava muito velha e então nós recuperámos essa casa. Dificuldades, porque os tetos eram todos muito trabalhados e muito bonitos e nós queríamos mantê-los. Pronto, mas ao fim desses trabalhos todos, conseguimos fazer uma casa muito bonita, um escritório muito bonito, onde se instalou a sociedade. 

Uma coisa era o Banco Santander, que estava em Madrid e as pessoas que negociaram connosco, outra coisa são as pessoas que estão cá. De maneira que, ao fim de uns tempos, achámos por bem desfazer a sociedade e foi ótimo termos feito uma casa só com aquele propósito porque assim nós voltamos à Casa Carregosa, que estava intacta e os senhores compraram tudo, inclusive o prédio 

Como foi o dia em que a Casa Carregosa se transforma no Banco Carregosa? 

Recordo-me perfeitamente. Estava em casa a almoçar e o telefone tocou. Era um senhor que na altura era importante no banco de Portugal e que teve a amabilidade de ligar, até porque demorou um bocadinho. Ele dizia-me: "Finalmente, o banco está autorizado". A Mariana pode achar que é exagero, mas não é. Lembro perfeitamente do sítio de minha casa onde estava, como estava tudo, tudo, tudo... Aquilo realmente foi um momento, como agora se diz, muito intenso. Foi assim que eu recebi a notícia. O Banco de Portugal teve essa amabilidade, essa gentileza. Não sei se terá com toda a gente, também não se autorizam bancos todos os dias, comigo tiveram essa preocupação e eu fiquei-lhes gratíssima.

O Banco Carregosa é um bocadinho meu filho, percebe? A ideia não foi minha, digo-lhe já. Foi um colega meu que se lembrou, porque nós tínhamos uma sociedade. Depois do Banco Santander, fizemos outra Corretora Carregosa e tivemos uma sociedade financeira de corretagem. Nessa altura houve umas alterações no âmbito das sociedades financeiras de corretagem. Nós achamos que aquilo não estava bem, o que nos permitiam e o que nos proibiam, não deixava espaço para uma coisa que considerássemos normal. Portanto, houve um colega meu que se lembrou: "E porque não transformarmo-nos em banco?" Eu fui atrás e vamos tratar disso. Sem dúvida nenhuma, cabe aqui uma palavra de grande gratidão ao senhor Américo Amorim, porque ele ouviu-nos e aderiu e interessou-se.

Claro que ele era uma pessoa que estava numa posição em que já tinha tido um banco, já tinha sido o maior investidor como pessoa - não como empresa - de um banco em Espanha. De qualquer maneira interessou-se por nós. Não tratou de nada, mas estava atento. Foi realmente uma pessoa que nos deu muita força só pelo facto de dizer: "Eu serei acionista porque acredito em vós". Isto é muito importante. Era o homem mais rico de Portugal e, portanto, na altura, gostei muito que acontecesse. 

Foi uma prova de confiança. 

Enquanto viveu ia aos nossos conselhos da administração, era uma pessoa muito amiga e que tinha muita preocupação de nos respeitar muito, mas também dizer a sua opinião. Isso é importante. Fizemos o nosso caminho. Hoje acho que o banco está muito bem instalado, fez o seu percurso muito normal, mas muito correto.

Tenho um CEO que admiro muito porque não só é muito sabedor como pessoa, é um homem muito bom para estar próximo das quase cento e quarenta pessoas que trabalham no banco. É preciso saber que são pessoas. Ele tem essa preocupação. Todos sabem que podem contar com ele e connosco, que somos acionistas. Eu sou presidente do banco e sou administradora não executiva, não estou tão envolvida como já estive, mas sei que o banco está muito bem entregue, dá muita satisfação e é confortável.

É confortável saber até que o próprio Banco de Portugal olha pra nós com confiança. Isto é muito bom e é porque durante estes anos nós soubemos dar provas, senão tal não acontecia.

Foram muitos anos na liderança, não necessariamente do banco em si que começa em 2009, mas há toda uma história por trás.

É muito importante. Olhe, o meu pai às vezes dizia assim, meio a sério e meio a brincar: "Se durante tantos anos nunca nos quiseram fechar a porta, há uma qualidade que nós temos garantido, somos sérios". Isso, acho que é muito importante. Foi uma instituição que resistiu a guerras, a revoluções, formou-se em 1833 - era a altura do Cerco do Porto. Portanto, alturas muito conturbadas. Aquela casa deve ter conseguido manter o seu norte e manter-se sempre igual a si própria. Abrir e fechar as portas, sempre com um semblante de seriedade que os clientes gostavam de ver. Era isso que eu queria. Faço muita questão.

Não sei se consigo, mas pelo menos enquanto lá estiver vou lutando. Eu faço muita força para que o banco seja considerado um banco pequeno. Há muitos que dizem que é familiar e eu acho que não, mas é um banco pequenino e que tem um bocadinho de mais preocupações que os outros. A nossa preocupação não é ser um banco rentável.... Claro que sem rentabilidade não existe banco, agora além da rentabilidade exijo com a mesma força uma diferença: tem que ser um bocadinho mais discreto e ao mesmo tempo dar nas vistas pela tal diferença que eu acho que aquela casa deve ter. Não nasceu nos anos oitenta e nem nos anos setenta, nasceu há séculos. Nasceu noutro tempo e num tempo em que as pessoas eram mais consideradas e mais respeitadas. Acho que um dos problemas dos nossos dias é as pessoas não se respeitarem e não se considerarem. Isso é muito importante.

Há dias fiquei muito contente quando, falando com uma pessoa amiga de um outro banco, comercial grande, me dizia assim: "Ah, está tudo muito bem, mas ter aquelas frescuras que o Banco Carregosa tem, de ter duas telefonistas e ter pessoas que atendam sempre os clientes, nós isso não temos, nem queremos." Eu fiquei tão contente, porque realmente as tais frescuras que a senhora achava que são inutilidades. O cliente tem sempre quem o atenda, não é o telemóvel do gestor de conta, é o Banco Carregosa que tem quem atenda os clientes, que tem uma pessoa que venha à porta e que trata as pessoas como pessoas importantes, porque se forem nossos clientes, são infalivelmente pessoas importantes. Isto eu gostava que fosse o nosso timbre, que se mantivesse, que é uma coisa que nos bancos não existe. Nós entramos e, de um modo geral, as pessoas são todas números. Claro que eu sei que distinguem clientes muito importantes que são recebidos assim, mas não é isso que eu quero. É o cliente que bate à porta e que quer ser recebido. É o que acontecia na Casa Carregosa.

A Mariana não se lembra disso porque hoje em dia nós não lidamos muito com dinheiro, mas quando se lidava muito com dinheiro, era muito natural nós querermos uma nota de menor valor, uma moeda... Então uma pessoa que ia na rua entrava num banco: "E não me troca cinquenta escudos?" Ninguém entrava na Casa Carregosa, porque todo aquele aspecto era um bocadinho intimidante. Mas, ao mesmo tempo, a pessoa tinha a certeza que quando entrasse iria ser muito bem atendida.

Há alguma memória destes mais de cinquenta anos que guarde com mais carinho. 

Acho que guardo todas. Acho que a minha vida é uma sucessão de boas recordações. Claro que qualquer instituição passa por momentos maus, não é? Nós tivemos, por exemplo, o caso do Banco Espírito Santo, que foi uma angústia, uma aflição. Dias antes o Presidente da República tinha dito que o Banco Espírito Santo era um banco confiável, portanto nós acreditamos. O governador do Banco de Portugal dizia isso, portanto nós acreditamos. Como é natural, perdemos muito dinheiro. São momentos maus, mas que, no fundo, nós achamos que quem tem uma instituição como é o Banco Carregosa tem que existir.

Da mesma maneira, temos, por vezes, manifestações da parte dos clientes e, se quer que lhe diga, às vezes até dos próprios supervisores, pormenores que nos fazem sentir que vale a pena, o nosso empenhamento tão grande numa instituição para querer ser diferente. Não é muito uma ambição de o querer tornar num banco muito grande, é uma ambição de querer tornar e manter um banco muito diferente. 

O que a motiva a continuar no ativo? 

Primeiro, ninguém gosta mais do Banco Carregosa do que eu. Ninguém. Ninguém quer o melhor dos melhores para o Banco Carregosa mais do que eu. Falei há pouco no meu CEO, acho uma pessoa extraordinária, dedicadíssima. Dentro do Banco Carregosa, sou presidente e tenho um amigo meu que esteve comigo desde o princípio, portanto, somos colegas há quarenta e tal anos. Não é fácil encontrar uma amizade destas. Somos muito amigos e comungamos dessa vontade de querer o melhor para o banco. Mas quem quer mesmo o melhor sou eu, é um amor como o da mãe. Não há ninguém que goste mais do seu filho. Agora, também não perspetivo ter muitos anos à frente do Banco Carregosa, mas enquanto lá estou sinto que o meu papel eu ainda faço bem feito e, portanto, acho que estamos bem. 

O que lhe falta fazer?

Há sempre muita coisa a fazer, sobretudo pensando no banco. Não me vou maçar com isso.

Na minha idade é curioso, sente-se que como indivíduo uma pessoa que chega à minha idade sente que o que tu tinhas a fazer realmente importante ou fizeste ou nunca mais fazes. Isto existe, isto é uma realidade. Não quer dizer que a partir daqui seja tudo dias inúteis, de maneira nenhuma. Há que continuar. Tive uma vida muito simpática. As pessoas dizem que nasci com uma boa estrela. Não sei muito bem qual será a expressão aconselhável, mas uma coisa é certa, a vida foi muito simpática e eu tenho a sensação de que, em relação à vida, deu-me mais do que eu lhe dei. Há pessoas que se esforçam muito, muito, muito, muito, muito para conseguir um bocadinho. Acho que o que fiz durante a minha vida foi levar sempre tudo muito a sério e fazer sempre tudo o melhor que podia. Mas acho que a vida deu-me sempre em troca. Portanto, acho que falta muito. Falta sempre fazer muito. Mas esta noção do que falta fazer é que nos impele para um amanhã melhor. Nós nunca atingimos o patamar a que nos propomos. Nunca. Nós propomo-nos realmente, mas nunca lá chegamos. E é bom não chegarmos.

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio, no Rayo ou nas plataformas de podcast.