Marisa Liz, uma força da natureza no Marés Vivas
Cantora mostrou garra para fazer dos girassóis seres mais resistentes que os cactos.
O palco principal do festival Marés Vivas abriu neste sábado com a energia colossal de Marisa Liz. Neste concerto de uma hora, a cantora portuguesa mostrou-se de garras afiadas, a ocupar muito bem o palco. Aproxima-se de qualquer um dos seus quatro instrumentistas, totalmente sincronizada com a sua banda. Bate palmas, esbraceja, sorri para uma das câmaras, transbordando simpatia e vivacidade a cada segundo. Mesmo quando as músicas são mais calmas, mantém a atitude em alta, sempre expressiva e gesticulada.
Com um vestido branco com a inscrição de “Free People” e umas botas Dr. Martens, deu o destaque esperado ao seu álbum único a solo, “Girassóis e Tempestades”, começando a atuação com os temas 'Silêncio' e 'Eu Não Mereço'. No tema seguinte, 'Azar O Teu', Marisa Liz canta “estás sem ar”, mas à cantora dos Amor Electro não lhe falta ar nenhum, a aproveitar a supremacia instrumental do funk, com o luxo para os ziguezagues que o género tem, e que abençoa 'Azar o Teu'.
A fases de duetos com vozes de ausentes inicia-se com o single novo 'Garota', em que Liz pede palmas para Maninho, que se ouve em voz gravada, num tema rodeado pela imensa floresta do samba e do MPB, num universo sentimental lusófono da saudade. Marisa Liz, sempre cheia de pilhas, consegue orquestrar uma coreografia de braços no ar e consegue pôr o público a cantar a novíssima música. Depois, cai ‘A Noite’, com a televoz de estúdio de Carlão, no intercâmbio que se consegue com Marisa Liz. Quando os músicos se aproximam, dois deles vão buscar os bancos, prenunciando-se um momento unplugged, que é na verdade a versão de 'Um Dia de Domingo', com António Zambujo em tamanho gigante no ecrã atrás. O dueto entre Liz e Zambujo dá-se um volume mais baixo que o original de Tim Maia e Gal Costa
O dueto seguinte já é presencial, com a participação em palco de Beatriz Dias - só Bia para Marisa Liz - em 'Contigo', uma recriação de uma relação entre mãe e filha em forma de balada. A maré prossegue calma com o intimista 'Foi Assim Que Aconteceu', com Mariza Liz apenas acompanhada pelo seu teclista, com o ecrã a florir de girassóis.
'Olha Lá' é rock dançante a lembrar a Stevie Nicks a solo do início dos anos 80. O tema é avassalado por uma febre amarela, com Marisa Liz a rodar um guarda-chuva amarelo e com uma chuva de papelinhos dessa cor. Durante a interpretação de 'Olha Lá', surge ainda uma trupe de quatro drag queens de fatos prateados, a somar ainda mais impacto a uma música que já não passava discreta.
A versão de ‘À Minha Maneira’ dos Xutos & Pontapés leva com um banho de sintetizadores, arrebatado também pelo apoio popular, num hino rock muito querido pelos portugueses. Até no desfile de créditos da sua equipa, Marisa Liz é uma força da natureza, lembrando-se de umas quase 50 pessoas sem falhar, com uma memória capaz de fixar duas páginas inteiras das antigas listas telefónicas, após ter cantado 'Virar A Cara'.
O remate do concerto é forte, com 'Guerra Nuclear', que Marisa Liz apresenta, e bem, como um “tema pela paz”. A música foi composta por António Variações no início dos anos 80, numa altura de tensão nuclear da Guerra Fria que inspirou uma vaga de canções como ‘Enola Gay’ dos Orchestral Manoeuvres in the Dark ou ‘Breathing’ de Kate Bush. Quando surge a voz de protesto de António Variações e a sua forte imagem, a terra estremece... e volta a estremecer com o público inteiro a fazer o gesto dos corações, enquanto que Mariza Liz e os seus companheiros de estrada impunham cartazes pela paz.















