Maricarmen, o símbolo da crise da habitação em Madrid

A madrilena ficou desalojada aos 87, depois de sete décadas no Bairro do Retiro, apesar dos apelos das Nações Unidas para travar o processo.

Maricarmen tem 87 anos e está desalojada depois de 70 anos na mesma casa em Madrid. Foi despejada de casa na noite desta terça-feira, dia 22 de setembro, à quarta tentativa e apesar dos pedidos das Nações Unidas.

Durante o processo estavam concentradas mais de dez mil pessoas à porta da (agora) antiga casa da octogenária numa demonstração de apoio. As autoridades dispersaram os manifestantes com gás pimenta e empurrões, segundo os órgãos de comunicação locais.

Mais do triplo da renda

A família de Maricarmen morava nesta casa no Bairro do Retiro, na Rua Saunz de Baranda, desde 1956. O contrato antigo de renda esteve em nome do pai e da mulher, até chegar a Maricarmen em 2005. O imóvel foi vendido em 2018 acabou por passar para a sociedade imobiliária Urbagestión Desarrollo e Inversión S.L.

O Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas pediu ao Governo espanhol que parasse o despejo e garantisse uma solução habitacional em junho. A responsabilidade foi remetida para o Município e para a Comunidade de Madrid, que afirmou que a proprietária rejeitou a oferta para ficar no apartamento: 2500 euros de renda por mês (mais 247% do que pagava).

Ao ser retirada de casa, perante jornalistas, Maricarmen deixou um apelo: "Lutem, não fiquem em casa. Lutem pela vossa habitação, que tendes direito a ela."

O assunto atravessou o Atlântico. Numa conferência de imprensa em Nova Iorque, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, falou numa "tragédia" e prometeu levar o caso "com caráter de urgência" ao parlamento. 

"O despejo de Maricarmen hoje é uma tragédia social que não podemos aceitar, nem como país, nem, claro, da perspectiva das instituições públicas."

Depois de Maricarmen ser retirada do apartamento, coube ao primo Vicente levar os poucos pertences que conseguiu juntar numa mala. A octogenária passou a primeira noite no hospital e o jornal espanhol El País avança que apresenta um quatro de esgotamento severo, com ansiedade agravada pelo desalojamento.

A crise da habitação em Madrid tem motivado várias marchas ao longo do ano. O preço das rendas aumentou 30% desde 2022, segundo os dados do Centro de Investigaciones Sociológicas de Madrid citados pela Euronews.