Marisa Liz: "este disco nasce dos meus dilúvios"
Entrevista também a Paulinho Moska, que colabora ativamente no novo álbum a solo da ex-vocalista dos Amor Electro.
Sai hoje o segundo álbum a solo de Marisa Liz, "Relatos De Um Coração Confuso". O álbum é um eletrocardiograma das arritmias de alma da ex-cantora dos Amor Electro, que o brasileiro Paulinho Moska soube reanimar e converter num novo “caminho”, como colaborador ativo em quatro músicas do novo disco.
Rui Veloso, Camané, Monobloco e até o orquestrador Martim Sousa Tavares são alguns dos intervenientes, junto de uma base musical com a assiduidade do teclista e guitarrista Gui Salgueiro, do baterista Ricardo Danin ou do ex-membro dos Amor Electro, Tiago Pais Dias.
Entrevistámos Marisa Liz e Paulinho Moska em alturas diferentes.
Este é um disco de romantismo dorido, sob o signo da despedida ou da crise?
Acho que não tem só a ver com romance. Acho que é um disco que fala de amor e das várias formas que existem de amar e de todas as emoções que sentimos por causa disso. Eu acho que este disco vem de uma confusão interna, que tem a ver comigo, com os meus sentimentos, com as minhas emoções, com a forma como o meu cérebro trabalha, que tem a ver com as relações que me rodeiam. Mas é uma confusão que se alarga às emoções de tudo o que eu sinto em relação ao que se passa no nosso mundo. Esta confusão vem de um lugar de alguma insegurança, como ser humano.
Às vezes, essa insegurança também abre muitos caminhos.
Epá, não sei, eu sempre fui muito insegura. Portanto, não é uma coisa nova que me aconteceu. Eu andava a sentir algum medo, alguma insegurança, não só em relação ao mundo, mas em relação a nós, em relação àquilo que nós queremos, às nossas vontades, ao caminho que nós estamos a seguir, para nos ajudarmos uns aos outros. Foram avassaladoras as emoções que eu fui sentindo ao longo dos tempos e tinha que transformar isto em música e tornar as minhas confusões ou as coisas por que eu tinha receio ou insegurança, torná-las em coisas bonitas.
Algumas destas músicas parecem ser de rotura conjugal, como os temas ‘Longe’ e ‘Pedaço’.
Eu acho que há aí várias canções de rotura, nem todas conjugais. Parece que quando temos uma relação, ela tem que ser romântica, e não é essa a minha opinião. Há aqui muitas canções que não são relacionadas com ninguém, são relacionadas comigo. Às vezes, a rotura é comigo mesma. Eu ando em dilúvios internos que me fazem também ter estas emoções e elas serem direcionadas a mim. Agora, eu acho que neste disco tens várias emoções que todos nós já sentimos. Mas todas elas falam de emoções diferentes. Tens, por exemplo, uma canção como ‘O Fim’, que é uma celebração da vida, que nada tem a ver com uma relação… mas tem a ver com relações.
Celebras de alguma maneira uma reformulação.
É uma espécie de reset, não é? Ou de transformação. A transformação e a criação são essenciais, para o nosso bem-estar mental e emocional. Por exemplo, este ‘Longe’, que tu estavas a falar, é uma canção do Francisco [Melo], que é um miúdo, eu acho que esta é a primeira canção dele editada. A canção que entra neste disco não é uma história minha, é uma história que eu já senti. E o meu trabalho é interpretar. Este disco são lutas emocionais. Umas ganham-se, outras perdem-se.
Além do Paulinho Moska, tens dois nomes fortes a colaborar no disco: o Rui Veloso e o Camané.
No outro disco, o único dueto que eu fiz foi com a minha filha e neste disco tenho duetos só com homens. Tenho com o Monobloco, tenho com o Paulinho Moska, com o Camané e com o Rui Veloso. Foram duetos que, como em tudo, vêm sempre depois da música existir. Não faz sentido eu pensar em alguém para cantar antes de ter uma canção. Aliás, as ideias de alguém para cantar surgem depois de teres a música. No ‘Gente Aberta’, quando decidi fazer esta versão, e depois da pré-produção, a primeira voz que eu ouvi foi logo a do Camané. Tinha mais malta para pôr nesse tema, que eu até queria que fosse com mais vozes, e de repente, pensei melhor, e comecei a imaginar o que seria e, na minha cabeça, disse para mim mesmo: "Epá, eu acho que não é preciso mais ninguém". Aliás, o Camané começa a cantar e só me apetece bater palmas a toda a hora.
Como é que foi com o Rui?
Eu conheço o Rui há muitos anos. Nunca tínhamos feito uma cena há uns anos, uma versão da ‘Beatriz’ do Chico Buarque, para uma ação de solidariedade. Oiço o Rui Veloso desde que eu me conheço. Senti-o genuinamente feliz de estar ali. Senti que ele gostou da música [‘É Por Te Amar’] de forma genuína. Aquilo que era para ser só a gravação de uma voz tornou-se numa noite de música, onde ficamos a falar até às tantas da manhã sobre a música que curtíamos. E eu ainda lhe peço para ele fazer o solo de guitarra. Eu já tinha aquilo tudo preparado naquela e disse-lhe: "Olha, o solo de guitarra era mesmo fixe que fosses tu, não é?". De repente, tens aquele solo à Rui Veloso.
Qual foi a tua característica que o Paulinho Moska veio agitar em ti?
Não é o agitar. O agitar, eu acho que já ninguém consegue agitar mais nada aqui. Aquilo que o Paulinho me mostrou foi que toda esta confusão interna que eu tinha. Não era uma coisa negativa, mas sim uma coisa positiva. Eu já tinha o nome do disco, era a única coisa que eu tinha antes de começar a pedir canções, era o nome do disco. Tanto eu como o Paulinho, acho que nós nos ajudámos mutuamente a descoser uma data de coisas que nos estavam a prender. É emocionante e é fixe perceber que das quatro canções que ele fez, três delas ele vai pôr no disco dele, com versões completamente diferentes. Depois, tive a sorte também de ter o Salsa a fazer vários arranjos de cordas para depois o Martim Sousa Tavares com a orquestra poder juntar-se.
Como é que descreves a tua colaboração com a Marisa Liz, Paulinho?
PM - Nós nos conhecemos, eu e Marisa, há mais de vinte anos, quando o programador do Rock in Rio, o Zé Ricardo, junto com o Roberto Medina, que é o idealizador e realizador do Rock in Rio, trouxeram o festival aqui para Lisboa e fizeram o primeiro Rock in Rio Lisboa. E o Zé Ricardo me apresentou à banda Amor Electro. Ele disse: "vocês são parecidos", porque na época eu estava trabalhando também com um um rock eletrónico, um rock com influência inglesa e ele achou que tinha a ver e ele tinha super-razão, porque eu adorei a banda, achei a Marisa espetacular, uma cantora muito expressiva já naquela época. E a apresentação foi ótima. Eu vim com dois músicos brasileiros que trabalhavam comigo, o percussionista Marcos Suzano e o guitarrista Billy Brandão, e nós nos juntamos aos Amor Electro e fizemos essa apresentação com repertório dos dois misturados. E eu adorei e fiquei ligado à Marisa. Ela depois saiu da banda e eu fiquei atento à carreira dela, até que ela foi ao Rio uma vez e a gente se encontrou. Depois, eu vim duas vezes a Lisboa fazer shows com o meu violão e convidei-a para cantar e ela aceitou. Em cada encontro desses, a gente ia reafirmando a cumplicidade musical entre nós. Eu ia sempre admirando muito o jeito dela cantar e ela confessando também que escutava muito as minhas canções e o meu disco “Mobile”, de 1999, que foi um disco importante para ela. Neste ano [2025] ela me ligou, mais ou menos em março, me pedindo música para um disco novo que ela ia gravar. Eu andava muito pouco criativo, porque durante a pandemia, eu transferi a minha criatividade para um livro que eu comecei a escrever e para a cozinha, porque eu comecei a cozinhar em casa para os filhos e eu sou um pouco obsessivo com os meus focos. Eu parei de tocar violão. Eu fazia aqueles lives meio tristes, mas, na verdade, eu parei de compor. Eu tinha uma máquina de composição muito ativa, eu escrevia muito e tocava muito o tempo todo. E durante a pandemia, fiquei muito triste, muito deprimido e perdi um pouco gosto da música. Fiquei concentrado na saúde da minha família, na segurança. Ficámos absolutamente isolados durante dois anos. Um ano e meio, pelo menos, foi muito. E nesse ano e meio, eu cozinhava o tempo todo, me tornei um bom cozinheiro. As pessoas gostam da minha comida, porque eu errei muito, tive tempo de errar. Errei muitas vezes, até que eu consegui entender um pouco dos temperos e das carnes e das massas e dos molhos. Até que quando ela me ligou esse ano [2025], eu ainda não tinha voltado muito bem a compor, não estava nada criativo e disse-lhe: "não sei se eu vou conseguir te ajudar. Eu estou muito pouco criativo, não estou conseguindo fazer nada, mas vamos conversar". Eu falei de repente, “eu te ajudo". Ela estava passando por uma crise conjugal, da relação amorosa dela. Foi interessante, porque durante a conversa, tentei convencê-la de que as crises não são um problema. As crises são matéria-prima para o artista. E que ela não devia ter medo dessa crise, porque ela devia usar essa crise. Aí, eu falei: "crise não é problema, é caminho". E eu acho que isso foi bom para ela e para mim, porque na nossa conversa eu anotei muitas coisas e, curiosamente, em menos de uma semana eu já lhe tinha feito duas músicas e gostei muito das canções. E então ela resolveu ir para o Brasil e quando ela entrou no avião, eu fiz a terceira música. E quando ela chegou ao Rio, que foi lá em casa, eu fiz a quarta música. E para mim, foi uma libertação, porque eu não compunha há muito tempo e eu gostei das quatro músicas. A verdade é que eu também resolvi gravar o meu disco e estou usando três das quatro músicas que eu lhe fiz, porque, por causa desses quatro temas, eu comecei a compor outras canções. Voltei a escrever, voltei a a criar. Eu estava só tocando, fazendo shows das músicas antigas e fez bem para mim. Foi um reencontro nosso que foi uma libertação dos dois lados, cada um com a sua crise. Nós acreditamos no que os gregos falam sobre crise. Crise, em grego, significa oportunidade. E nós mudamos um pouco esse sentido. Colocámos a negatividade em cima da oportunidade, típica do mundo moderno, mas a oportunidade é a matéria-prima da vida, feita do seu olhar para a oportunidade. A vida provou-nos isso. A nossa crise levou-nos a uma produção nova. O disco dela está ficando muito lindo, é uma produção maravilhosa. Eu estive no estúdio ontem, vim a Lisboa para poder participar de duas das quatro músicas minhas. Eu toquei em duas e cantei com ela uma, fizemos uma colaboração. Um duo. E eu fiquei muito feliz de escutar o material, acho que o disco dela está maravilhoso, uma produção espetacular e as minhas músicas estão muito bem representadas, bem diferentes dos meus arranjos. Fiquei muito feliz de ver isso. Como uma canção pode ser tão diferente na maneira que você olha e ouve e canta. Mas é isso, vim cá para participar, para dar um abraço nela. Eu acho que principalmente para nós dois nos abraçarmos e celebrarmos essa libertação. Fiquei feliz por a crise amorosa dela ficar resolvida. Ela ainda está com o cônjuge e estive com os dois ontem e rimos muito disso tudo. Como a vida nos oferece caminhos muito tortos, é para chegarmos a lugares muito poderosos. É bom que a gente acredite na crise. A gente tem é que levar fé nos problemas. A gente não pode ter medo dos buracos na estrada. Eles servem para balançar o carro, para a gente entrar no eixo de novo, um novo eixo. Acho que foi uma grande lição para nós ao dois.
O que viste na Marisa Liz que te atraiu para escrever tantas músicas para ela?
PM - Desde que eu conheci a Marisa nos Amor Electro, eu percebi a visceralidade do canto dela. A Marisa não é uma pessoa que está aí querendo somente acertar. Ela arrisca e se entrega, alcançando um resultado de muita expressão. Eu escutei quase todas as músicas do disco, as minhas e as outras, e ela entrega tudo em todas as músicas. Quando ela canta suave, é muito intimista. E quando ela canta para fora, com força, é muito rock and roll. Então, eu gosto, porque eu também sou assim, sou capaz de ser muito delicado e, ao mesmo tempo, violentamente punk. Eu sou filho da MPB, da Música Popular Brasileira, com a sua sofisticação harmónica, melódica e rítmica, mas também fui um adolescente nos anos oitenta. Então, o rock brasileiro e internacional, e me moldou ali na minha adolescência e eu trago isso dentro de mim, essa violência criativa do rock, da essência punk. Então, eu acho que eu faço uma música sofisticadamente brasileira, mas bem objetiva, com essa influência do punk rock. A minha vida também é um pouco assim. Os meus filhos sempre falam: "pai, você é muito doido e muito responsável".
A letra do ‘Desistir Jamais’ tem tudo a ver contigo, Marisa, com a tua personalidade tenaz, não é?
ML - Acho que sim, sim. É uma canção por que eu tenho um orgulho tremendo pelos compositores, que fizeram esta canção. Tenho o Paulo Mendonça, que escreveu esta letra, que se tornou um anjo na minha vida, é das pessoas mais mágicas que eu já conheci. Escreveu muitos anos para os Secos & Molhados e para o Ney Matogrosso, e para vários outros artistas. É o disco que eu menos compus até hoje, porque precisava de me desafiar a interpretar coisas que não saíssem só de mim, porque não posso continuar a ser a mesma cantora quando não sou a mesma pessoa. E então essa evolução tem que existir mais ou menos ao mesmo tempo, se não vai dar mais confusão ainda.
