Marisa Liz lança hoje inédito de António Variações

Entrevista à cantora e ao co-produtor Moullinex, no estúdio dos músicos, em Marvila.

A vocalista dos Amor Electro, Marisa Liz, inicia hoje oficialmente o seu percurso em nome próprio, com o lançamento do single 'Guerra Nuclear', escrito e composto por… António Variações.

A caixa de sapatos onde se armazenaram as badaladas cassetes de gravações rudimentares de António Variações continua a render inéditos. Com o aval dos herdeiros do cantor, Marisa Liz é a mais recente beneficiária das suas sobras de luxo, depois do supergrupo Humanos ou mesmo de Lena D’Água terem interpretado e revelado (em décadas anteriores) temas desconhecidos de Variações, cujos esqueletos estavam escancarados nas tais fitas domésticas.

Era de Lena D’Água e da sua Banda Atlântida um dos muitos temas anti-nucleares que se lançaram no início dos anos 80, durante um dos períodos mais tensos da Guerra Fria, entre as superpotências dos Estados Unidos e da União Soviética. A canção em causa, composta por João Pedro Fonseca, intitulava-se 'Nuclear, Não Obrigado', publicada em 1982, no mesmo ano de 'Celebration' dos U2 (o primeiro dos muitos temas politizados da banda de Bono), um ano depois de 'Ronnie Talk To Russia' de Prince (a vã e bem intencionada tentativa de mediação entre a Casa Branca e o Kremlin) e dois anos depois de outros temas anti-nucleares como 'Breathing' de Kate Bush (sobre o bebé apavorado que quer regressar à barriga da mãe) e o célebre 'Enola Gay' dos Orchestral Manoeuvres in the Dark (que alerta para uma repetição da história, lembrando as bombas atómicas de Agosto de 1945 atiradas contra o Japão).

Sem sabermos, António Variações também se preocupou com o assunto nuclear durante a Guerra Fria, no início dos anos 80. E deixou gravado e escrito numa das cassetes o tema Guerra Nuclear. “A loucura está a vencer o juízo / O ódio, a amizade / Estão-se a despir de toda a humanidade”, escreveu e cantou.

Marisa Liz assume agora a interpretação da canção, com os arranjos e a co-produção de Moullinex, o seu “parceiro de crime” (como a cantora lhe chama) com quem está a preparar o seu primeiro álbum em nome individual. 

A música pacifista de protesto termina como um assomo do vulto vocal de António Variações saído das tais cassetes, em que canta ele próprio: “Vou-me queixar / Estou-me a alarmar /Vou suplicar / Ao Deus da vida p’ra os neutralizar / Vou implorar”

Marisa Liz pôde usar alguns objetos pessoais de António Variações. Gravou a canção tocando o guizo do cantor. E no vídeo usa a sua boina e os seus brincos. O referido videoclipe é dirigido por João Maia, precisamente o realizador do filme biográfico sobre o cantor minhoto, "Variações".

Há ainda mais uma curiosidade: o ator e músico Diogo Branco, neto de José Mário Branco, que fez parte do elenco do mencionado filme de João Maia, reencontra-se com o legado de António Variações como o guitarrista que ajudou a gravar o single de Marisa Liz, 'Guerra Nuclear'. Diogo Branco faz parte da banda que está a gravar o primeiro álbum a solo da cantora dos Amor Electro.

Pode ser visto em cima o vídeo da entrevista a Marisa Liz e a Moullinex, num estúdio de Marvila, em Lisboa.

Em baixo, podem ler a entrevista na íntegra.

Como é que o tema do António Variações chegou até ti?
Marisa Liz - Por tudo o que a humanidade está a passar [a Guerra da Ucrânia], os herdeiros [de António Variações] acharam urgente que esta música saísse, numa mensagem que, infelizmente, o António não conseguiu passar, porque morreu. Nós não conseguimos bem datar quando é que esta canção foi feita, mas os herdeiros calculam que tenha sido por volta de 1983, porque na gravação já se ouve parte da banda, com os beats atrás. [É] uma canção que foi feita há trinta e tal anos por causa de uma guerra que estava para acontecer. Se o António Variações ainda não estava apresentado, apresentou-se uma vez mais. Há trinta e tal anos, apesar de não ser uma guerra num país vizinho, ele já estava a escrever sobre isto. Já estava a lutar por um caminho em que acreditava, o único caminho possível para sermos felizes. É de uma vez por todas conseguirmos ser… humanos. Até agora não fomos. Não sei porque é que nos deram este nome. Até agora, não conseguimos fazer jus àquilo que nos chamam: ser humano.  
Eu tive a oportunidade de ouvir a canção, que foi muito difícil: ouvir uma canção do António Variações, cuja voz não ouvíamos há trinta e tal anos, com esta letra e esta melodia. Tive que respirar fundo. Acho que nem cheguei a meio da canção. Tive que parar, respirar um bocado, chorar, voltar atrás: “vamos ouvir outra vez”. E lutei para que fosse eu a passar essa mensagem, não só porque queria muito mas porque precisava de dizer estas coisas. Depois de eles me darem a oportunidade de ser eu a mensageira. Mas eu precisava de um parceiro de crime para levar isto ao sítio que a canção merecia. Eu e o Moullinex já andamos a trabalhar noutras coisas: o meu disco a solo, já não é segredo. Não fez sentido na minha cabeça não ser ele, com todo o talento que tem e com toda a estética. Se o António Variações fosse vivo e fizesse um arranjo desta canção em 2022, quero acreditar que não estaria longe disto.   

Moullinex, imagino que este inédito do Variações tenha sido um desafio estimulante à tua criatividade de arranjador e de produtor.
Moulinnex - Foi mesmo estimulante e desafiante, no sentido de responsabilidade que queremos ter. Eu respondo ao desafio com o ‘bora lá. Quando um homem é chamado para produzir, a mulher fica um pouco obscurecida. Isto foi uma co-produção e um diálogo. Eu tinha o fio condutor: de que forma é que podemos honrar o António Variações? Obviamente, demos o nosso melhor. Fizemos tudo o que podiamos. A performance vocal da Marisa foi imediata, em muito poucos takes. Foi genuíno. Quando se trabalha assim, trabalha-se depressa e com uma noção de urgência, numa imediatez que este trabalho tem. Foi um dos maiores desafios profissionais que tive, mas na verdade passou-se tão depressa e foi tão fluído que estou ainda a flutuar de todo o processo.    

Era crucial ter a voz do Variações no final?
ML – Foi uma coincidência. Por acaso, o tom em que canto esta música é o tom original.
M – Eu acho que não é por acaso.
ML – Se não, isto não iria ser possível. Se eu não estivesse a cantar no tom do António, nós não teríamos posto a voz do António. Depois há o trabalho do Luís [Clara Gomes] em tirar a voz através da captação de um microfone de rádio. Nota-se que a gravação é antiga mas está como se estivesse gravado hoje. Eu aqui não mexi um dedo. Esta ideia do António aparecer na canção não foi logo imediata. Foi sendo construída mas foi muito rápida. “Isto tem que ter a voz dele”. Até porque não ouviamos a voz do António há trinta e tal anos. Eu sou um instrumento aqui. Estou a dar cama e a apresentar o António Variações para quando ele entra na canção. Porque esta é a canção dele, a letra dele, mas é uma luta de todos. E aí estamos juntos com o António. Depois tivemos a sorte de ter alguns objetos dele que os herdeiros nos disponibilizaram: este guizo que entrou no áudio da introdução da canção [Marisa Liz mostra-nos o guizo], como coisas que usei no vídeo como a boina e os brincos. Portanto, o António esteve neste processo o tempo todo.

O Guerra Nuclear vem das tais cassetes do António?
ML - Sim, estava na caixa de sapatos do António.

Há uma sensação de surpresa ao terem um tema destes à vossa disposição? É como ouro às vossas mãos?
M – A sensação que tive foi muito idêntica à de quando me deram o catálogo da Casablanca Records, para fazer uma remistura. Na altura, escolhi o Michael Sembello. Se calhar, ainda fica mais emocionado agora, por ser cá de casa, uma das maiores figuras do século XX. É alguém que não vem de um centro urbano, vem de perto de Braga. Sempre assumiu a sua identidade em todos os aspetos, na sua vida e na sua arte. Só poder ouvi-lo já é um privilégio, quanto mais poder trabalhá-lo.

O José Mário Branco, quando teve pela primeira vez em mãos as canções do José Afonso, disse ter sentido a "responsabilidade de quem está a lapidar diamantes em bruto". Sentiram o mesmo tipo de responsabilidade quando tiveram à disposição este inédito do Variações?
ML - O peso estava lá. Mas a outra opção não está lá. Era um peso que queria ter, é uma responsabilidade que eu queria ter. Estamos a falar do António Variações e de uma canção como esta e que não nos podemos esquecer daquilo que nos ensinou e que nos tem ensinado tanto. As pessoas só morrem quando os outros se esquecerem que elas existiram. E nós não nos podemos esquecer que este mestre existiu e que nos continua a ensinar passados trinta e tal anos. A humanidade está a evoluir em tanta coisa, estamos cada vez mais rápidos, a tecnologia está no auge, os miúdos hoje em dia falam três línguas com três ou quatro anos e não estamos a evoluir emocionalmente em nada. O nosso coração está a regredir. A empatia, apesar de ter picos, aparece num plano secundário. Os nossos objetivos de vida passam por ter e não por ser. O António ensinou-nos já quando era vivo, e continua-nos a ensinar, que se não seguirmos a nossa essência e não tivermos a decência de nos aceitarmos, nenhum de nós vai ser aquilo que é. Portanto, nenhum de nós vai ser feliz. Então, não vale a pena estarmos cá. Esse grito de liberdade está implícito na canção. E quando se fala em liberdade não é anarquia, não é quando um fazer o que quiser. Liberdade é sermos o que somos, sentirmos, procurarmos um caminho para sermos cada vez melhores pessoas. Não é para termos isto e aquilo. Embora sermos… melhores! O que está implícito é o de que enquanto não formos livres, a guerra nuclear está iminente. Está assim de acontecer. E não são necessárias bombas, nós já nos fazemos mal uns aos outros sem bomba nenhuma. É necessário mudar o chip e esse chip só pode ser mudado se formos todos. Vamos ouvi-lo, é só isso.   
M – A pertinência da mensagem, passados mais de 30 anos, é assustadora. O António Variações, com esta canção e com tantas outras em toda a sua obra, ensina-nos a ser individuais. As coisas que nos caracterizam e nos individualizam, que nos tornam únicos e originais, são as coisas que não podemos esconder. Não temos que ter vergonha de ser dos arredores de Braga, não temos que ter vergonha de sermos portugueses, não temos que ter vergonha da sexualidade e das opções que quisermos ter na vida. Temos que torná-las no centro da nossa expressão. Essa é a maior mensagem que retiro daqui: alguém profundamente sensível a uma coisa que estava a acontecer no planeta, estava a sentir-se em pânico com a iminência de uma guerra nuclear e quis fazer uma canção de revolta, no meio de uma obra tão vasta que ele fez. O facto de ser tão relevante hoje em dia só mostra o quão grande escritor de canções ele era.  

'Guerra Nuclear' já foi gravado depois de concluído o teu primeiro álbum a solo?
ML – Não, esta é a primeira canção terminada. Estão muitas a meio. Estamos a trabalhar para o álbum. Já estávamos a trabalhar antes disto acontecer, que foi um presente que caiu do céu. Eu não estava de todo a contar com isto e já não consigo viver sem isto. Daqui para a frente, iremos mostrar outras coisas. Este é o meu primeiro single a solo, que não é a solo, porque está com o António Variações, o Moullinex e com a guitarra do Diogo Branco. Nesta canção, quisemos ir para um lado mais eletrónico e as partes orgânicas foram escolhidas a dedo. Foi a guitarra, foram as duas vozes e foi o guizo do António Variações.

Estão a gravar em trio o álbum?
ML - Não é só em trio. Temos tido outras pessoas, mas ainda estamos nesse processo de construção. Como o Luís diz, o processo do tema do António foi rápido. Eu acho que nunca me senti sozinha neste processo. Eu já vinha com muitas ideias daquilo que eu queria, mas há muitas delas que não são boas e que o Luís tem melhores. Há outras que são fixes e que aproveitamos. Isto é um trabalho de equipa. Estamos a divertir-nos a fazer música. Pelo menos, é o que sinto.
M – Quando fazes o que mais gostas, não te sabe a trabalho. O processo tem sido muito natural e intuitivo. A Marisa já me traz isso, pegando na expressão do José Mário Branco, diamante em bruto. É muito fácil trabalhar canções com um potencial enorme, como com uma voz como a da Marisa. O Diogo tinha a guitarra do avô presente - “ai é a guitarra do teu avô?”. Eu nem sabia que o avô dele era o José Mário [Branco]. Eu não merecia estar a tocar na guitarra do José Mário, tive que a pousar. Depois é que eu fiz as pazes com o facto de aquilo me estar a acontecer.
ML – É impressionante a sorte que tivemos. Não só tivemos o tema do António Variações, como vamos ter a sonoridade da guitarra do José Mário Branco no disco inteiro e aqui temos que agradecer ao Diogo. Vamos ter a sonoridade do José Mário Branco pelas mãos do neto.  

Sobre o vídeo de Guerra Nuclear...
ML – A minha ideia de opção estética foi de liberdade. Obviamente, começa com a opção estética comigo de boina, como eu estivesse num exército de paz a cantar aquelas coisas. Eu depois continuo esse exército numa das Marisas que tenho aqui dentro que vão saindo, uma às duas da tarde, outra às seis da manhã. Deixem-me ser livre. Se há coisa que ele nos ensinou é a sermos livres.